sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Bons tempos do Excelsior

O Conjunto Excelsior, foi fundado em dezembro de 1964, a partir da ideia de alguns estudantes gabrielenses: Luis Carlos Ribeiro, Iran de Britto Condessa, Plauto Ruchiga, Carlos Luis Gerzson, Siderlei Santos Leal, Antonio Paulo Machado, Alceu Barel e Adalberto Bortoluzzi.

Em 2014 o Conjunto completou 50 anos. Com a finalidade de animar os bailes da sociedade local, aos poucos foi se formando e se tornando conhecido. Primeiro na própria cidade de São Gabriel, depois nas cidades vizinhas, como Rosário do Sul, Livramento, Dom Pedrito e Bagé.

À medida que ia se tornando conhecido, alargavam-se os horizontes. Nos anos seguintes, as viagens, que sempre eram realizadas numa velha combi, iam se tornando mais longas pelas distâncias, pois já conquistara outras praças maiores, como Pelotas, Rio Grande, Santa Maria, Caxias do Sul e tantas outras.

Com a fama chegando rápida, surgiu o convite para fazer uma temporada de verão na praia. O Conjunto, por quatro temporadas (1967 a 1970) tocava, à noite, no conhecido Restaurante Figueira, em Tramandaí.

O fato marcante na época ficou por conta de uma feliz coincidência. A residência onde estavam hospedados os componentes do Conjunto Excelsior foi dividida para acomodar, também, os componentes do Conjunto Musical de Norberto Baldauff, por exatos 30 dias, já que eles tocavam no, não menos badalado, Restaurante Tahiti, que ficava do outro lado da rua.

Um anúncio em Zero Hora que informava as atrações de fim de semana nas praias, dizia : “Em Tramandaí, visite o Restaurante Figueira, dance com o Conjunto Excelsior e ouça o mais novo papel carbono de Roberto Carlos “, referindo-se ao vocalista do conjunto, que interpretava os maiores sucessos do Rei na época.

No ano de 1967, com o Conjunto Excelsior no auge da fama em todo o Estado, o senhor Maurício Sirotsky Sobrinho, diretor presidente da TV GAÚCHA CANAL 12, futura RBS TV,fez um convite para uma apresentação no programa de auditório GR-SHOW, comandado pelo saudoso apresentador Glênio Reis.

Naquela época da TV em preto e branco, o programa era ao vivo, por isso o nervosismo tomava conta do artista na hora da apresentação, já que qualquer deslize não havia como corrigir. Mas ao final saiu tudo perfeito. Na ocasião, apresentaram-se, também, o conjunto musical de João Roberto, de Cachoeira do Sul e o cantor Luiz Vieira, conhecido pela música “ Paz do meu amor”.

O Conjunto Excelsior tinha a seguinte formação: Plauto Evangelho Ruchiga (sax); Luiz Carlos Ribeiro - falecido (teclado); Carlos Luiz Gerzson (piston); Alceu Barel (baterista) ;HiIran de Britto Condessa-falecido (contrabaixista); Antonio Paulo Torres Machado (guitarra, vocal); Siderlei Santos Leal (vocalista); Adalberto Bortoluzzi (percussionista, vocal).

Na parte instrumental eram executadas músicas consagradas por orquestras como as de Glenn Miller, Billy Vaughn, Ray Coniff, Herb Alpert`s Tijuana Brass, entre outras. Na parte vocal, dançava-se ao som de músicas que faziam muito sucesso na época, como as que embalaram os Anos Dourados da Jovem Guarda e Bossa Nova.

Em 18 de outubro de 2014, realizou-se uma festa de comemoração dos 50 Anos do Conjunto Excelsior, no salão do Clube Comercial de São Gabriel. O Conjunto Excelsior, apresentou-se com os músicos convidados Paulo Cezar Braga (guitarra), Mussum (teclados),??? (baterista), e Pelé (contrabaixo).

Vestindo o uniforme da época em lamé (vermelho o do vocalista e dourado os demais), executou o repertório com as músicas que o consagrou. Com o salão lotado do início ao fim do baile a emoção tomou conta de todos.

