sexta-feira, 19 de maio de 2017

São Gabriel na Guerra dos Farrapos (Final)

A Revolução Farroupilha em São Gabriel (Final)

Já o historiador gabrielense, Osório Santana Figueiredo, escreveu em seu livro “História de São Gabriel”, todo um capítulo dedicado a Revolução Farroupilha no município, que, resumidamente, diz o seguinte:

No decênio farroupilha, São Gabriel era apenas uma vila, então terceiro distrito de Caçapava. Em seu solo ocorreram combates cruentos e entreveros épicos. Era comum estar um dia de posse dos revolucionários, e outro nas mãos governistas.

Tão logo os revoltosos ficaram sabendo que o presidente Antônio Rodrigues Fernandes Braga, fora deposto, reuniram-se nas proximidades, constituindo uma força de mais de 300 homens, sob o comando do coronel João Antônio da Silveira, e puseram cerco à vila. A 4 de outubro, ante a iminência do ataque rebelde, as forças legais se renderam confraternizando-se logo após com os atacantes.

Antônio Rodrigues Fernandes Braga foi um juiz, ouvidor de comarca, desembargador e político. Ele foi deputado geral, presidente da província do Rio Grande do Sul quando da Revolução Farroupilha, ministro do Supremo Tribunal de Justiça e senador do Império do Brasil.

Quando Bento Gonçalves marchou para Porto Alegre em 20 de setembro de 1835, o presidente Fernandes Braga se refugiou na cidade de Rio Grande, que se tornou assim a base principal do Império do Brasil no Rio Grande do Sul. Os farroupilhas, como ficaram conhecidos os rebeldes, empossaram Marciano José Pereira Ribeiro como novo presidente. (Wikipédia)

A uma hora da madrugada de 5 de outubro, uma coluna revolucionária dispersou, no distrito de Batovi, uma tropa governista, comandada pelo marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto.

Após um período de arrefecimento das hostilidades, chegou o ano de 1839, registrando-se a 5 de fevereiro um combate junto ao rio Vacacai, onde foi derrotado o caudilho legalista Juca Cipriano, deixando na fuga precipitada, seis mortos e dois feridos. São Gabriel voltava às mãos dos revolucionários.

Em meados desse mesmo ano Bento Gonçalves da Silva esteve em São Gabriel e determinou a criação de uma escola pública, sendo nomeado para dirigi-la o professor Luiz Carlos de Oliveira. A abertura desse colégio teve lugar a 12 de agosto e a matrícula constou de 68 alunos, sendo 43 do sexo masculino.

Durante o ano de 1840, São Gabriel passou ao poder dos imperiais, após a derrota de uma força farroupilha no Passo do Salso, quando foi morto seu comandante, capitão Fileno de Oliveira Santos, e mais três revolucionários.

O coronel legalista Manoel dos Santos Loureiro após infligir essa derrota ao inimigo, ocupou a povoação a 13 de junho, a frente de 700 homens.

O COMBATE DE SÃO FILIPE

A 16 de novembro feriu-se o sangrento combate de São Filipe, distrito de Azevedo Sodré, quando o general Antônio de Souza Neto e o coronel João Antônio da Silveira, bateram a brigada do coronel Gerônimo Jacinto.

No campo de batalha foram contados 80 mortos, 162 prisioneiros, armas e munições em profusão, rica bagagem e 1.500 cavalos. O coronel Jacinto conseguiu escapar com alguns oficiais e praças.

No ano de 1841, São Gabriel novamente voltou às mãos dos revolucionários, passando a ser Capital da República Rio-Grandense. A 27 de fevereiro, Bento Gonçalves chegou na localidade e recebeu o governo do vice-presidente em exercício, coronel José Mariano de Matos. No outro dia, houve um combate em Batovi, sendo derrotados os legalistas, que abandonaram o lugar.

José Mariano de Matos era engenheiro e militar, carioca e republicano, formado pela Escola Militar, foi soldado voluntário no 1º Corpo de Artilharia de Posição.

Foi transferido para o Rio Grande do Sul, em 1830, onde, em 1833, comandou o Corpo de Artilharia a Cavalo e liderou, junto com João Manuel de Lima e Silva, os protestos populares contra a Sociedade Militar, cuja filial tinha sido recém criada em Porto Alegre. A sociedade era suspeita de simpatizar com a restauração de D. Pedro I e não era vista com bons olhos pelos estancieiros.

Foi deputado provincial eleito à 1ª Legislatura da Assembleia Provincial. Esteve presente na sessão de 18 de setembro de 1835 da “Loja Maçônica Philantropia e Liberdade”, que decidiu iniciar a Revolução Farroupilha.

Na República Rio-grandense foi ministro da Guerra e da Marinha, vice-presidente da República e presidente da república interino, em substituição a Bento Gonçalves, de 23 de novembro de 1840 a 14 de março de 1841. Autor do brasão que foi adotado para o Rio Grande do Sul pelos constituintes de 1891.

Próximo do final da revolução foi preso em Piratini, junto com o coronel Joaquim Pedro, por Chico Pedro, o “Moringue”, e encarcerado em Canguçu, na cadeia que este mandara construir como “quarto de hóspedes para os farrapos”, o que ironicamente divulgava.

Finda a revolução, foi ajudante-geral do Duque de Caxias durante a guerra contra Oribe e Rosas entre 1851 e 1852 e, ao voltar ao Rio de Janeiro, retomou sua carreira. Em 1855 participou de diversas experiências sobre o uso de foguete de Halle, conhecidos também como foguetes rotativos, juntamente com o Barão de Capanema.

José Mariano de Matos foi ainda Ministro da Guerra do Império em 1864. Foi o farrapo que chegou mais alto na hierarquia militar do Império, como general, sendo ministro do Conselho Supremo Militar ao falecer. (Wikipédia)

Durante sua permanência em São Gabriel Bento Gonçalves criou uma fábrica de lombilhos, oficinas de armeiros, alfaiatarias e um matadouro de gado. Por essa época viveu no lugar o legendário José Garibaldi, com sua mulher Anita e seu filho Menotti, mais tarde general italiano.

A 18 de junho, na Estância do Meio, foram os revolucionários derrotados, ficando 10 mortos no local, um prisioneiro e muitos feridos. No outro dia, bem próximo, no Batovi, sofreram novo revés, perdendo 30 homens mortos e mais 30 feridos.

Outra vez, a 28 de fevereiro, o tenente-coronel legalista Francisco Pedro de Abreu, o famoso “Morigue” ou “Chico Pedro”, tomou de assalto São Gabriel, fazendo grande número de prisioneiros, volumosa bagagem de guerra, inclusive grande quantidade de armamento novo de infantaria, enviado por Frutuoso Rivera, do Uruguai. O ano de 1842 foi de apenas escaramuças no município.

CAXIAS EM SÃO GABRIEL

A 19 de março de 1941, chegou a São Gabriel o novo comandante em chefe das Forças Imperiais, o Barão de Caxias, instalando no local a sua principal base de operações de combate. Mandou construir um grande entricheiramento aos fundos da Estância do Trilha, denominado de “Entricheiramento do Trilha”.

Ali empotreirou numerosa cavalhada, gado de municio, quatro canhões, grande cópia de munições e demais provisões necessárias. Mais tarde, em 1856, esteve acantonado nesse local o 5º Regimento de Cavalaria Ligeira.

Em São Gabriel, Caxias fez-se forte de 7 mil homens e coordenou o ataque aos farroupilhas em várias direções. Tendo de se afastar deixou ao coronel Jacinto Pinto de Araújo a guarnição de três batalhões de infantaria e 600 cavalarianos, com o fim de proteger os armazéns militares e o gado de reserva.

Sabendo da ausência de Caxias, o coronel Antônio da Silveira, à frente de mil homens, investiu contra o “Trilha” e o fez com tal ímpeto que se apoderou de várias carretas, do gado de abate e de toda a cavalhada.

Durante os oito dias de constantes ataques, prendeu um coronel e deixou mais de 80 inimigos mortos. Só não ocupou a vila porque o Barão, sabendo do desastre de sua tropa, retornou às pressas de Santana do Livramento, fazendo esse percurso em 48 horas, a tempo de salvá-la, com a retirada dos revolucionários.

Em novembro, repetiu-se a façanha. O comandante imperial afastou-se outra vez de São Gabriel e o intrépido farrapo voltou à carga. Foi quando o coronel João Antônio da Silveira aproveitou-se da sua ausência e entrou de novo na vila, cobrando em fazendas para vestir suas tropas, os impostos ha tempos atrasados.

A 28 de abril de 1844, o célebre coronel Carvalhinho derrotou, nas proximidades de São Gabriel, o caudilho legalista João Batista, surpreendendo ainda no dia seguinte a força do tenente-coronel Andrade Neves, futuro Barão do Triunfo.

ENFIM, A PAZ

Por fim raiou o ano de 1845, trazendo a paz e a concórdia a esta heroica província, devastada por 10 logos anos de sangrenta peleja.

Tão logo chegou a São Gabriel a tão ansiada notícia da paz, houve festas e a população, tomada de grande júbilo, percorreu as ruas precedida de uma banda de música, cantando e dançando de alegria. Davam vivas aos pacificadores, notadamente a Caxias, que tanto dera de si pela concretização desse evento.

A 8 de março, às cinco horas e meia da madrugada, chegou inesperadamente em São Gabriel o denodado pacificador, que assim fizera com a modesta intenção de fugir à receptividade que lhe estava reservada.

Não pode, contudo, furtar-se à passagem pelos arcos do triunfo, erguidos no portão de entrada da Caieira, por onde ingressou, na Praça da Matriz e o da Estrada do Forte.

Em São Gabriel, o Barão de Caxias foi alvo das mais retumbantes manifestações de aplausos e regozijos populares. Uma comissão foi organizada para coordenar os festejos, constituída do Juiz de Paz, Antônio de Faria Corrêa, José Ilidório de Figueiredo, Antônio Ferreira Valle, Joaquim José de Freitas Santos, João Raimundo da Silva Santos, Francisco Cândido de Campos, Inocêncio Cócio e Macedônio.

Durante a estada em São Gabriel, o Barão recebeu a visita de um grupo de 11 meninas, sendo a mais velha com 11 anos, assistiu um “Te Deum” na Igreja Matriz, participou de dois bailes em sua homenagem e recebeu a visita de David Canabarro.

