sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Causos: riqueza cultural gaúcha (1)

São Gabriel sempre teve fama de ser uma cidade que gosta de cultuar o tradicionalismo. São inúmeros os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e Piquetes de Tradições Gaúchas (PTGs). Os desfiles da Semana Farroupilha costumam reunir milhares de cavalarianos e prendas, exibindo cavalos que são cuidados o ano inteiro somente para esse dia.

Por aqui são realizados rodeios que ultrapassam as fronteiras do município, como o “Rodeio Internacional do Mercosul”, promovido pelo CTG Tarumã. Também o CTG Caiboaté realiza anualmente o seu rodeio, que costuma receber tradicionalistas de todo o Estado e até de fora dele.

Temos também as concorridas “Penhas”, que se constituem em “fandangos” acompanhados de pratos da culinária gaúcha e apresentações de danças do nosso folclore. Quando morava em São Gabriel fui em muitas dessas festas, que na sua maioria, são excelentes.

São Gabriel poderia ter se destacado mais ainda no culto as tradições, se tivesse dado continuidade ao “Concurso de Causos”, que se realizou com grande sucesso em 1981 e 1982, durante o “Encontro Gaúcho de Literatura Oral”, nas comemorações da “Semana do Carreteiro”.

Foi uma realização dos ex-prefeitos Ramiro da Silva Meneghello e Balbo Teixeira, que aconteceu, em apenas duas vezes. As razões que levaram a não continuidade do festival, não sei, apenas lamento. Hoje, outros eventos, como o “Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha (Fenart”) realizam “Concursos de Causos” em outras localidades.

E até os causos apresentados no Concurso de São Gabriel, que estavam gravados em fita cassete e se encontravam na Secretaria de Turismo, desapareceram. Eu sei quem as levou, e “esqueceu” de entregá-las de volta. Mas como não sou “dedo duro”, deixa isso para lá.

De qualquer maneira consegui resgatar alguns desses casos, poucos, é verdade, mas de qualquer maneira servem para lembrar o que foi aquele magnífico evento. E se alguém, por acaso, tem mais algum guardado em suas casas, poderia também torna-los público. A cultura da cidade agradeceria.

O filme "Contos gauchescos - Simões Lopes Neto nas telas", que
relata a vida do grande escritor pelotense, teve parte das filmagens gravada em São Gabriel, no ano de 2008.

Os dois curtas metragens, "Os cabelos da china" e "Jogo do osso", tiveram como cenários a Chácara dos Caum, Estância Inhatium, Estância Santa Marta e outros locais na zona rural de São Gabriel.

Os outros quatro curtas metragens, todos de 25 minutos cada, que completam o filme, são adaptações dos contos "As trezentas Onças", "Contrabandista", "No Manantial" e "Negro Bonifácio".

Relembrando o festival

Mas chega de papo, vamos ao que interessa.  O causo denominado “Homero” foi apresentado pelo tradicionalista Nei Machado, que representou o Pólo Cultural de Vacaria no “Concurso de Causos” de São Gabriel:

O Homero era o mais novo de seis irmãos que moravam num fundo de rincão. Guri duns 20 anos, desde cedo se acostumou a ouvir as façanhas dos irmãos mais velhos: era lorota, briga, baile, gauchada. E o Homerinho ficava encimesmado: "Um dia, ainda vou fazer alguma cousa como esses meus irmãos!".

O Homero tinha duas particularidades: a primeira era uma vontade louca de conhecer a cidade, um baile do povo, uma tasca; a segunda era que tinha um medo que se pelava todo de polícia, porque um irmão tinha sido lastimado, um outro morto e ainda um terceiro tinha levado uns “planchaços” de Brigadiano. E ele tinha, então, um medo que se pelava todo de polícia.

Minto! O Homero tinha três particularidades: medo de polícia, uma vontade grande de conhecer uma tasca e uma ânsia louca de comprar um revólver. "Um dia ainda vou ter um revólver!", dizia.

Acontece que ele era “changador”. Quando aparecia serviço, ele pegava. Às vezes, ficava em casa de companheiro da mãe, mulher já bem velha, quando os irmãos mais velhos saíam. Um dia apareceu um comparsa de esquila. Era mês de setembro, quando logo se iniciam as tosas de ovelha.

No segundo dia, um tosador cansou, e o Homero estava lá. O chefe da comparsa perguntou ao patrão: “Não terá alguém que pegue na tesoura?”. “Olha, tem o Homero. Quem sabe não dá?” Tocaram o Homero na tesoura. O homem se revelou um aço! E ficou de efetivo na comparsa.