Ocorre que, muitos dos casais presentes iniciaram o namoro na década de 60, ao som das suas melodias. Isso permitiu pensar, que o destino do Conjunto Excelsior era mesmo o de ser o elo entre o presente e o passado daqueles gabrielenses, bem como de tantos outros gaúchos que com ele dançaram nos bailes da vida, por este Rio Grande do Sul afora. (Texto: Siderlei Leal - Fotos: Blogs do Conjunto "Excelsior" e de Plauto Evangelho Ruchiga)









quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Um time que deixou saudade


Essa foto foi tirada antes de um jogo da saudosa S.E.R. São Gabriel, o time de maior longevidade no futebol gabrielense. O adversário do amistoso era o S.C. Internacional, de Porto Alegre. Tempo gloriooso do futebol da terra. Os atletas ganhavam pouco, ou nada, mas tinham algo muito importante: vergonha na cara. Que saudade.

Em pé: José Carlos Trindade (diretor) - Arlindo Vargas (médico) - Mandarino - Toco - Rudnei - Júlio César - Betão e Caio Flávio. Agachados: Nilo Dias (presidente) - César - Mauro - Márcio - Vando e Leó. (Foto: Arquivo de Nilo Dias)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Quem lembra da Casa Natal?


A Casa Natal, de Naim Neme, era uma loja de tecidos que ficava na rua Celestino Cavalheiro. Ele era tio do amigo advogado Georges Kodayssi Filho, de cuja página no Facebook foi retirada essa foto, datada de 1961. Atenção para o detalhe: no muro em frente, propaganda do PTB e seu candidato a prefeito na época, Sampaio Marques Luz.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Exposição sobre o cultivo de arroz nos anos 30 em São Gabriel

De 17 de abril a 15 de maio de 2015 foi realizada no Museu Nossa Senhora do Rosário Bonfim, a exposição "O Cultivo do Arroz em São Gabriel no ano de 1930, na visão de Isaías Evangelho”, com fotos do acervo de Eulália Salgado Leitão.

A inauguração da mostra contou com a presença de familiares de Eulália, representados pelo seu filho Nabor Salgado Leitão, autoridades e convidados. A mostra traz um histórico do arroz no mundo, Rio Grande do Sul e em São Gabriel, além das fotos feitas por Isaias Evangelho mostrando os trabalhos para o plantio do grão no município e o precursionismo de Nabor Salgado, pai de Eulália, na Estância Campestre. Todos os registros foram guardados por Eulália, falecida em 2013.

Materiais trazem variedades de arroz, painéis informativos e fotos de Isaías Evangelho
Como visionário que era, Nabor implementou novas fontes de produção de arroz no Estado, e levou o cultivo para Alvear (Argentina) e Itaqui (Rio Grande do Sul), iniciando oficialmente a plantação de arroz nestas cidades.

Ele ainda adquiriu 18 sesmarias de campo à margem esquerda do Rio Vacacaí, sendo o pioneiro neste setor. O neto Nabor agradeceu emocionado, a homenagem prestada à família e à sua mãe, que cuidou do acervo com dedicação até o final de sua vida.

A mostra ainda teve uma explicação técnica da bióloga Iana de Souza, da Urbano Agroindustrial, que falou sobre as variedades de arroz produzidas pela empresa e os seus variados fins. A mostra teve apoio da Urbano, Sanrighi, Comercial 3 Letras, Associação Amigos do Museu e da Família Salgado. (Fonte e fotos: Caderno 7)

Gerson Barreto, Nabor Salgado Leitão, José Fernando dos Santos e Glécio Rodrigues, chefe do Museu, na época.

A Exposição foi aberta oficialmente na noite de sexta-feira, 17 de abril de 2015.

Painéis informativos e fotos de Isaías Evangelho.

Produtos feitos com arroz também foram apresentados.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O grande "chef" de São Gabriel

Aroldo Guedes é o melhor cozinheiro de culinária gaúcha, que existe em São Gabriel. É figura obrigatória em qualquer festa campeira na cidade. E também participa de eventos fora de São Gabriel, acompanhando os CTGs locais. É um grande amigo que tenho, companheiro de muitas jornadas etilicas e de incomparáveis churrascos.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Há 262 anos atrás morria Sepé Tiaraju


No dia 7 de fevereiro de 1756 morria, em São Gabriel (RS), Sepé Tiaraju, um índio guerreiro guarani que se tornou líder das milícias indígenas na batalha contra as tropas luso-brasileira e espanhola na Guerra Guaranítica. 

Esse conflito aconteceu por conta do Tratado de Madrid (1750), que exigia a retirada da população guarani que ali vivia fazia 150 anos. A posse da região ainda seria tema do Tratado de Santo Ildefonso (1777) e do Tratado de Badajoz (1801). 