No Museu João Pedro Nunes existe um documento raro, onde consta toda a programação em homenagem ao Barão de Caxias, durante sua estada em São Gabriel. Esse folheto, contendo 12 páginas, foi impresso pela tipografia do Exército, na época existente em São Gabriel, composta em quatro dias daquele longínquo mês de março de 1845.

HERÓIS ESQUECIDOS

Embora São Gabriel tenha tido uma participação importante na Revolução Farroupilha, são raras às ruas que lembram os nomes de alguns vultos do decênio guerreiro. Que eu saiba nem o chefe farroupilha, Bento Gonçalves, é lembrado.

E muito menos Antônio de Souza Neto, Anita Garibaldi, Giuseppe Garibaldi, David Canabarro, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Gomes Jardim e tantos outros. Não tenho certeza se ao menos tem alguma rua que homenageie a data, 20 de setembro.

Além do acervo existente no Museu João Pedro Nunes, que é valioso, e hoje encontra-se no novel Museu Nossa Senhora do Rosário Bonfim, este guarda com carinho uma lembrança do ciclo farroupilha. Trata-se de um clarim em bronze e cobre, que segundo se sabe teve um papel estratégico desde a primeira vitória dos farrapos, na tomada de Porto Alegre, em 20 de setembro de 1835.

A história, que é contada de boca em boca narra um desfecho improvável: ao analisar a capacidade de reação dos imperiais, o comandante farrapo teria dado a ordem ao corneteiro para que anunciasse à tropa a necessidade de recuar.

Mas o instrumentista teria se atrapalhado e dado um toque de “avançar”, alterando os rumos do confronto. Apesar da confusão, os soldados farrapos teriam derrotado os inimigos, transformando o instrumentista em protagonista da conquista.

Os livros de história atestam que a atrapalhação estratégica no toque de clarim realmente aconteceu. Mas não na Guerra dos Farrapos, nem sequer no Rio Grande do Sul. O episódio teria sido decisivo para outro combate, ocorrido na Bahia. Treze anos antes. Foi na batalha de Pirajá, em 1822, quando o Brasil lutava contra Portugal para consolidar a independência nacional.

Mesmo não sendo tão ilustre como na versão mais popular, a corneta guardada em São Gabriel é considerada autêntica relíquia da Revolução Farroupilha. Os registros do museu atestam que foi doada pelo ex-governador de Santa Catarina Ptolomeu de Assis Brasil, em 1932.

Mas o que um ex-governador catarinense tem a ver com a corneta dos farrapos? Simples. Ptolomeu era natural de São Gabriel e quis devolver ao Rio Grande do Sul o instrumento que teria sido levado para o Estado vizinho durante as ações militares que desencadearam a proclamação da República Juliana, em 1839.

Assim, quase um século depois de ter anunciado combates, avanços e recuos de tropas dos farrapos que lutaram pela proclamação da república catarinense, a peça acabou retornando ao solo rio-grandense.

O historiador Osório Santana Figueiredo lembra que, naquela época, cada exército tinha a sua corneta — e o corneteiro andava sempre ao lado do comandante, cumprindo uma função importante. “O clarim era um instrumento de guerra”, define o pesquisador.

O corneteiro oficial dos farrapos foi Antônio Ribeiro, que era peão da estância de Bento Gonçalves e permaneceu morando na estância Cristal, em Camaquã, após o fim da guerra, em 1845. Quando morreu, com mais de 80 anos, teria sido enterrado com sua inseparável corneta, que tantos combates anunciou nos 10 anos da Guerra dos Farrapos.

Tataraneto de Bento Gonçalves, o publicitário Raul Moreira diz que até o fim da vida Ribeiro manteve o hábito de tocar a corneta diariamente, como forma de homenagear o antigo líder, morto em 1847. Mas esta já é outra história. (Fonte: Jornal “Zero Hora”)

A SEMANA FARROUPILHA

Em São Gabriel é realizada anualmente uma extensa programação para comemorar a Revolução Farroupilha. Nos CTGs realizam-se fandangos e penhas (comida gaúcha, músicas e danças). No Parque de Exposições Assis Brasil, forma-se o acampamento gaúcho, com barracas montadas e churrasco o dia todo.

No dia 20, data consagrada aos gaúchos, realiza-se o desfile de cavalarianos, um dos maiores do Estado, chegando a reunir cerca de 5 mil participantes.

Dentro das comemorações da Semana Farroupilha 2011, o Museu Nossa Senhora do Rosário Bom Fim, de São Gabriel, foi o palco de uma mesa redonda para debater a vida de David Canabarro e participação do espanhol Don José Guasque na Revolução Farroupilha. Foram palestrantes: doutor Gerson Oliveira (descendente de Guasque) e Elma Sant’Ana, autora do livro sobre o espanhol. (Diversas fontes) (Pesquisa: Nilo Dias)

 Desfile da Semana Farroupilha em São Gabriel, é um dos maiores do Estado. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

São Gabriel na Guerra dos Farrapos (1)

A Revolução Farroupilha foi a mais longa guerra civil da história brasileira, durando de 1835 até 1845. Foram dez anos de batalhas entre Imperialistas e Republicanos. Os primeiros defendiam a manutenção do império e os segundos lutavam pela proclamação da república brasileira.

Esta matéria trata apenas de fatos ocorridos em São Gabriel. Contar tudo o que se passou nesses 10 anos de lutas incessantes, exigiria grossos livros. Mas é importante que as pessoas tenham conhecimento da história. Por isso, espero que os alunos de nossas escolas tenham acesso a tudo isso.

Penetrar nos meandros da história é algo fascinante. Certo dia comentei a esse respeito com o historiador Osório Santana Figueiredo. Quando eu pesquisava em velhos jornais no escritório do amigo Ruy Barros, para escrever o livro “100 anos de futebol em São Gabriel”, de repente eu me sentia “viajando” pelo tempo e estacionando nos acontecimentos de outras épocas.

E o seu Osório me confirmou que é assim mesmo. Da pesquisa sobre o futebol, passei a me interessar por outros temas históricos, em especial que dizem respeito a São Gabriel. Isso, para atender os compromissos que tenho com o jornal “O Fato”, da amiga Ana Rita Focaccia.

E confesso que isso tem me feito um bem enorme. Agora compreendo o porquê da longevidade dos amigos Osório e Dagoberto Focaccia, o primeiro com mais de 90 anos e o segundo com bem vividos 80.

A mente tem que ser usada em sua plenitude. O uso da memória é uma ginástica, seja através da leitura ou da lembrança de coisas passadas. É o que estou fazendo.

Hoje leio muito. Tenho uma apreciável biblioteca que está sempre aumentando. Antes, eu adquiria livros esportivos. Hoje também me interesso por obras históricas, especialmente sobre o Rio Grande do Sul. E aproveito as horas vagas de aposentado, para resumir esses livros e apresenta-los em matérias fáceis de ler e entender, que são publicadas no jornal.

GARIBALDI E ANITA EM SÃO GABRIEL

São Gabriel teve importante participação na Revolução Farroupilha. Em 15 de março de 1841, Giuseppe e Anita Garibaldi chegaram a cidade, onde permaneceram por algum tempo no novo acampamento farroupilha onde foram construídos e improvisados diversos barracões para abrigo das tropas.

O próprio Garibaldi, com auxílio de alguns de seus marinheiros construiu uma cabana, para nela abrigar sua família, a quem passou a dedicar maior atenção, pois havia apenas exercícios militares de adestramento das tropas, sem qualquer confronto com os inimigos nas cercanias. Assim decorreram semanas, onde nada se decidia.

Lá encontraram Francesco Anzani que, segundo Garibaldi, foi o melhor soldado italiano que conheceu e a quem “a Legião Italiana de Montevidéu ficou devendo a sua organização de ferro”.

Anzani era natural de Alzate, Itália, onde nasceu em 1809. Faleceu em Gênova, Itália, em 5 de junho de 1848. Quando jovem lutou pela independência da Grécia. Depois, largou a Universidade de Parma para dirigir-se para a França, onde fez parte do movimento republicano de junho de 1832. Combateu, ainda, contra Dom Miguel, na Guerra Civil Portuguesa, onde foi ferido e na Espanha.

Preso em Gênova, em 1838, pela polícia sarda, foi entregue às autoridades austríacas. Colocado sob vigilância, preferiu emigrar para a América, onde combateu com Giuseppe Garibaldi no Uruguai, participando da batalha de Santo Antônio do Salto, em 8 de fevereiro de 1846.

Retornou à Itália, em 1848, morrendo logo depois de desembarcar em Gênova, vítima de tuberculose. Garibaldi deu o nome de Anzani, a um de seus batalhões.

Quando chegaram a São Gabriel, Anita já dominava e entendia a língua italiana. Com a proximidade do Uruguai, e através dos mensageiros que de lá chegaram, teve os primeiros contatos com a língua espanhola. A ociosidade bélica de Garibaldi durante o tempo passado em São Gabriel foi pródiga em ensinamentos para Anita.

Aqueles funestos dias seriam lembrados para sempre na memória de quem lá esteve. Garibaldi os registrou em suas “Memórias”. Anita detalhou em carta enviada ao casal Costa, em São Simão, os terríveis momentos e as deprimentes cenas de que foi vítima e testemunhou.

São Gabriel teve importante participação na Revolução Farroupilha. Em 15 de março de 1841, Giuseppe e Anita Garibaldi chegaram a cidade, onde permaneceram por algum tempo no novo acampamento farroupilha onde foram construídos e improvisados diversos barracões para abrigo das tropas.

O próprio Garibaldi, com auxílio de alguns de seus marinheiros construiu uma cabana, para nela abrigar sua família, a quem passou a dedicar maior atenção, pois havia apenas exercícios militares de adestramento das tropas, sem qualquer confronto com os inimigos nas cercanias. Assim decorreram semanas, onde nada se decidia.

Lá encontraram Francesco Anzani que, segundo Garibaldi, foi o melhor soldado italiano que conheceu e a quem “a Legião Italiana de Montevidéu ficou devendo a sua organização de ferro”.

Anzani era natural de Alzate, Itália, onde nasceu em 1809. Faleceu em Gênova, Itália, em 5 de junho de 1848. Quando jovem lutou pela independência da Grécia. Depois, largou a Universidade de Parma para dirigir-se para a França, onde fez parte do movimento republicano de junho de 1832. Combateu, ainda, contra Dom Miguel, na Guerra Civil Portuguesa, onde foi ferido e na Espanha.