Começou a ganhar dinheiro, o Homero. E sempre com aquele troço na cabeça: "Vou conhecer a tasca e vou comprar um revólver!". Começou a ganhar dinheiro, ganhar dinheiro. E terminou a esquila. Ele pegou o dinheiro, encilhou o cavalo e tocou pra cidade. "É hoje!”

E começou a pensar: “Mas conheço a tasca ou compro o revólver antes? Se eu comprar o revólver e for pra tasca, vai dar um baita bochincho! Vou fazer o seguinte: vou na tasca primeiro e amanhã compro o revólver!"

Assim foi. Tomou um trago no bolicho e comeu salame com bolacha. O bolicheiro tinha um revólver. Homero já deixou entabolado o negócio e disse pro bolicheiro: “Cuida do meu cavalo com os arreios e da minha faca. Amanhã, bem cedo, pego o revólver”. E saiu, o Homero.

Por informação do irmão, ele sabia o rumo da tasca. Dali uns 500 metros achou armado o “moçorongo”. Foi-se chegando, por longe, assim como quem tropeia zorrilho: devagarinho e bem por longe. Fez a volta no salão, devagarinho.

Daí há pouco veio uma moça: “Vamos dançar, Baixinho?” “É! Se for preciso, bamo.” E saiu dançando, como quem dança de meio-luto: bem abaixadinho, pelo cantos. Dança daqui, dança dali, sentou. Uma Brahma. Ali pela sexta Brahma o Homero era dono do salão. “É comigo mesmo, hoje!”

Quando o sol levantou pegou o Homero saindo da tasca, numa baita ressaca e sem um tostão no bolso. "E agora? O que é que eu vou fazê!". Chegou no bolicho. O bolicheiro deu um mate gordo pra ele. O Homero foi perguntando: “Quanto tu me dá pela faca?” “Dou 50 pila”, disse o bolicheiro.

Era o que custava uma passagem da cidade à estação do Homero. E ainda tinha de caminhar duas léguas a pé. “Então tá. Tu me dá 50 pela faca e eu te dou meu cavalo encilhado pelo revólver.“

O xiru olhou o cavalo. Sabia que era bom. Viu os arreios: mais ou menos. “Tá feito o negócio!” Homero pegou o revólver. Era o que mais queria! E o baixinho saiu meio ladeado, com aquele baita 38 na cintura.

Comprou uma passagem de segunda e entrou no vagão. Logo que entrou, sentou pra direita. E assim ficou, no meio daquele mundo de gente, sozinho no banco. Dali a pouco saiu o trem. E ele com aquele revólver... "Tomara que esse trem chegue duma vez na minha estação", pensou o Homero.

Lá na ponta do vagão abriram a porta. E ele viu, assim por cima do banco, que levantou um quepe. O índio velho que vinha disse: “Revistas!” Aí o Homero se apertou! O xiru velho chegava num banco, noutro e vinha vindo... - "Ai, ai, ai... tô liquidado!", pensava o Homero.

Esse xiru, na verdade, vendia bilhetes de loteria e revistas, umas até do “Exército da Salvação”. E vinha: “Trinta-e-dois e trinta-e-oito! Pra hoje!” E o do Homero era 38! A la pucha, chê! E ele pensava: "Tô arrebentado!".

E o vivente vinha num banco, chegava noutro: “O Policial! O Detetive! Salva Tua Alma!” “Tô roubado!", pensava o Homero. Um gaúcho comprou todo o 1932 que o vendedor tinha. E o bilheteiro: - “O Trinta-e-dois já foi! Agora, o 38!”

"Aaaaai... agora não escapo!", pensou o coitado do Homero. “O Policial!” E o vendedor de bilhetes chegou bem perto do Homero e sampou, forte: “Trinta-e-oito!” E o baixinho Homero, já não aguentando mais aquela aflição braba, soltou, já aliviado: “Tá, seu guarda! Pega essa porquera logo, que desde que eu comprei essa desgraça foi só pra me incomodá!!!”

A presença de Nico Fagundes

O grande tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, também participou do “Concurso de Causos” de São Gabriel, representando o Pólo Cultural do Alegrete. Ele apresentou o causo “Candinho Bicharedo”:

Se eu falo no “Candinho Bicharedo”, primeiro, porque era contador de causo; segundo, porque ele peleou em 23, do lado dos Maragatos. Mas era Maragato dos quatro costados! Quando cercaram Uruguaiana, no primeiro dia de abril de 23, ele se juntou com as forças de Honório Lemes.

E no combate do Ibicuí da Armada, onde Flores da Cunha atacou com ímpeto enorme, matou tanta gente que os urubus fizeram cerimônia: só comiam de capitão pra cima...