Sepé Tiaraju morreu durante combate contra o exército espanhol na batalha de Caiboaté, na entrada da cidade de São Gabriel, durante a invasão inimiga às aldeias dos Sete Povos. Após sua morte, outros 1500 foram mortos. 

Nascido em uma data não conhecida em um dos aldeamentos jesuíticos dos Sete Povos das Missões, Sepé Tiaraju foi batizado com o nome cristão de Joseph. Na região, viviam aproximadamente 30 mil guaranis. Se fossem contabilizados os indígenas do Paraguai e da Argentina, o total subia para 80 mil. 

Os luso-brasileiros tinham interesse na saída destes povos por conta da extensão das terras e também por causa do grande rebanho de gado, o maior das Américas, mantido pelos indígenas.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Semana da Pátria de 1966


Banda Sepé Tiaraju da Escola Normal Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Semana da Pátria de 1966. (Foto: Arquivo de Geraldo Tiaraju Barbosa)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O mito do 
Pau Fincado

Encravada entre São Gabriel, Santa Maria e Cacequi, localidade de nome curioso inspira lendas e controvérsias históricas que perpassam os séculos e algumas das guerras mais sangrentas do Rio Grande do Sul.

A primeira acepção de “pau”, em qualquer dicionário da língua portuguesa, vai ser a de pedaço de madeira, lenho, acha. Umas linhas abaixo, na segunda ou terceira definição, o verbete também trará um significado mais chulo – esse mesmo que você está pensando.

Já a palavra “fincar”, no pai dos burros, remete à ideia de inserir, introduzir, meter com força.

O que seria, portanto, um pau fincado? Um tronco cravado em alguma superfície? Uma cena imprópria para menores? Para os propósitos aqui pretendidos, não será nem uma coisa, nem outra. Fica desde já combinado que Pau Fincado é uma localidade bucólica, com séculos de história, que fica no interior do município de São Gabriel.

E, de fato, há lá um pau. Grosso, rugoso, comprido, uns dizem que de guajuvira, outros aventam tarumã. Ele está mesmo fincado, ereto, em um barranco à beira da BR-158, a meio caminho entre Santa Maria e São Gabriel. Tem cerca de dois metros de altura, sem contar a parte que penetra terra adentro.

Alguns garantem que se trata de um marco com mais de 250 anos, do tempo em que minuanos, charruas, jesuítas, espanhóis e portugueses se engalfinhavam, disputando a posse do que viria a ser o Rio Grande do Sul. Outros sustentam que se trata apenas de um sinalizador de divisa entre municípios. Há versões diferentes sobre quem o colocou ali e o porquê, mas todos concordam num ponto: foi do pau que veio o nome da localidade gabrielense.

Não é história recente. Pelo menos desde a primeira metade do século 19, a zona já era conhecida por esse nome, confirmando que o pau está fincado há muito tempo. O médico Douglas de Morais Garcez, 65 anos, que investiga o tema há cerca de 15 anos e sugeriu esta reportagem, cita concessões de sesmarias lavradas a partir de 1806 que já tomam o Pau Fincado como ponto de referência.

Perto do toco transcorreram episódios da Revolução Farroupilha, mencionados em documentos da época. Em 1842, para dar um exemplo, o general Bento Gonçalves enviou uma carta a José Pinheiro de Ulhoa Cintra, ministro plenipotenciário da jovem República Rio-grandense junto ao governo de Corrientes, para relatar os sucessos recentes da guerra: “O general Canabarro, com o 2º corpo do Exército, ocupa o Pau Fincado e suas imediações, e conserva algumas forças pelo Rosário”, informou.

Naquela época, terras dali pertenciam, aliás, a um ilustre farrapo, o estancieiro Luís Gonçalves das Chagas (1815-1894), mais tarde agraciado por Dom Pedro II com o título de Barão de Candiota. Natural de São Gabriel, Chagas tinha apenas 21 anos quando participou da célebre “Batalha do Seival”, em 1836. Também ficou na história por ter se negado a cumprir ordens do general Antônio de Souza Netto para fuzilar prisioneiros legalistas. Acabou afastado da tropa e foi cuidar da vida.