Preso em Gênova, em 1838, pela polícia sarda, foi entregue às autoridades austríacas. Colocado sob vigilância, preferiu emigrar para a América, onde combateu com Giuseppe Garibaldi no Uruguai, participando da batalha de Santo Antônio do Salto, em 8 de fevereiro de 1846.

Retornou à Itália, em 1848, morrendo logo depois de desembarcar em Gênova, vítima de tuberculose. Garibaldi deu o nome de Anzani, a um de seus batalhões.

Quando chegaram a São Gabriel, Anita já dominava e entendia a língua italiana. Com a proximidade do Uruguai, e através dos mensageiros que de lá chegaram, teve os primeiros contatos com a língua espanhola.

A ociosidade bélica de Garibaldi durante o tempo passado em São Gabriel foi pródiga em ensinamentos para Anita. Aqueles funestos dias seriam lembrados para sempre na memória de quem lá esteve. Garibaldi os registrou em suas “Memórias”. Anita detalhou em carta enviada ao casal Costa, em São Simão, os terríveis momentos e as deprimentes cenas de que foi vítima e testemunhou.

A CARTA DE ANITA

Ao casal Costa.

São Gabriel, 10 de março de 1841: Caros amigos, depois das penosas aventuras por que passamos, parece um sonho viver de novo numa casa confortável e poder escrever com calma esta carta que, graças à cortesia do nosso novo amigo Francesco Anzani, espero que chegue até vocês em pouco tempo.

Imaginem que Francesco ainda tem paciência para me ensinar ortografia, e eu estudo durante as longas horas de ócio que freqüentemente passamos juntos no conforto dos nossos quartéis de São Gabriel. Estamos todos sãos e salvos, mas só por milagre…

Quando nos despedimos … estávamos bem e com saúde, encorajados com a provisão de alimentos que vocês nos quiseram dar e pelos seus votos de boa sorte.

Mas logo a viagem se tomou penosa, por causa das chuvas incessantes. Nunca tomei tanta chuva em toda a minha vida. … alcançamos as tropas dos farrapos e iniciamos com eles a caminhada em direção das alturas. …

A coluna de companheiros parecia estender-se até o infinito. … Ministros, parlamentares, funcionários, empregados, artesãos e pobretões, todos fugitivos, com suas famílias e coisas, animais, provisões, armas, munições e até mesmo máquinas para imprimir jornais.

Vocês não imaginam o sofrimento de todos; por causa do terreno totalmente intransitável, era preciso cortar a vegetação densa, metro por metro, a chuva incessante ensopava nossas roupas, os pés gelados escorregavam na lama, de noite tremíamos de frio e nos apertávamos uns contra os outros, como animais, para conseguir um pouco de calor. …

As reservas de alimentos logo se esgotaram e a caça começou a rarear. Não conseguíamos mais acender fogo, pois a madeira estava toda úmida. Para tornar aceitável algum raro pedaço de carne, nós o colocávamos na garupa do cavalo, sob a cela, até ele cozinhar um pouco com o calor do animal. Depois de atravessar o vale do rio das Antas, começamos a subida.

O sofrimento aumentou ainda mais, por causa do terreno íngreme e da falta de alimento. Todos sofreram, em especial as crianças e as mulheres, que, depois de algum tempo, não conseguiam prosseguir.

A caminhada era muito difícil e as crianças caíam exaustas. As mães, não querendo largá-las, abatiam-se com elas, apesar de saberem que não teriam como se salvar. Às vezes os homens sem coragem de separar-se dos seus ficavam com eles ou então os matavam, para não entregá-los a uma lenta agonia.

Com um reflexo de horror nos olhos, continuavam a caminhada cada vez mais devagar, conscientes de que logo também cairiam exaustos na lama e seriam cobertos pela densa vegetação. Acho que por muito tempo será possível reconstituir a nossa trajetória pela fila de esqueletos que marcam o caminho.

Com certeza nossas perdas foram mais graves do que aquelas que sofremos nas muitas batalhas de que participei. Durante a subida, eu procurava frutas e raízes para comer, qualquer coisa que me pudesse alimentar, porque meu leite estava diminuindo e Menotti, sob o poncho que o prendia ao meu colo, quase já não tinha forças para chorar.

Seus gemidos tornavam-se cada vez mais fracos, a carinha pálida se enrugava, estava sujo, trêmulo e a única coisa que eu podia fazer era soprar por cima dele para lhe dar um pouco de calor.

Eu usava folhas e alguns trapos que restavam para conservá-lo o mais enxuto possível. Nas raras paradas eu lhe dava de mamar.

Muitas vezes vi, com dor no coração, alguma outra mulher tirar seu bebê do meio das roupas e encontrá-lo morto. Imaginem minha apreensão… Pela primeira vez senti minhas forças diminuírem e me cansava até por carregar o peso do menino, que afinal só tinha algumas semanas de vida.

Fiquei grata a José, que, voltando-se para ver se eu o estava seguindo, percebeu a minha angústia e quis carregar Menotti, agasalhando-o embaixo do poncho e conservando-o quente com seu bafo por algum tempo…

Quando mais uma vez a aurora chegou à serra com a sua luz pálida, ele veio até mim. Eu estava deitada, encostada a uma rocha, tentando me proteger do frio de algum jeito. José estava acompanhado de um soldado e trazia duas mulas. Disse para eu partir imediatamente e pôr nosso filho a salvo do outro lado da montanha.

Ele me olhava com aquele jeito de quem não admitia discussão e acrescentou que aquela era a única esperança para Menotti. Devolveu-me o menino depois de beijá-lo carinhosamente.
Então me abraçou e me empurrou na direção das mulas, evitando o meu olhar. Ele não quer me mostrar o quanto essa decisão está lhe custando, pensei.

É claro que eu estava sem forças para resistir. Peguei o Menotti, reduzido a um pacotinho, e parti com o soldado, que puxava as mulas com muito esforço, tropeçando nas pedras e nos arbustos que abundavam na vegetação virgem da serra.

Eu continuava com a impressão de estar escalando o infinito. À noite, deitamos no chão, amontoados sobre os animais exaustos.

As vezes parecia que eu tinha lâminas fincadas na cabeça, e procurava segurar o enjôo que tomava conta de mim no ar rarefeito da montanha. Na tarde seguinte, quando eu já estava achando que se caísse mais uma vez não teria forças para me levantar, notei que o terreno se tornava menos íngreme.

Então pude montar em uma mula, e fui revezando, montando ora em uma ora em outra, para elas não desabarem de exaustão. Passamos mais uma noite quase sem dormir, torturados pela fome. Menotti ainda respirava, mas, quando eu tentava dar-lhe de mamar, mal o sentia sugar.

No dia seguinte, enquanto nos arrastávamos mecanicamente, passo a passo, de repente percebi que o terreno formava um suave declive. Olhei ao redor e não consegui acreditar: a floresta tinha quase acabado e à nossa frente estendiam-se colinas e campos cultivados a perder de vista.

Caminhamos então em direção a uma fumaça que apareceu ao longe, e finalmente chegamos a um acampamento, onde alguns soldados estavam deitados ao redor de uma fogueira, bebendo de seus cantis.

Assim que nos viram, amontoaram-se ao nosso redor para saber quem éramos; pegaram o Menotti, já quase morto, deram-lhe um banho, envolveram-no em roupinhas limpas e lhe deram leite, gota a gota.

Eu também bebi leite de uma tigela fumegante, e aquela me pareceu a bebida mais fina do mundo. Enfim, caros amigos, estávamos salvos… Poucos dias depois, o único vestígio do pesadelo eram os meus pés que continuavam sangrando. Ainda tive que mantê-los enfaixados por muito tempo…

Anita Ribeiro Garibaldi

GARIBALDI DEIXOU A REVOLUÇÃO

Foi em solo gabrielense, que em 1841, Giuseppe Garibaldi obteve de Bento Gonçalves, que reassumira em 14 de março a presidência da República Riograndense, a sua dispensa das fileiras Farroupilhas.

E em pagamento por seus quatro anos de serviços prestados a causa, recebeu do líder revolucionário 900 cabeças de gado. O herói italiano pretendia retomar as suas atividades embarcado, ou quanto muito, fixar-se junto a um Porto, onde pudesse conviver com o mar, a sua grande paixão de navegador.

Garibaldi, acompanhado de sua mulher Anita, pretendia ir até Montevidéu, para uma estada temporária. Não tinha a intenção de abandonar definitivamente a causa republicana. Assim decidido, procurou o general Bento Gonçalves e expôs-lhe todas as suas angústias, dúvidas e incertezas.

De tal encontro não existem registros oficiais, havendo historiadores que afirmam ter Garibaldi argumentado a Bento Gonçalves que Montevidéu poderia ser uma alternativa para as ligações marítimas da República Riograndense.

A maioria, porém, defende a tese de que Garibaldi não partiu para Montevidéu com estas intenções. O que importa, porém é o fato de que desta confabulação, que não teve testemunhas e que durou quase duas horas, ficou definido que Garibaldi partiria com sua mulher e filho, sendo-lhe entregue uma manada de 900 bois, que deveriam servir para as despesas de manutenção da família, durante os primeiros tempos.

Estava encerrada a participação de Anita e de seu companheiro Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha. No Uruguai Garibaldi lecionou Matemática. E nasceram mais filhos.

Em 26 de março de 1842, na Igreja de São Francisco, regularizou a união com Anita, que declarou ser viúva de Manoel Duarte de Aguiar. O casal vivenciou freqüentes momentos de estrema miséria, em função de seu idealismo.


Comandou a Esquadra Uruguaia contra a potente e numerosa Esquadra de Rosas liderada por Browm, sendo completamente batido. Depois comandou uma Divisão de Voluntários Italianos, em Montevidéu.

Após 14 anos na América, retornou à Itália, onde foi recebido como herói. Na Itália, combateu, venceu e perdeu a sua Anita. E abortou mais uma vez o seu projeto de unificar a Itália. E mais uma vez o exílio: Gibraltar, África, Estados Unidos, América Central e o Peru.

MORTE DO PRIMEIRO PRESIDENTE FARROUPILHA

No dia 4 de março de 1840 faleceu em São Gabriel, quase repentinamente, em consequência de aneurisma interno, o doutor Marciano José Pereira Ribeiro, que fora o primeiro presidente farroupilha, empossado em Porto Alegre no dia 1 de setembro de 1835.