A partir da década de 1840, amealhou glebas que se espalhavam pelos atuais municípios de São Gabriel, Santa Maria, São Vicente do Sul, Lavras do Sul, Bagé, Pinheiro Machado e Candiota. Conforme o jornalista e escritor Roque Callage (1886-1931), Chagas podia percorrer os quase 200 quilômetros entre Santa Maria e Bagé sem sair das suas terras. Entre elas figurava o Pau Fincado.

No livro Trilogia da Campanha: Ivan Pedro de Martins e o Rio Grande Invisível, de Antônio Hohlfeldt, fala-se mesmo em um certo Barão do Pau Fincado. A dada altura, em um dos apêndices da obra, Hohlfeldt reproduz uma gravação deixada por Martins, um importante escritor gaúcho (era de Minas Gerais), sobre sua imersão na literatura:

“Ainda depois, já escapado das malhas que tentavam a minha prisão no Rio, é na biblioteca de um descendente do Barão do Pau Fincado, Atibaia Azambuja, em São Gabriel, que eu venho a devorar os escritores clássicos gregos traduzidos para o francês”, diz ele. Seria Luís Gonçalves das Chagas? Na página dedicada ao estancieiro gaúcho, a plataforma de genealogia “My Heritage” traz a identificação “Barão de Candiota (Barão do Pau Fincado)”.

GUARDIÃO INFORMAL

Ao que parece, até mesmo Dom Pedro II pode ter contemplado o pau, possivelmente levado por Chagas. Quando a Guerra dos Farrapos acabou, o monarca fez questão de viajar ao Rio Grande do Sul para vistoriar a província pacificada, e hospedou-se em São Gabriel, em janeiro de 1846.

Mas não teria sido dessa vez que viu o pau, só duas décadas depois, em agosto de 1865, quando voltou para acompanhar as manobras militares da Guerra do Paraguai. Envolvido na refrega, Chagas recebeu o imperador e providenciou escolta para ele até Uruguaiana. Mas houve uma festa campeira de permeio.

Conforme o artigo “Representações do Pampa nas Paisagens Rurais e Culturais”, assinado por Nara Rejane Zamberlan dos Santos, Nastaja Cassandra Zamberlan dos Santos e Caroline Ciliane Ceretta, “a Estância da Caieira sediou a capital da República Rio-grandense (1841), bem como recepcionou Dom Pedro II e organizou uma festa campeira, sendo considerada a primeira festa tradicional do Rio Grande do Sul, assim como a do Pau Fincado recepcionou o monarca.

Hoje, essas propriedades não existem mais, sendo considerados mais de 200 anos de sua fundação, dando lugar às plantações de eucaliptos. O Barão de Candiota (Luiz Gonçalves das Chagas) mantinha também as propriedades “Santa Lorena”, “Espinilho” e “Mascarenhas”.

Com todo esse pedigree, é irônico que hoje em dia a “Pau Fincado” não possa ser mencionado sem que risotas zombeteiras brotem nos lábios e piadas de duplo sentido pipoquem uma após a outra.

Também surpreende que, apesar do aparente valor histórico e simbólico, não tenha qualquer placa informativa e fique aos cuidados de um guardião informal. Ele é o trabalhador rural Januário Santos da Silva, 47 anos, que mora bem em fronte à tora e, por isso, dá a ela alguma atenção, ainda que, quando questionado se cuida do pau, solte o indefectível risinho e tire o corpo fora: – Eu não! Cuido nada!

Mas a verdade é que, quando notou haver morcegos vivendo dentro do toco, onde entraram por uma rachadura, Januário expulsou-os com veneno. E, ao perceber que a terra do barranco podia ceder, arriando o pau, bolou um estratagema para mantê-lo em guarda, firme: enfiou um velho pneu até a base, ajudando a fixá-lo no solo. Preocupado, lamenta que a madeira esteja a apodrecer e defende que seja besuntada com algum tipo de produto que a mantenha viçosa.

Com frequência, Januário costuma recepcionar curiosos que aparecem com o objetivo de admirar o tronco célebre: – As pessoas chegam de carro, tiram fotos. Tem uns que param e perguntam: “Onde é que fica o pau?”. Eu digo: “Mas é esse aí”. Acho que esperavam mais.

A única placa nas proximidades foi colocada pela mulher de Januário, mas não ajuda a sinalizar o marco ou a enobrecer sua importância histórica, apenas cria um ambiente cômico e multiplica as piadas.

Com tino comercial, ela espetou no barranco à beira da estrada, bem ao pé do lenho, o letreiro com os dizeres: “Vende-se ovos” – com o probleminha de concordância e tudo. Januário parece se dar conta da estranha combinação pela primeira vez e cai na gargalhada. – Pau com ovos! Ficou engraçado – reconhece.

Apesar de saber da relevância do tronco, e cuidar dele, o morador mais próximo demonstra não ter uma ideia muito clara de como ele foi parar ali:

– Os mais velhos falavam que era um marco, diz que era do tempo antigo, que não podia mexer. Que era do tempo de não sei de quem, durante a guerra. Que botavam um marco para os cavaleiros saberem qual era o caminho que deviam seguir. Também falavam que era para a divisão dos municípios.

TRÍPLICE FRONTEIRA

Diante dessas afirmações pouco esclarecedoras, era prudente procurar um morador de tempos mais remotos, que pudesse conservar relatos ancestrais. A pessoa indicada parecia ser Naldivo dos Santos da Silva, que nasceu no “Pau Fincado” e passou seus 78 anos de vida na localidade.

– Nasci aqui, me criei aqui e nunca saí daqui. Sou dos mais antigos. O que sei é que tem aquele pau ali desde que me conheço por gente – conta Silva, diante de sua casa modesta, em uma propriedade de 10 hectares que ele diz ter obtido através de um processo de “usucampeão”.

Sentado à frente da residência, ele desenha com o dedo, no chão, a geografia da zona e vai explicando que o tronco está no local para marcar a separação entre municípios:

– Aqui é a faixa. Aqui é aquela entrada que vem para a faixa. Aqui o senhor entra. Aqui é o pau, Então aqui é São Gabriel, aqui é Cacequi e aqui é Santa Maria. Esse pau é a divisa dos municípios. São Gabriel, Santa Maria e Cacequi.

Para tirar a dúvida, seria prudente consultar alguém enfronhado na história local, mas o historiador gabrielense de referência, Osório Santana de Figueiredo, morreu em agosto passado, aos 91 anos.

Restou a alternativa de consultar os livros que ele publicou. O mais significativo deles talvez seja “História de São Gabriel”, um cartapácio de meio quilo e mais de 300 páginas. A obra, de fato, traz uma passagem sobre a procedência do marco, mas ela aparece apenas nas páginas finais, em um seção intitulada “Origem de Alguns Passos e Locativos do Município”. É breve e não traz nenhuma indicação de fontes:

“Pau Fincado: Distrito de Tiaraju. Poste de madeira cravado pelos jesuítas e que servia como ponto de referência para o caminho da Colônia do Sacramento. Após encontrá-lo, buscavam o Cerro do Batovi, depois Santa Tecla, até seu destino, e vice-versa. No local ainda existe um pau fincado, em substituição ao primitivo moirão dos missioneiros.”

Como se sabe, nos primórdios da colonização do continente americano, padres jesuítas estabeleceram três dezenas de aldeamentos em regiões ao longo dos rios Uruguai e Paraná, em áreas que hoje fazem parte do noroeste gaúcho, do nordeste da Argentina e do sul do Paraguai.

As missões, contudo, tornaram-se presa de bandeirantes que vinham de São Paulo, o que levou os padres a esconder o gado em zonas mais meridionais, conforme relata o historiador Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva no volume “São Gabriel na História”:

“No longínquo ano de 1636, após as incursões dos bandeirantes Antônio Raposo Tavares, André Fernandes e Fernão Dias Paes (o “Caçador de Esmeraldas”), que destruíram sucessivamente as reduções jesuíticas do Guairá, do Tape e de Jesus Maria, resolveram os jesuítas estabelecer estâncias, postos e povos destinados ao pastoreio do gado mais para o interior da campanha, em regiões somente conhecidas de raros peões e dos índios, onde sabiam ser as pastagens e aguadas magníficas para o restabelecimento dos rebanhos missioneiros”.

A chamada “Vacaria dos Padres” estendia-se da margem sul do Rio Jacuí até o Rio da Prata, incluindo o local onde foi fundada a Colônia do Sacramento – o que justificaria a explicação dada por Osório Santana de Figueiredo para a origem jesuítica do Pau Fincado.

Dezenas de milhares de cabeças de gado xucro, o chamado gado chimarrão, pastavam nessa vasta zona, servindo de reserva para as Missões. Conforme Carvalho e Silva, uma das principais vacarias era a de São Miguel, estabelecida em 1637 por dois religiosos e um grupo de índios, que levaram 40 mil bovinos para a região que hoje corresponde ao município de São Gabriel, para mantê-los fora do alcance dos bandeirantes.