Marciano José Pereira Ribeiro era natural de Minas Gerais. Formado em medicina em Edimburgo, Escócia, foi deputado provincial eleito à 1ª Legislatura da Assembleia Provincial do Rio Grande do Sul.

Era 3° vice-presidente da província do Rio Grande do Sul ao estourar a Guerra dos Farrapos, quando Porto Alegre foi dominada pelos farroupilhas. Enquanto o presidente da província fugia, e os outros vice-presidentes não eram considerados confiáveis, assumiu como presidente interino duas vezes, de 21 de setembro de 1835 a 16 de fevereiro de 1836 e de 28 de março a 15 de junho de 1836.

Foi preso em 1836 e enviado ao Rio de Janeiro, de onde fugiu em 1840 e retornou ao Rio Grande do Sul, entrando por São Gabriel. Sua saúde já estava abalada, falecendo pouco tempo depois.

PELEIA NO ARROIO DO SALSO

Em 11 de junho de 1840, junto ao Arroio do Salso, tributário do Vacacai, encontraram-se as forças do coronel Manuel dos Santos Loureiro, da Guarda Nacional, e as do farroupilha Fileno de Oliveira Santos.

Depois de renhida peleia Fileno foi morto, dispersando-se os seus homens. Loureiro, que seguia para São Gabriel, então em poder dos farroupilhas, continuou sua marcha e entrou, sem mais novidades, na vila, no dia seguinte, pois os republicanos a haviam evacuado, abandonando nela três bocas de fogo, aliás, inúteis para eles.

No dia 28 de junho de 1841, Francisco Pedro de Abreu retomou a cidade de São Gabriel, surpreendendo a Guarda de Polícia rebelde, aprisionando o comandante intitulado major, Maximiano, um tenente, 22 soldados, e armamento sendo o de Infantaria, novo, mandado por Fruto Ribro (Frutuoso Rivera), e 400 e tantos cavalos.

A Guerra continuou por mais quatro anos. Os farroupilhas depuseram as armas e o Governo Imperial concedeu anistia aos revoltosos, tendo seus oficiais e praças sido incorporados ao exército e mantidas suas patentes.

Também as dívidas e os compromissos do Governo Farroupilha foram assumidas pelo Império. Em 1845 a paz foi selada e o Brasil manteve sua unidade territorial.

CAÇA AOS FARRAPOS

Fevereiro de 1843. Sete mil homens marcham à Fronteira Oeste da província sob as ordens de Luís Alves de Lima e Silva à caça dos farrapos. Com pressa e para ganhar agilidade, o futuro Duque de Caxias, em março, deixou em São Gabriel parte da bagagem, a cavalhada e dois mil homens.

Além de precipitar o confronto, o comandante queria 14 mil cavalos dos republicanos espalhados pela fronteira. Foi em vão. Os farrapos escapuliam por caminhos que dominavam e evadiram a manada da região.

Caxias teve de ir ao Uruguai comprar montaria. E os inimigos aproveitaram para atacar São Gabriel, em 10 de abril. “O desastre foi completo. Toda a cavalhada foi recolhida pelos rebeldes”, escreveu Morivalde Calvet Fagundes.

No dia 10 de abril de 1843, o tenente-coronel farroupilha, Manuel Carvalho de Aragão e Silva, surpreendeu na madrugada desse dia, em São Gabriel, os legalistas, aprisionando o coronel Antônio Pinto, matando 77 homens e apoderando-se de 1.500 reses.

Em seguida reuniu-se, na Caieira, às forças do general Portinho, sendo, porém, atacados por Juca Ourives que, protegido pelo 9º Batalhão de Caçadores, comandado pelo coronel Francisco de Arruda Câmara, os desalojou e os repeliu no campo do Fidélis, matando um capitão, dois tenentes e 13 soldados, incorporando-se logo após às forças do general João Antônio, que rumava para São Gabriel.

No dia 11 de abril de 1843, a tropa do general farroupilha João Antônio da Silveira atacou a guarnição imperial de São Gabriel, comandada pelo coronel Jacinto Pinto de Araújo Corrêa, e tomou posse da manada de cavalos e tropa de bois ali mantidos.

Caxias, ao saber do fato no dia 16, foi até Santana do Livramento, em socorro do chefe imperial, e resgatou, no dia 19, as manadas aliciadas pelos republicanos.

FIM DA REPÚBLICA RIO-GRANDENSE

A República Rio-Grandense foi dissolvida em 1 de março de 1845, pelo “Tratado de Poncho Verde”, que manteve em vigor algumas leis derivadas da constituição rio-grandense.

Teve ao todo cinco capitais durante os seus nove anos de existência: Piratini, Caçapava do Sul, Alegrete e São Gabriel (capitais oficiais), Bagé (somente por duas semanas) e São Borja. Os seus presidentes foram Bento Gonçalves e Gomes Jardim.

O alto comando da Revolução desejava dominar a guarnição de primeira linha da vila de São Gabriel, o 3º Regimento de Cavalaria, aquartelado no sobrado onde depois se instalou o Hotel Rio Branco, na antiga Praça da Matriz, hoje Fernando Abbott.

Contava a unidade militar com um contingente de 120 homens mais ou menos, e era comandado pelo capitão Francisco de Paula Macedo Rangel, avô dos antigos ruralistas gabrielenses Antônio, Gabriel e Otávio Macedo Rangel.

Com o objetivo de melhor coordenar o movimento em São Gabriel, inclusive entrada de armas e soldados na calada da noite, resolveram os insurretos patrocinar um suntuoso baile a 7 de setembro, dia comemorativo da Independência. Entretanto, a data teve de ser dilatada para 19 de setembro.

Foram convidadas para as festividades que se anunciavam brilhantes, todas as pessoas de maior destaque social na pequena, porém aristocrática povoação. Entre os principais convidados, situavam-se o capitão Macedo Rangel, alguns de seus oficiais e às respectivas famílias.

Oficial que não primava pela imprevidência, Macedo Rangel antes de dirigir-se à festa, deixou de prontidão a guarnição sob seu comando, mandando distribuir farta munição e reforçou os efetivos com praças de Infantaria de Pernambuco que, embora desmobilizadas, moravam na localidade e foram reengajadas. Assim estava preparado para qualquer emergência.

Macedo Rangel, para demonstrar que estava muito bem informado das maquinações que se estavam processando, no decorrer do baile referido e num intervalo das danças, chamou à sua presença o inspetor do 3º quarteirão, encarregado das patrulhas, mostrando-lhe uma carta que havia interceptado.

Na missiva, depois do pedido de certas armas, dizia-se “que o tempo tinha chegado”. Segredava-se com isto, já estarem os revolucionários em campo com mais de 150 homens. Informavam, ainda, ser o dia 25 a data marcada para “atropelar a capela, a rebenque”, disse Varela. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel em 28/04/2017)

Garibaldi esteve com Anita em São Gabriel.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Antigo Hospital Militar

Neste prédio localizado na esquina das ruas Tristão Pinto e Barão de São Gabriel, onde antigamente funcionou o Hospital Militar de São Gabriel, hoje ali encontra-se instalado um Posto de Saúde.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um ícone da cultura gabrielense

O doutor Milton Teixeira era considerado o decano dos advogados de São Gabriel. Além da sua atuação na área jurídica destacou-se também no desenvolvimento da cultura em nosso município. Ele e mais algumas ilustres pessoas da comunidade fundaram a Associação Cultural Alcides Maia (ACAM), que resiste até hoje.

Como costumo fazer, me valho do historiador Osório Santana Figueiredo. Fiquei sabendo, em sua obra “História de São Gabriel”, que a ACAM partiu de uma idéia do doutor Milton. Ele, inclusive, cedeu o prédio localizado na rua General Mallet, de sua propriedade, para as primeiras reuniões da entidade e acabou virando sua sede.

Hoje, a entidade funciona em uma sala do “Sobrado da Praça”, cedida pela Prefeitura Municipal de São Gabriel.

O prefeito Balbo Teixeira criou uma Comissão para tratar do tema, que teve como membros o doutor Nelson Lydio Andrade de Azevedo, historiador Osório Santana Figueiredo, doutor Milton Teixeira, doutor Charlemagne Neme, Galeno Evangelho Costa, Ricardo Pereira Teixeira e doutor Aluizio Macedo.

Em 10 de setembro de 1986, em reunião festiva realizada no auditório da Câmara Municipal foi criada oficialmente a Associação Cultural Alcides Maya, cuja primeira Diretoria ficou assim constituída:

Presidente, Galeno Evangelho Costa; Secretária, doutora Maria Anita Prestes e Tesoureiro, doutor Gabriel Padilha Dornelles.

Lembro que depois do ato na Câmara Municipal, foi realizado um jantar na sede da entidade, na rua General Mallet, quando estive presente com a minha esposa, a jornalista Teresinha Motta.

Depois foi presidente o historiador Osório Santana Figueiredo, o doutor Milton Teixeira, a poetisa e escritora Maria da Graça Ferreira Cunha, o pastor Cláudio Moacir Moreira, Humberto Petrarca, Mara Rangel e Italo Zailu Gatto, se bem me lembro.

Hoje a entidade está nas mãos de Carlos Alberto Torres de Menezes, que ceertamente dará um grande impulso à entidade. Se faltou alguém peço desculpas, não foi intencional, sim  falta de memória, mesmo.

Durante todos esses anos a entidade realizou várias atividades de cunho cultural, como concursos literários, de declamações, músicas e danças, exposições de fotografias e artes plásticas, torneios, feiras, lançamentos de livros, com destaque para duas antologias de escritores gabrielenses, entre outras.

Patrocinou, ainda, o 7º Encontro Estadual de Micro História, em 1990, quando estiveram em São Gabriel historiadores de todo o Estado. E ainda o 7º e 8º Encontros do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, em 1990 e 1991.

Em 28 de julho de 1992 a entidade promoveu a I Festa Mundial do Folclore, com participação de grupos da Bélgica, Alemanha e Argentina. Em 1998 organizou o livreto “Talentos Gabrielenses”, junto a Editora Alcance, de propriedade do escritor gabrielense Rossir Berny.