O DOSSIÊ DO PAU FINCADO

Mas será que um tronco de dois metros de altura perdido no meio do cone sul seria um bom indicador de rota? Onde estão os indícios para sustentar essa tese? Teriam mesmo os jesuítas sido os responsáveis? O médico Douglas de Morais Garcez, que teve um antepassado entre os agraciados com sesmarias no Pau Fincado, não acredita nessa versão. – Isso é só lenda – afirma.

Douglas e o irmão, o professor universitário Pedro Garcez, ficaram intrigados com as referências à localidade em velhos documentos. Constataram que ainda existia uma zona de São Gabriel que levava aquele nome e verificaram a existência, no local, de um pau fincado.

Ao longo de década e meia de pesquisa, o médico convenceu-se de que o tronco foi colocado, na verdade, por ordem dos monarcas ibéricos, conforme resumiu em e-mail enviado a ZH, segundo o qual o pau “tem um significado histórico muito importante, mas ainda não identificado adequadamente, nem reconhecido, como marco da delimitação de limites entre as coroas portuguesas e espanholas, em lugar descrito no “Tratado de Madri” e no poema épico “O Uraguai”, de Basílio da Gama, e que deveria ser reverenciado antes de tombar literalmente”.

Assinado em 1750, o “Tratado de Madri” redefinia o limite entre as possessões de lusos e castelhanos na América do Sul. No dossiê que montou sobre o assunto, Garcez cita a obra “Jesuítas no Sul do Brasil”, de Aurélio Porto, segundo a qual os trabalhos de demarcação começaram em outubro de 1752.

O médico argumenta que o tratado determinava que certas vertentes de rios deveriam ser usadas como parâmetro, “a saber, por parte dos domínios de Portugal, para a banda da lagoa Mirim; e, pela parte dos domínios da Espanha, para a banda do Rio da Prata”. De acordo com Garcez, essa linha divisória passava pelo atual “Pau Fincado”, e o pau fincado em si é um dos marcos colocados para sinalizá-la.

– A comissão sobe procurando as vertentes dos rios e bota um marco aqui, um marco ali. O “Tratado de Madri” diz que as vertentes que correm para o oeste delimitam o território espanhol, e as águas que correm para leste, no caso os rios Jacuí e Vacacaí, seriam portuguesas.

Então os demarcadores subiram o Rio Santa Maria e, quando estavam chegando perto do Rio Vacacaí, houve a “Guerra Guaranítica”, quando 3 mil índios das Missões tentaram atacar a comissão demarcadora de limites. Depois da guerra, a comissão se dissolveu e não ficou registro desse marco do “Pau Fincado”, que acho que é de 1753.

Quando se dissolveu a comissão, os soldados que faziam parte dela ganharam sesmarias do governo português, e essas sesmarias foram concedidas dando como localização o “Pau Fincado” – diz o médico.

A “Guerra Guaranítica”, portanto, teria atrapalhado o prosseguimento e o devido registro das demarcações. Motivado pelo “Tratado de Madri” e pela consequente expulsão dos jesuítas e dos índios que viviam sob a guarda deles, o conflito teve de fato batalhas decisivas travadas na redondezas do “Pau Fincado”.

O herói Sepé Tiaraju, por exemplo, foi massacrado com cerca de outros 1,5 mil índios na “Batalha de Caiboaté”, travada no atual território gabrielense.

No entanto, em seu livro, o historiador Carvalho e Silva aborda um trabalho demarcatório na zona de São Gabriel realizado quase três décadas depois do período examinado por Garcez. Ele foi motivado pelo “Tratado de Santo Ildefonso” (1777), que estabeleceu uma nova delimitação dos setores português e espanhol.

Segundo o autor, começou então o demorado trabalho de fixação de limites, “e só em 1784 foram colocados o 3º e o 4º marcos castelhanos nas cabeceiras do Rio Cacequi e no Cerro do Caiboaté; e os lusos os afixaram em um braço do Vacacaí e em frente ao citado Cerro, todos eles em território gabrielense”.

Seja como for, a história do pau tem séculos. E não é desprovida de aventuras. Em 2008, o “Diário de Santa Maria” noticiou que o tronco havia sido removido e plantado oito metros adiante, durante a construção de BR-158.

Os moradores não se conformaram e exigiram a recolocação no ponto original – o que teria sido feito. Mesmo que tenha sido enfiado de novo no orifício que os jesuítas ou os demarcadores ibéricos escolheram, já não seria mais o pau de sempre. Quem garante é Naldivo, testemunha de uma grande movimentação para substituir a peça original por uma nova, episódio ocorrido, segundo ele, mais de 20 anos atrás:

– O pau estava muito velho. Não dava mais. Daí veio uma caravana, vieram uns cavalarianos e um caminhão com um pau novo. Tiraram o velho e colocaram o outro, esse que esta aí, disseram que precisava renovar, porque aquilo não podia terminar. O antigo eles levaram, não sei para onde foi. O que eu sei é que aqui é Pau Fincado, desde o princípio do mundo. Ficou o nome. E vai ser assim até o fim da vida, não é? (Fonte: Jornal "Zero Hora", de Porto Alegre, edição de 3 de fevereiro de 2018 - Texto de Itamar Melo)





sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Visita ao túmulo de Azara

O casal amigo doutor Ricardo Bragança e sua esposa, Neca Bragança, em visita a cidade espanhola de Huesca e ao túmulo de Felix de Azara, fundador de São Gabriel, acompanhados de membros do governo daquele país. A visita ocorreu em julho de 2014, quando Neca era vereadora.

São Gabriel e Huesca são hoje cidades irmãs. Isso só foi possível graças a um projeto de autoria de Ricardo Bragança, quando era vereador  Além do túmulo, Bragança e Neca visitaram a casa onde Azara morou, na cidade de Barbunales, e que ainda pertence a família. Como resultado desse irmanamento, conseguiram recursos na área cultural para São Gabriel. Pena que as autoridades locais não deram continuidade a isso.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Tradição que se mantém


São Gabriel é um dos raros lugares onde se pode ver ao vivo e a cores algumas das velhas carretas, que no passado cruzavam as estradas do interior do município, para comercializarem na cidade os produtos colhidos na roça.

Quando eu morava em São Gabriel tive a oportunidade de conhecer muitas carretas e seus carreteiros, especialmente da Família Langendorff, pois o meu saudoso sogro, Gelcy Motta, revendia em seu "Armazém Motta", muita mercadoria trazida por eles, especialmente o charque em manta.

As duas fotos acima foram publicadas na página da amiga Janice Zambrano,no Facebook e tomei a liberdade de reproduzi-las.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Uma escola que deixou saudade

A Escola Estadual de Ensino Fundamental Doutor Dácio de Assis Brasil, que depois de muitos anos de atividades junto a população da Vila Maria, em São Gabriel, foi fechada em 2000 para dar lugar ao Colégio Tiradentes, da Brigada Militar.

Até hoje a escola, que funcionava na Avenida das Acácias, não foi esquecida por seus alunos, professores e os moradores da agradável e querida vila. As fotos abaixo configuram uma lembrança da escola. fotos martinha martinho oliveira







Fotos publicadas na página de Martinha Martino Oliveira no Facebook.

No local onde funcionou a Escola Doutor Dácio, hoje se encontra o moderno Colégio Militar. (Foto: Página do Colégio no Facebook)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

*Caro Nilo. Recebi o livro "100 anos de Futebol em São Gabriel ". Que maravilha!

O primeiro time que torci e torço até hoje é o G.E. Gabrielense, nos idos de 1955. Lembro que nos jogos contra o Cruzeiro (Clássicos) meu pai e seus colegas do 9º R.C. apostavam no vencedor por caixa de marmelada. Bons tempos...

Parabéns pela obra .

Abraço

Roque Palermo

Aproveito para enviar texto meu lembrando do E.C Internacional de Santa Maria (1965)

“Colorado 65”

Lembranças de um torcedor colorado Santamariense

Há 48 anos em 1965 o Esporte Clube Internacional de Santa Maria, lançava o Projeto “Colorado 65” A maioria dos torcedores não deve lembrar outros até nunca ouviram falar. Não sei quem fazia parte da diretoria, lembro que a movimentação na cidade foi grande com um bom apoio e divulgação da imprensa local.

Causando grande expectativa na torcida colorada e o descrédito dos periquitos e da torcida do Guarani Atlântico que era uma boa equipe naquele tempo. Eu tinha meus 15 anos, e nos dias de treino eu ia assistir e ficava de longe, sentado embaixo dos eucaliptos, aqueles atrás da goleira do portão principal, observando tudo. Já no dia de jogo eu tinha que pular o muro para assistir e torcer pelo time.