O PATRONO DA ACAM

Alcides Maia (Alcides Castilho Maia), que dá nome a entidade, foi jornalista, político, contista, romancista e ensaísta, nascido em São Gabriel, no dia 15 de setembro de 1878, e falecido no Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 1944.

O pai de Alcides Maya, Henrique Maia de Castilho, era funcionário federal e de origem citadina. O vínculo com o pago e o sentimento gaúcho, que marcaram a ficção do escritor, vieram através da linha materna.

Carlinda de Castilho Leal, sua mãe, era filha de Manuel Coelho Leal, dono da “Estância do Jaguari”, no município de Lavras do Sul, e ainda de duas frações de campo em São Gabriel, chamadas “Tarumã” e “Guabiju”.

Alcides Maia passou a infância na “Estância de Jaguari”, cenário de muitas de suas páginas regionalistas, sobretudo no romance “Ruínas Vivas”, que é, de certo modo, a visão nostálgica da estância avoenga.

Antes de ter concluído o primário, Alcides foi levado para Porto Alegre, onde fez os estudos de humanidades. Em 1895, quando contava 18 anos, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo.

A sua verdadeira vocação, porém, eram as letras e o jornalismo, por isso abandonou o curso de Direito. Retornando a Porto Alegre em 1896, entregou-se à prática do jornalismo militante, atividade que exerceu ao longo de toda a vida.

Quando em atividade profissional no seu “Escritório Camboatá”, o doutor Milton distribuía aos seus clientes, ao preço de Cr$ 5,00, exemplares de uma revista chamada “Quadrins”, criada por desenhistas e roteiristas gaúchos. Isso por volta de 1979 e 1980.

O nome “Camboatá” que o doutor Milton tanto gostava, e que definia seu escritório de advocacia e sua propriedade rural, curiosamente lembra uma espécie de peixe de água doce e uma árvore sapindácea (plantas com flor).

O doutor Milton também enveredou pelos lados da política, tendo sido eleito vereador em São Gabriel no distante ano de 1959, pelo antigo Partido Social Democrático (PSD), alcançando a soma de 300 votos, bastante expressiva para a época quando o número de eleitores era bem menor que hoje.

Prova disso é que o prefeito eleito, José Sampaio Marques Luz, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) teve 4.472 votos. O candidato derrotado, Bernardo Fernandes Barbosa, da União Democrática Nacional (UDN), alcançou 4.161 votos.

UMA JUSTA HOMENAGEM

A IX Feira Municipal do Livro, a partir da edição de 2016, passou a chamar-se oficialmente de “Dr. Milton Teixeira”, uma justa homenagem a quem em vida fez tanto pela cultura de nosso município.

O prefeito Roque Montagner disse na ocasião que se tratava de um reconhecimento do Poder Executivo, uma forma de gratidão e agradecimento do município a quem dedicou uma grande parte da sua vida em prol da cultura de São Gabriel, e que jamais será esquecido por toda a comunidade. “Temos a certeza que a energia do doutor Milton está aqui, através de sua esposa dona Leni e demais familiares”, frisou.

A patronesse da Feira de 2016 foi a escritora Fernanda Alves Pinto, colunista de “O Fato”, que sofre de uma doença chamada “Distonia Muscular Generalizada”. Ela conhece as limitações que tem, mas sabe que nenhuma a impede de buscar e querer a felicidade. O Capataz da IX Feira do Livro foi José Fernando dos Santos.

O doutor Milton Teixeira era natural da cidade de Lavras do Sul, tendo nascido na estância de seu avô em Pontas do Salso, município de São Gabriel.

Ao ler isso uma dúvida me bateu na cabeça e fez com que consultasse o amigo Osório Santana Figueiredo, que atenciosamente respondeu:

“Caro Nilo. Ele mesmo contava e dava risada. Não sabia de que lado. Se nasceu em terras de São Gabriel, gabrielense é de fato. Foi sepultado no cemitério de Lavras do Sul, em jazigo próprio da família. O Edilberto também. Abraço. Osorio”.

Era filho de Valério Teixeira Neto e Maria Julia Teixeira e irmão do saudoso doutor Edilberto Teixeira, advogado, agropecuarista, proprietário da “Estância do Capão”, em Santa Margarida, além de autor de obras de cunho regionalista. Hoje, Edilberto Teixeira é nome de praça no município de Santa Margarida do Sul.

Ele teve grande importância para a cultura regionalista, através de poemas, composições e livros que retrataram o cotidiano da vida do homem do campo e das cidades do interior.

Mesmo passados muitos anos de sua morte, composições por ele escritas – de forma inédita – são entregues pelo seu filho Mariano Teixeira para serem musicadas e defendidas por músicos e intérpretes nos festivais de São Gabriel e também em vários outros municípios do Rio Grande do Sul.

Eu conheci tanto o doutor Milton, quanto seu irmão Edilberto. Deste, ganhei, quando de uma visita que fiz a ele em sua casa, com direito a autógrafo, um livro de poesias especificando as várias pelagens de cavalos, que guardo até hoje com carinho.

O falecimento de Milton Teixeira ocorreu no dia 29 de maio de 2015, após longa enfermidade. O sepultamento aconteceu no cemitério de Lavras do Sul.

O doutor Milton Teixeira era proprietário de terras no hoje município de Santa Margarida do Sul, que agora pertencem a viúva Leni e ao filho único do casal, Rogério Brenner Teixeira, conceituado empresário rural em São Gabriel.

UM LUGAR HISTÓRICO

E não se trata de uma propriedade qualquer, igual a tantas outras existentes na região. É um lugar histórico, onde nasceu Plácido de Castro, que hoje é nome de município no Acre, de um time de futebol, de um CTG e também está inserido no "Livro de Aço", chamado "Livro dos Heróis da Pátria", o qual lhe confere o status de "herói nacional".

A inclusão do nome do gabrielense aconteceu em 17 de novembro de 2004, por ocasião do centenário da celebração do Tratado de Petrópolis.

O historiador Osório Santana Figueiredo, anos atrás, fez uma pesquisa de campo para saber o local exato onde Plácido de Castro nasceu. Esteve acompanhado do saudoso Alberto Saboia de Castro Franzen, o “Seu Saboia”, que era sobrinho do herói pátrio.

Ao final da empreitada, que contou com a ajuda do doutor Milton Teixeira, chegou-se a conclusão que Plácido de Castro nascera em terras que pertenceram a sua bisavó materna, Genoveva Maria de Assumpção de Oliveira, situada entre os arroios Cambai Grande e Cambaisinho, que antigamente era conhecido por “Rincão da Genoveva”.

Atualmente, essa área fica localizada nos campos da família do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras, Santa Margarida do Sul, e chama-se “Estância do Camboatá”, conforme explica o historiador Osório Santana Figueiredo em seu livro “Plácido de Castro, o colosso do Acre”.

UM MONUMENTO PARA PLÁCIDO DE CASTRO

No local onde estão as ruinas da “Tapera da Genoveva” e em que Plácido nasceu, foi erguido um monumento em homenagem à ele, por ocasião do seu centenário de nascimento.

A inauguração do monumento foi um momento histórico, com a presença do vice-governador do Estado do Acre. A “Tapera da Genoveva”, desde então, é um símbolo de admiração e respeito para os povos margaridense e acreano.

Sabe-se, através da história contada pelos acreanos quando aqui estiveram, na ocasião da inauguração do monumento, que demonstram sentimentos de fanatismo pelo herói, por meio de gestos simples, mas de significação, como o de levar consigo um punhado de terra do lugar onde se localiza a “Tapera”, símbolo de recordação.

Em 2001, a prefeitura de Santa Margarida do Sul, através de ato assinado pelo então prefeito Orestes Goulart, instituiu no município a “Semana Farroupilha”, que desde então é realizada anualmente de 13 a 20 de setembro.

O acendimento da “Primeira Chama Farroupilha” no novo município aconteceu às 18 horas do dia 13 de setembro de 2001, na “Tapera da Genoveva”, localizada na propriedade do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras.

A primeira “Chama Crioula” de Santa Margarida do Sul foi denominada “Chama Crioula Plácido de Castro”. Os desfiles da “Semana Farroupilha” são realizados hoje na “Praça Edilberto Teixeira”, irmão de Milton Teixeira, localizada no Bairro Camboatá.

O município de Santa Margarida do Sul emancipou-se em 17 de abril de 1996, pela Lei nº 10.751, desmembrando-se de São Gabriel. Acredita-se que a origem do nome do município está ligada à existência de uma antiga estância de criação de gado.

Os primeiros habitantes que se estabeleceram em Santa Margarida do Sul eram de origem portuguesa e seus descendentes dedicaram-se, até meados do século XX, somente à pecuária tradicional.

Procurei a amiga Elody Helena Veiga de Menezes, gabrielense de destacada atuação nos meios culturais, que desde a infância dedica-se à poesia e à literatura. Cursou letras, foi professora e aposentou-se como serventuária da Justiça.

Publicou quatro livros: “Réstias de Luz” (poesias), “A História e as Lendas de uma Família”, que conta a trajetória da família Menezes no Brasil, e que recebi de presente da amiga, “Baú de Sonhos” (poesias) e “Reflexões e Devaneios” (crônicas e poesias).

Dona Elody também publicou duas antologias de escritores gabrielenses, quando participou da ACAM. Conquistou vários prêmios com as suas poesias, entre eles o primeiro lugar num concurso da Casa do Poeta de Porto Alegre e segundo lugar no concurso da revista Brasília, de Brasília, DF.

Atualmente, dedica-se mais às crônicas, embora continue a fazer poesias. É dinâmica, gosta de estar sempre atualizada e participar de tudo o que se refere à literatura.

Nos últimos anos aderiu ao uso do computador e, através da Internet, mantem-se informada de tudo o que se passa no mundo e está sempre em contato com familiares e amigos em qualquer lugar.

Pois também recorri a ela, para que escrevesse algo sobre a trajetória do doutor Milton nos meios culturais de São Gabriel. E aproveitei sua inspiração para dar título a esta matéria histórica.

UM ÍCONE DA CULTURA GABRIELENSE

Eu já conhecia o doutor Milton Teixeira, há muitos anos, mas somente através da Associação Cultural Alcides Maya (ACAM), quando convivi quase diariamente com ele, foi que pude compreender a importância de sua atuação na vida cultural de São Gabriel.

Durante o tempo em que participei da diretoria da ACAM, cuja sede, naquela época, funcionava em um prédio que lhe pertencia, pude constatar que a admiração pela sua grande inteligência, caráter íntegro e a maneira respeitosa e educada com que tratava as pessoas, era unanimidade, entre todos os associados.

Sempre que surgia alguma dúvida para organizar um evento, redigir um documento, ou qualquer outro problema inerente ao funcionamento da ACAM (e isso ocorria com muita frequência) nós apelávamos para a experiência e a grande cultura do doutor Milton para resolver a situação, sempre recebendo dele uma orientação paciente, lúcida e segura.

Porém, o que mais destacava a importância do doutor Milton Teixeira na sociedade gabrielense era a sua participação no desenvolvimento cultural e artístico de São Gabriel naquela época. Ele era, sem dúvida nenhuma, um verdadeiro agregador de talentos.

São incontáveis as exposições de artes, lançamentos de livros, saraus literários e encontros artísticos e culturais que se realizaram nas dependências do seu prédio, sempre sob a sua orientação e beneplácito. Isso sem falar em feiras do livro, concursos literários e festivais nativistas que ocorreram naquele período e que tiveram o apoio e o incentivo do doutor Milton Teixeira.
         
Apesar de contar com a participação de vários outros escritores e literatos gabrielenses, pode-se dizer que ele foi o verdadeiro idealizador e fundador da Associação Cultural Alcides Maya a qual, durante muitos anos, cresceu e se desenvolveu graças ao esforço e a generosidade daquele homem invulgar.

Foi ele também que, ao escolher o nome de Alcides Maya, o primeiro gaúcho a participar da Academia Brasileira de Letras, para patrono da ACAM, deu o destaque merecido a esse grande escritor conterrâneo, cuja importância na literatura gaúcha, infelizmente, a maioria dos gabrielenses ignorava.

O doutor Milton Teixeira, certamente, merece ser considerado um dos ícones da cultura gabrielense. (Elody Helena Veiga de Menezes) (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, edição de 31 de março de 2017)

Dr. Milton Teixeira com a esposa, Leni Benner Teixeira, o filho, Rogério, e as netas, Gabriela e Helena, na comemoração das Bodas de Ouro do casal.

domingo, 16 de abril de 2017

Recordar é viver

Festas, grande churrasco gordo, whisky gelado, confraternização das Diretorias do Esporte Clube Cruzeiro e Grêmio Esportivo Gabrielense, com final de batalha de espeto.

Na foto, a baratinha de luxo ao fundo, Arideu Ferreira pelo G.E. Gabrielense e doutor Alfredo Vicente Astarita pelo E.C. Cruzeiro.

O doutor Astarita já estava brabo... O tempo passa. No final todo mundo foi visitar a Rua do Chapéu e a famosa "Guerra dos Espetos" acabou. (Texto e fotos: Coluna "As 10 mais de Dagoberto Focaccia")

sexta-feira, 14 de abril de 2017

*Que legal. Eu amo esta cachorra. Na verdade eu ganhei a "Cacau" das ruas. Tadinha estava jogada na rua e em pânico, num domingo chuvoso de Páscoa. Desde então é minha companheira do dia inteiro. Adoção sempre, é o noso lema.

Tuca Stangarlin


terça-feira, 11 de abril de 2017

Verdadeira amizade

Tuca Stangarlin é gabrielense, reside em Florianópolis. Artista plástico conhecido internacionalmente. Se define como um plantador de flores, idéias, dúvidas, afeto, amor e cores. O mar e a vida, não teme a morte. Mas tem uma coisa que me faz admirá-lo muito mais: o amor aos animais.

Que o diga a linda Cacau, cachorrinha linda e fofa que ele ganhou de presente na Páscoa de 2010. E nesta Páscoa os dois comemoram sete anos de uma amizade verdadeira. Um au-au para os dois.






No tempo da ZYO-2

Comemoração no palco auditório da ZYO-2, Rádio São Gabriel, onde hoje se encontra a Câmara de Vereadores. Na foto, da esquerda para a direita: Canhoto, Antônio Paulo, Irmão Gonzalo, Homero Costa, o "Saporiti", Rivadávia Corrêa, Zenon Martins, Zelma e Italu Zailu Gatto. (Foto: Arquivo de Rivadávia Corrêa) 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

No Paraíso

Dagoberto, Ana Rita, Ana Laura, Teodorinho e Tomás, gozando a tranquilidade e a belza da residência na localidade de Suspiro, interior do município. E tem razão a Ana Rita ao dizer: "Lá é o paraíso". (Fotos: Página de Ana Rita Focaccia, no Facebook)









domingo, 2 de abril de 2017

Família Figueiredo em festa

Aniversariou ontem, 01/04/2017, o jovem Gustavo Ávila Figueiredo, filho do casal amigo Beraldo e Miriã Ávila Figueiredo. O aniversariante é neto do historiador da cidade, o inigualável amigão Osório Santana Figueiredo. Abaixo, fotos de Lourdes Figueiredo, com detalhes da bonita comemoração.




quinta-feira, 30 de março de 2017

Belas recordações

1911. Vista parcial da antiga São Gabriel. Rua Coronel Sezefredo, esquina da Praça Doutor Fernando Abbott. No local onde era a Casa A. Azambuja, está hoje a sede da agência do Banrisul. Destaca-se ao fundo, assinalado com uma seta, o grande edifício da Sociedade Literária Gabrielense. (Fototeca do Museu João Pedro Nunes)

Estância do Trilha. Este prédio foi construído em 1814, por Antônio Alves Trilha, de quem foi desapropriada meia légua de campo em quadro, para a fundação de São Gabriel. Sofreu várias reformas. Em uma delas perdeu a sotéia, mirante muito em moda nos solares de antigamente. Fica a dois quilômetros do centro da cidade e pertence ao município de São Gabriel, tendo sido adquirida em uma das gestões do prefeito Balbo Teixeira. (Fototeca do Museu João Pdero Nunes)

Casa onde nasceu Alcides Maya, na antiga Praça da Caridade, em São Gabriel. A frente do prédio a senhorita Ninfa D'Ávila, a senhora Ema Vieira Lannes e o menino José Vieira Lannes. (Foto: Álbum da família de Marco Aurélio DÁvila)

Fachada da casa onde residiu o coronel Manoel Deodoro da Fonseca, proclamador da República, quando serviu em São Gabriel. A frente da casa a profesora Ilza Maria Partes de Oliveira, historiador Osório Santana Figueiredo, dona Celina Barbosa Rodrigues, que era a proprietária do prédio, as professoras Rosane V. Pereira Fonseca e Loecy Maria Morteira. (Foto: Arquivo do historiador Osório Santana Figueiredo)

terça-feira, 21 de março de 2017

A festa rolou solta

Ontem, segunda-feira, 20, o amigo doutor Itajar Maldonado Chaves, empresário  e advogado de renome em São Gabriel, esteve aniversariando. A idade não se revela, porque o desejo é que permaneça sempre como está, em plena forma fisica e mental.

O doutor Itajar demonstra bom gosto, ao torcer pelo Sport Club Internacional, o único clube gaúcho campeão mundial FIFA. E maior vencedor de campeonatos gaúchos e Grenais. A festança foi grande e rolou solta na sua residência, onde se reuniram familiares e amigos para lhe abraçarem e cantarem o "Parabéns a Você". O blog "Viva São Gabriel" se associa a esse momento tão lindo. (Fotos: Liane Chaves)



domingo, 19 de março de 2017

Feriado de 20 de Setembro teve origem em São Gabriel

A transformação do dia 20 de setembro como feriado estadual teve a sua origem em Sao Gabriel, através de uma cavalgada promovida por 13 tradicionalistas. A ideia era homenagear a primeira senadora gaúcha, Emilia Fernandes, e por isso foi organizada a "Cavalgada Unidos pelo Tradicionalismo Riograndense, que saiu de São Gabriel no dia 19 de dezembro de 1994, às 16h30min, em direção a cidade de Livramento.

Segundo Valandero Fagundes Ferreira, autor da ideia, a cavalgada foi apartidária e oficializada pela Associção Cultural Alcides Maya. Numa Assembléia realizada na Câmara Municipal , ficou acertado que no contato com a senadora, seria reivindicado que o 20 de setembro fosse transformado num feriado estadual.

A partir de então, com o pedido assinado pelos 13 tradicionaslistas, começou o trabalho no Senado e na Assembléia Legislativa do Estado. O deputado Jarbas Lima foi o autor da proposta para que cada Estado pudesse escolher uma data para ser feriado.

A senadora Emilia Fernandes teve uma grande influência, destacou Valandro Ferreira, pois Lei 9.093, sancionada em 12 de setembro de 1995 dispoe sobre os feriados e possibilitou que o aniversário da Revolução Farroupilha fosse feriado estadual.

O trabalho dos 13 tradicionalistas foi reconhecido pelo vereador José Renato Martini, de Dom Pedrito, que mostrou ter tido uma preocupação semelhante. A Cavalgada levou quatro dias e os cavalarianos foram recepcionados pela senadora Emilia Fernandes no "CTG Marca de Casco". (Fonte: Jornal "Folha da Fronteira", edição de 17 de setembro de 1999)

Valandro Ferreira e Marciolino de Góis. (Foto: C. Giovane - Jornal "Folha da Fronteira")

segunda-feira, 13 de março de 2017

Um mar de sangue no Cerro do Ouro

Ao escrever a matéria sobre a Revolução Federalista de 1893, em que o solo gaúcho se pintou de vermelho pelo sangue das degolas, propositalmente deixei de me aprofundar no “Combate do Cerro do Ouro”, desdobrado em terras gabrielenses, porque foi um episódio que merecia uma atenção histórica maior.

Conta o historiador Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva, em seu livro “São Gabriel na história”, que em agosto de 1893, o coronel Francisco Rodrigues Portugal estava acampado com cerca de 1.200 homens no Cerro do Ouro, em São Gabriel.

Da coluna faziam parte o doutor Fernando Abbott e os coronéis Marinho e João Fernandes Barbosa, comandantes de brigadas. Eles foram avistados pela vanguarda de Gumercindo Saraiva, que imediatamente tiroteou a coluna governista.

Esta força confiava na proteção da guarnição federal de São Gabriel, composta das três armas e ainda contava com a junção, a qualquer momento, da coluna comandada pelo general Bacelar, que precedia de Paraizinho, zona de Bagé, em reforço da coluna de Portugal, já avisada da presença de Gumercindo Saraiva.