O treinador se não me engano veio da cidade de Rio Grande, tinha bom conceito no meio futebolístico. Os jogadores foram chegando, para a zaga trouxeram Santo e Dauth, para lateral Jaburu e Tadeu e o goleiro Cavaleiro, se não me engano e o Nilson titular por muito tempo.

Da equipe do ano anterior lembro-me do ponteiro Caldeira, no meio de campo o craque do time o 10, Espanhol, ou seria Espanha? Não lembro bem o nome, substituído pelo Toninho o “Maneco” pretinho bom de bola. E de todos os lados foram chegando reforços para o “Colorado 65”. O meio atacante Evaldo, e na várzea foram buscar para centro avante o alemão Ênio, entre outros jogadores que não recordo os nomes.

Com certeza foi um projeto vitorioso, que uns três ou quatro anos mais tarde levou o Inter-SM a primeira divisão do futebol Gaúcho, onde permaneceu por uns 20 anos de forma ininterrupta.

Quantos craques vimos jogar nesse período: O ponteiro esquerdo Lulu, o direito Rudnei que parou de jogar devido a um acidente de automóvel, os irmãos Robson e Roberto, Plain vindo do Rio-grandense, Chicota e o Badico atual treinador, o Valdo, vice-campeão do mundo, jogando pelo Cruzeiro mineiro, entre tantos outros.

A equipe de base era forte, formava jogadores para a equipe principal. Nesse período foi construído o pavilhão dos associados.

É chegada a hora dos colorados arregaçarem as mangas e lançarem novamente um grande projeto que possa trazer o INTER-SM de volta a destaque no futebol Gaúcho. Quem sabe! “Colorado 2014”.

 N: O Presidente da época era o Dr. Mario Achutti. Não falei no Lauro, o lateral de uma habilidade e domínio de bola incríveis.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Na Copa de 1970

Esta foto é um verdadeiro achado. Comemoração da conquista do Tri-Campeonato Mundial pela Seleção Brasileira, em 1970. As meninas dentro de um lindo Fusca, frente a casa da senhora Marta Kluwe. A motorista era a menina Malila. O Fusca era de um amigo conhecido por "Tutu". Dentro do carro estavam, ainda, Lu Marder, Silvia Helena Dutra e outras. (Foto: Página de Ana Norberto Bento, no Facebook).

sábado, 20 de janeiro de 2018

Lembrando o passado

1976. Soldados do 6º Batalhão de Engenharia de Combate, de São Gabriel. (Foto: Arquivo de Jefer Estigarraga)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Nos bons tempos da Rádio São Gabriel

Ano de 1958. Equipe da Rádio São Gabriel, atores da rádio-novela, locutores Ivan Gonçalves, Érico Barbosa, Osvaldo Nobre, Osório Santana Figueiredo menino ???, Alcides Hélio Barbosa, ???, Celso Flores e Antônio Paulo. (Foto: Arquivo de Geraldo Tiaraju Barbosa)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Encontro de Debutantes

Turma de "Debutantes 1977", do Clube Comercial realizou o “Encontro dos 40 Anos", no dia 18 de novembro do ano passado. (Foto: Arquivo de Rita Dias)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Festa colorada em Brasília (2)

Eu, Nilo Dias frente o ônibus colorado.

Ônibus do Inter frente o Estádio Nacional Mané Garrincha.

Eu, frente às duas taças do Inter, com destaque para a maior, de "Campeão do Mundo Fifa", único clube gaúcho a ter essa conquista.

Grupo de Colorados na festa do Inter, em Brasília. Os dois primeiros, Teresinha Motta, minha esposa e eu, Nilo Dias.

Eu e uma senhora, participante da Diretoria da "Escola de Samba Acadêmicos da Zona Norte".

Eu e um dos músicos da Escola de Samba "Acadêmicos da Zona Norte. (flautista)

Eu e o vice-presidente da Escola de Samba "Acadêmicos da Zona Norte.




Torcedora entre Pinga e Índio.


O samba rolou solto no salão de festas da "Acadêmicos da Zona Norte".

FOTO EXTRA

Ônibus do Internacional, ainda em Porto Alegre, antes da saída para visita às capitais estaduais. Essa foto me foi enviada pela amiga Adriana Caldas.