Tomadas as providências necessárias, a 27 de agosto travou-se a batalha conhecida na história por “Combate do Cerro do Ouro”, tendo sido amplamente desbaratadas as forças governistas, que retiraram-se em completa desordem para São Gabriel.

O RELATO DE GUMERCINDO SARAIVA

Ao término do combate, Gumercindo Saraiva enviou correspondência ao general Luiz Alves de Oliveira Salgado, comandante-em-chefe das forças revolucionárias relatando o ocorrido.

Disse que verificada a presença do inimigo e a posição que ocupava, calculando a sua força em cerca de 1.200 homens, houve um tiroteio durante o dia 26. As 5 horas da manhã do dia  27, Gumercindo passou o arroio do Salso, em uma picada aberta na véspera.

E às 7 ½ horas da manha encontrou o inimigo, cujas forças ocupavam o dorso da Serra de Serafim Caetano, junto ao Cerro do Ouro, estrada de São Gabriel.

As forças de Gumercindo ocuparam uma linha de colinas, bem a frente de onde se encontrava o inimigo, o que permitia que se batessem os contrafortes e grotas que partem desse cerro em direção perpendicular a essa linha, e que seriam ocupados pelo inimigo quando avançasse.

O flanco direito das forças revolucionárias estava protegido por uma profunda e invadeável canhada, que desagua no arroio Salso junto ao Passo Real, que era defendida pela coluna inimiga para impedir, como impediu, que fosse mandado auxilio e proteção.

À hora supramencionada caiu um denso nevoeiro, e Gumercindo dispôs suas forças na seguinte ordem, que permitia envolver o inimigo:

CENTRO. Brigada do coronel Aparício Saraiva, composta de duas Companhias de Infantaria, sob o comando do major Antônio Nunes Garcia; de dois Corpos de Cavalaria comandados pelos tenentes coronéis Augusto Xavier do Amaral e Júlio Varela. O Piquete de Gumercindo, comandado pelo tenente coronel Pedro Sancho e dois Corpos de Cavalaria ao mando dos coronéis Vasco Martins e Fontoura Roquinho.

DIREITA. Dois corpos e um Esquadrão de Cavalaria ao mando dos coronéis Estácio Azambuja, Carlos Chagas e Carlos Nogueira da Gama, um Corpo de Cavalaria do 2º Corpo ao mando do coronel Isidoro Dias Lopes.

ESQUERDA. As Brigadas do general Guerreiro Vitória e Torquato Antônio Severo.

Às 8 1/2 horas, dissipado o nevoeiro, a Infantaria e todos os atiradores das Brigadas e Corpos, abriram nutrido fogo sobre o inimigo, que, aproveitando-se do nevoeiro, ocupara os contrafortes e grotas descritos.

Durante meia hora, e sem resultado apreciável continuou o fogo. Dispondo apenas de 300 atiradores e de 12 mil cartuchos, sentindo que seria forçado a retirar-se acabada a munição, Gumercindo tentou, apesar das dificuldades do terreno as manobras de Cavalaria, um esforço supremo.

Fazendo cessar o fogo dos atiradores, foi ordenado uma carga simultânea de Lanceiros sobre os flancos e contra o inimigo. Com tal arrojo e valor foi ela executada que o inimigo abandonou as fortes posições que ocupava e retirou-se sobre a estrada, onde debandou, após uma segunda carga, sendo perseguido até três léguas além do campo de combate pela Brigada do coronel Aparício Saraiva e pelos Corpos dos coronéis Vasco Martins e Estácio Azambuja.

A ESTATÍSTICA DO COMBATE

Foram arrecadados no campo de combate os seguintes objetos: quatro estandartes, 221 comblains, cinco Spencer, três remingtons, um mauser, 124.250 cartuchos comblains, 140 barracas, 193 ponchos,45 espadas, 39 lanças e três carretas, das quais uma com 223 peças de roupas e viveres, sete carroças e inúmeros cargueiros e arroios, etc, etc.

Gumercindo calculou as perdas do inimigo em cerca de 300 homens, pois só no campo de combate propriamente dito, foram contados 127 cadáveres. A estrada por onde o inimigo retirou-se também estava tomada de mortos.

Foram aprisionados do inimigo um alferes e 56 praças, das quais sete feridos.

Entre os numerosos documentos arrecadados no campo de combate figurava uma ordem-do-dia do coronel Portugal, dando a organização da divisão com a qual houve o combate, e que era composta de 10 Corpos.

O 1º Corpo do Exército sofreu 45 baixas, 12 mortos e 33 feridos. Entre os mortos encontram-se os valentes tenentes coronéis Pedro Gomes Jardim e Fortunato Silva, os tenentes B. Reikest e Boaventura da Costa, bravo rio-grandense que contava apenas 17 anos de idade.

Pedro Diogo, pela elevação de seu caráter, pelo tino militar, pela bravura de que deu sempre prova em todos os combates que o Exército Libertador tem travado desde o inicio da Revolução, tinha-se imposto à estima e respeito de todo os seus camaradas.

Interpretando fielmente os sentimentos de seus comandados, Gumercindo pediu a valiosa proteção da Junta Revolucionária para a numerosa família, hoje pobre e desamparada, do heroico irmão.

Entre os feridos gravemente encontravam-se os valentes coronel Carlos Chagas, tenente coronel Júlio Varela, capitão Alberto Amaro da Silveira e tenente Carlos Noé. O ajudante de ordem de Gumercindo, major Pedro Amaral foi ferido levemente.

Ao encerramento da missiva, Gumercindo Saraiva disse que a alegria pela vitória conquistada foi rudemente contrabalanceada em seu coração, pela profunda dor que nele despertou a perda de tantos e tão bravos irmãos, amigos e adversários.

O general Oliveira Salgado concorreu de maneira efetiva para a grande vitória do Cerro do Ouro, atacando junto ao arroio do Salso o coronel Marinho, sem contudo conseguir desalojar este bravo governista que afinal caiu prisioneiro.

Secundando a perseguição orientada por Aparício Saraiva, às tropas em fuga, o general Oliveira Salgado perseguiu-as até as proximidades de São Gabriel.

De acordo com alguns historiadores, a intenção de Oliveira Salgado era atacar São Gabriel onde, na própria guarnição contava com extremados partidários de sua causa. Porém se teve o intuito, deve ter desistido em vista da aproximação das tropas do general Bacelar, já referidas, que a 28 de agosto, acamparam muito próximo da retaguarda dos revolucionários.

Além disso, já estavam alertadas as tropas dos generais Lima e Pinheiro Machado, com, cerca de 3 mil homens bem armados e municiados, cujas vanguardas se aproximavam céleres.

Em São Gabriel o alvoroço era enorme, segundo contou o major Porfirio da Cruz Metelo.

PÂNICO EM SÃO GABRIEL

Dia 27 de agosto foi domingo. A relativa calma então reinante na cidade foi bruscamente quebrada, pelos clarins marciais tocando “reunir acelerado”. É que a Divisão das forças do Governo, sob o comando do general Francisco Rodrigues Portugal, havia sido estrondosamente derrotada no Cerro do Ouro.

Pânico em toda a cidade. Cavalarianos fugidos e extraviados, entrando em grupos ou sós, com notícias alarmantes de morte de diversos chefes, tanto militares como civis. Famílias que passeavam, aproveitando a féria domingueira, em tropel se recolhiam alvoraçadas a seus lares. Confusão! Correria de civis às trincheiras.

Conforme Porfirio, a parte oficial desse combate deve existir no arquivo da Presidência do Estado, ditadas pelos generais de linha Antônio Joaquim Bacelar e, honorário, Francisco Rodrigues Portugal, coronel honorário da Guarda Nacional, Hermenegildo Laureano da Silva e consultor técnico, doutor Fernando Abbott.

O fazendeiro Leônidas de Assis Brasil escreveu um relato do que foi esse combate.

A Revolução de 93 teve como seu chefe o eminente homem público Gaspar Silveira Martins, cujas ideias parlamentaristas foram seguidas pelo caudilho Gumercindo Saraiva, homem de valor pessoal, convicção política e experimentado cabo de guerra.

Em prosseguimento ao grande movimento revolucionário contra o então presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, homem regionalista por existência, embora patriota e de raras convicções políticas. Esse regionalismo e outros motivos, foram causas que o separaram de Assis Brasil, cunhados e amigos.

Em julho de 1893, aos auspícios de Castilhos, Pinheiro Machado, Fernando Abbott e vários caudilhos castilhistas, os então “republicanos”, embora também o fossem os “maragatos” dessa época, mantinham organizada em São Gabriel uma divisão de Corpos de Infantaria e Cavalaria, embora com armamentos deficientes, em contraste com o ardor da causa que defendiam.

Por outro lado, os revolucionários, que propugnavam com alguma divergência e eram contra Castilhos, já estavam em campo e prontos, em defesa de suas idéias e consequentemente apresentava-se em estado latente a famosa guerra de 93, entre irmãos, onde se viram medir os valores dos gaúchos rio-grandenses, cujos símbolos eram os lenços brancos e os colorados, divisas que até hoje caracterizam partidos adversos.

Exaltados os ânimos pelas idéias opostas, nada seria possível senão a degenerescência em tremenda guerra, cujas armas, de parte a parte, comblains, garruchas, mosquetes e artilharia, guardadas por fortes esquadrões de lanceiros em seus cavalos crioulos, que bem compreendiam o horror da guerra, muito embora os objetivos fossem os mais sublimes.

Em agosto de 1893, numa madrugada de densa neblina, feriu-se o célebre “Combate do Cerro do Ouro”, cujo nome se originou por ter sido ferido no arroio do Salso, que é marginado por um mato baixo, grotas e cerritos.

As forças do Governo, os “patriotas”, de lenços brancos, se constituíam da 1ª e 2ª Brigadas, comandadas respectivamente pelo general Rodrigues Portugal e coronel Hermenegildo Laureano da Silva, ambos veteranos da guerra de 1851, Campanha de Rosas, ditador, e do Paraguai, de onde trouxeram suas condecorações, que são vistas em suas fotografias.

Borges “Mentira”, Juca Antunes, João Rodrigues Menna Barreto, intendente Dioclécio, morto em combate, Acácio Farias e outros, faziam parte daquelas forças.

Ao escurecer, na véspera da renhida luta, Fernando Abbott, amigo e companheiro de Hermenegildo, foi a barraca deste, dizendo de seus propósitos, bem como de Portugal e outros correligionários, de darem combate a Gumercindo que ocupara a outra margem do arroio do Salso.

AS FORÇAS MARAGATAS

Hermenegildo, homem que vinha de muitas refregas, tentou convencer Abbott da ineficiência de suas forças para combater uma mais antiga organização, as forças “maragatas”, de maior contingente, melhor montada e ainda com outras vantagens, inclusive estar com a iniciativa das ações.

Se bem que em ar de caçoada, Fernando Abbott teria dito a Hermenegildo: “Estás, por acaso, com medo?” Hermenegildo, em resposta a Abbot, teria dito: “Para demonstrar o contrário, concordaria com a proposição de Abbott, e consentiria em atacar Gumercindo”.

Ficou assentado que Hermenegildo com sua Brigada, a segunda, guardaria o “passo” de baixo, posição de fácil acesso a Gumercindo, onde as forças deste ao clarear do dia tentaram afastar com forte fuzilaria, a retaguarda da 2ª Brigada. Encontrando ele, porem, tenaz resistência, subiram em direção ao outro “passo”, guardado pela 1º Brigada a mando do general Rodrigues Bacelar.

Cessado o ataque a 2ª Brigada e como nada mais fosse sentido ou ouvido, Hermenegildo chamou seu ajudante de ordens, Manoel Martins Alves, vulgo “Manoel Plácido”, natural de São Pedro e, apontando para o “cerrito” que até hoje se vislumbra naquela zona, disse-lhe: “Plácido,  suba aquele cerro e veja o que se passa”.

Voltando Plácido, informou ao seu comandante Hermenegildo, já terem os maragatos transposto o arroio, no “passo” onde antes ocupara a a 1ª Brigada e que o inimigo já estava tentando cortar a retaguarda, com o objetivo de obstar a retirada de Hermenegildo.

Este, com a experiência e calma que lhe era peculiar, organizou a retirada, contendo as unidades com o auxilio do bravo João Rodrigues Menna Barreto que comandava a Cavalaria.

Desse trágico momento até ao escurecer, recuou a Brigada de Hermenegildo, fazendo custosa retirada e ao longe presenciou com seus comandados a carnificina que a gente de Gumercindo fazia nos debandados da 1ª Brigada.

Já bem a tarde começou a entrada dos feridos em São Gabriel, os que escaparam da perseguição tenaz do inimigo. E só não tomaram São Gabriel, foi porque estava guardada por forças do Exército com Cavalaria, Infantaria e o 1º Regimento de Artilharia de Campanha, o famoso “Boi de Botas”.

No dia seguinte, já serenados os espíritos, forças da Guarnição e “patriotas” foram recolher os mortos e feridos, em viaturas daqueles tempos.

E assim terminou um dos mais renhidos combates da cruenta Revolução de 93, conhecido na história sul-rio-grandense como o ”Combate do Cerro do Ouro”.

A OPINIÃO DO HISTORIADOR

Segundo o historiador Osório Santana Figueiredo, São Gabriel foi palco de encontros sangrentos e houve muitos casos de sevicias e degolamentos de pessoas importantes. Trocou de governos algumas vezes, quando então eram ajustadas as contas e muitos pagaram com a vida por certas atitudes de liberdade em prol dos seus grupos.

O Combate do Cerro do Ouro é lembrado até hoje por um monumento erguido em uma colina próxima, homenageando os que ali tombaram.

O monumento é um obelisco de cimento armado, onde na parte de baixo existem 12 postes interligados por grossas correntes de ferro, protegendo um quadrado onde estão sepultados os combatentes mortos. Tem uma cruz ao centro onde se lê: “Em memória das vítimas que o destino da Pátria fez inimigos e a morte os tornou irmãos nesta cova de bravos”.

O historiador diz: “Caro Nilo Dias. Passei vários anos pesquisando em arquivos e no local do “Combate do Cerro do Ouro” onde deixamos dois monumentos. Um de forma piramidal e outro cobrindo a "Cova dos Mortos", onde foram sepultados mais de uma centena de vítimas.

É impossível dizer o número dos que tombaram no combate, porque daquele local até próximo a cidade, os maragatos em feroz perseguição, vieram matando pica-paus e sepultados onde eram encontrados. E foram muitos.

O número de mortos no livro “A História de São Gabriel”, é erro do autor. Aconselho o amigo ler o livro "As Revoluções da República" do mesmo autor, onde aparece uma foto do "Apertado", um corte num cerro onde passa até hoje a estrada para o arroio do Salso.

Segundo ouvi de muitos, pois nasci bem perto da local daquela carnificina, anos depois foram encontrados esqueletos embaixo de  árvores. Eram de criaturas que, apavorados, feridos, ali se escondendo, morreram sem ser encontrados.

Nada foi registrado e as partes escritas sobre aquela carnificina, em que se digladiaram maragatos (revolucionários) e pica-paus (governistas), nada dizem. Estes foram derrotados fragorosamente, perseguidos e mortos até pertinho da cidade, sendo encontrados alguns cadáveres em chácaras, no Bomfim, de hoje.

Tudo que escrevemos, ninguém mais o fez, foi recolhido da tradição oral. Vivemos por mais de ano pesquisando in loco no Cerro do Ouro, por vezes acampados, pesquisando e ouvindo contemporâneos daquela tragédia, inclusive pica-paus e maragatos combatentes.

Um governista, velho, recolhido ao Asilo São João, disse-me que eram três Batalhões castilhistas de 600 homens. No outro dia ao do combate, reunidos no quartel dos Fuzilados, só puderam contar um só.

Por isso escrevi, na página 118, da obra citada: "Calcula-se em mais de 400 mortos." O doutor Ângelo Dourado, por vezes exagera nas suas cartas maravilhosas que escrevia à esposa, depois transformadas em livro - "Voluntários do Martírio". E Wenceslau Escobar, pior ainda. Há muita, muita, muita coisa sobre o Combate do Cerro do Ouro. Por hoje é só. Abraço. Osorio

Nas linhas governistas, lamentava-se a morte do coronel João Fernandes Barbosa, tio do doutor Fernando Abbott, e a prisão do coronel Marinho, feita pelas tropas do general Salgado.

No dia seguinte foi dada sepultura aos mortos, o que durou três dias. Corpos eram arrastados ou puxados a cavalo, a maior parte mutilados. Já em decomposição, eram enterrados onde se encontravam, e estavam em toda a parte.

TESTEMUNHA OCULAR DO COMBATE

O doutor Ângelo Dourado, médico baiano, radicadio em Bagé e que esteve ao lado dos revolucionários gaúchos, testemunha ocular do sangrento combate, assim o narrou em certo trecho de seu livro “Voluntários do Martírio”:

Ouviam-se de todos os pontos ocupados por nossas forças, os clarins a tocarem sem cessar as notas lúgubres, que ordenam cargas e carnificina. Os nossos lanceiros subiam e desciam dos cerros como fantasmas que voam sobre os rochedos.

As bandeirolas brancas das lanças pareciam asas de aves de rapina que se se precipitam sobre a presa. Era um baixar e erguer-se sem cessar. Em pouco tempo aquelas bandeirolas tomaram a cor do sangue em que se molhavam.

Gritos, lamentos, súplicas, promessas, gemidos, estertores, imprecações, insultos, formavam a harmonia desse cataclismo que se chama guerra civil, onde um mata para libertar-se, e morrendo quase que sorri, e outros matam ou morrem por obediência, para que os que mandaram matar, possam gozar.

Depois os grupos se afastaram ou corriam para poderem viver e outros voaram após para matar. O meu caminho era indicado pelos cadáveres e feridos. Por onde passávamos, via-se o triste rastro de um exército em derrota. Um fato doloroso desta guerra, onde os pequenos se matam pelo gozo dos grandes.

Durante o período em que esteve ao lado dos federalistas, Dourado efetuou registros do que via e vivia nos campos de batalha. E assim, em carta dirigida à sua esposa Francisca, e datada de 23 de julho de 1893, começava o primeiro de um longo conjunto de relatos de suas experiências na Revolução Federalista.

Tais relatos, escritos primeiramente como cartas e logo após como uma espécie de diário, foram organizados pelo próprio Dourado sob a forma de livro. O livro recebeu o nome de “Voluntários do Martírio – Factos da Guerra Civil”.

Finda a guerra, a obra foi publicada pela “Livraria Americana”, da cidade de Pelotas, no ano de 1896. Na verdade, “Voluntários do Martírio” constitui-se num livro de “memórias”, pois a intenção do autor era que suas impressões diante de tantas agruras não caíssem no esquecimento.

O próprio Dourado assume que não pretendeu escrever a história da Revolução de 1893, pois ele achava isso prematuro demais, uma vez que “a tinta em que deve-se mergulhar a pena de fogo para escrevê-la deve ser de justiça, e para isso é preciso tempo”.

A obra nos fornece uma descrição detalhada do conflito. Espectador perspicaz do desenrolar das batalhas, Dourado narra com fluência e objetividade a marcha da Revolução Federalista

A obra do médico baiano foi bastante utilizada e recomendada por  aqueles que escreveram a história do Rio Grande do Sul, de modo geral, e da “Revolução Federalista”, de modo específico, desde Guilhermino César, Dante de Laytano e Sérgio da Costa Franco, de um lado, e Joseph Love, John Chasteen, Sandra Pesavento, Moacyr Flores, Helga Piccolo e Núncia Constantino, entre outros.

Outras obras descrevem a Revolução Federalista, como “Apontamentos para a história da revolução rio-grandense de 1893”, de Wenceslau Escobar (1857-1938), publicada originalmente em 1919 e reeditada em1983 pela editora da UnB.

“Diário da Revolução Federalista”, de Luiz de Senna Guasina publicado em 1999 pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. “A verdade sobre a revolução”, de Germano Hasslocher. “Memórias da revolução de1893”, de Fabrício Batista de Oliveira Pilar. “A guerra civil de 1893”, de Sérgio da Costa Franco. “O regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 1930”, do americano Joseph L. Love. “A Revolução Federalista”, de Sandra Jatahy Pesavento e “Heróis a cavalo, vida e época dos últimos caudilhos gaúchos”, do historiador norte-americano John Charles Chasteen. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel (RS), edição de 10 de março de 2017)

Monumento ao Combate do Cerro do Ouro.