Um piquete de Flores da Cunha aprisionou “Candinho Bicharedo!” Degola, não degola... disseram pro Flores degolar. “Não, o Candinho Bicharedo!! Que é isso! Vão tomar banho! O Candinho é uma glória aqui em Uruguaiana, aqui nesta região da Fronteira... Como é que vamos degolar?”

“Mas, ele é um contador de causo! Muito mentiroso!” “Não, não, o Candinho é sagrado”, disse o Flores. “Dêem ele prum soldado cuidar.” O soldado ficou cuidando do “Candinho”. Todos os dias o “Candinho” ia ao ouvido do soldado:

"É, vocês passaram no Ibicuí da Armada (onde Honório Lemes ofereceu uma resistência muito grande), mas passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!".

Com o passar do tempo, o soldado foi enchendo a paciência e não agüentou mais. Passou o “Candinho” pro cabo! O cabo ouvia, todos os dias: "É. Vocês passaram no Ibicuí da Armada. Mas, passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!".

O cabo não agüentou e passou o “Candinho” pro sargento. O sargento passou pro capitão. O capitão passou prum major; dizem até que era o major Laurindo Ramos, lá do Itaqui, que não era de laçar com sovéu curto... E ninguém mais agüentava o “Candinho”.

Até que passaram pro próprio Flores da Cunha. “Olha, Coronel Flor, não agüentamos mais o “Candinho”! Só o senhor, pra dar um jeito na vida dele!” “Mas, o que é que ele faz?” “Ele fica incomodando a gente, à roda do dia. Já estava com vontade de mandá degolá!”

“Não, não e não! Me passem o “Candinho”. (O Dr. Flores da Cunha tinha sido intendente em Uruguaiana; comandava a Brigada do Oeste, na Fronteira da República, com o Coronel Neco Costa, aquela gente toda!).

Bueno, e pro Flores o Candinho cevou o mate, mas um mate véio espumando como apojo de brasina! Alcançou o mate pro Dr. Flores, que era Coronel Provisório, mas todo mundo chamava de General. Diz o “Candinho”:

"Óia, General Flor, vocês passaram no Ibicuí da Armada, mas só passaram porque tinham mais gente, mais arma que nós. Nós semos muito mais homens que vocês!".

E o Flores, que já sabia da história e que também não era de pelar com a unha, respondeu: “Olhe, “Candinho”, tu é Maragato, não é? - "Sim, claro. Sou Maragato". “Agora, tu vai vestir a farda azul dos meus Provisórios e botar um lenço branco no pescoço, jurar a Bandeira do lado do Governo, senão vou te mandar degolar.

Tu sabe que essa indiada tá louca pra te degolar; eu é que não deixei!” Na voz da degola, o “Candinho Bicharedo” achou que já tava com idade de sentar praça! E sentou.

Arrumaram uma farda azul pra ele. Aquele bonezinho, uma borda vermelha aqui em cima, e ataram um lenço branco bem nas pontas; mandaram o “Candinho” se apresentar pro Flores e bater continência.

O Candinho, travestido de “Chimango”, se apresentou ao Flores. Enquadrou o corpo, bateu continência. O Flores chasqueou: “E agora, “Candinho”? O que tu acha do combate do Ibicuí da Armada?” O “Candinho” não se apertou:

“É, General. "Nós" passemos, mas só "passemos" porque "nós" tinha mais gente, mais arma. "Eles" são muito mais homens do que "nós" !!!

O grande vencedor

O causo “Porto dos Assombros”, narrado por José Fontoura, de Dom Pedrito, inscrito pelo Pólo Cultural de Bagé, conquistou o 1. lugar no "Concurso de Causos do I Encontro Gaúcho de Literatura Oral", realizado de 8 a 10 de fevereiro de 1982, em São Gabriel.

O causo foi recolhido pelo tradicionalista José Itajaú Oleques Teixeira, administrador do "Sítio Bombacha Larga”, em Guará (DF), que também resgatou os demais causos do evento, aqui contados.

Sou pedritense. Moro onde nasce o rio Santa Maria. Nesse rio tem uma zona determinada; lugar que, na revolução de 93, mataram uma camarilha de velho. Naquela revolução, era balaço pra cá, faconaço pra lá, ficando essa velhama estendida. Em homenagem aqueles velhos que pelearam por lá fizeram uma catacumba, na beira do mato.

Lá, tinha um porto que dava muito peixe. Também, muita gente se aproveitava dos pescadores. Alguém ia pra se fazer de fantasma e saquear algum pescador. Diziam que aparecia muito fantasma, muito lobisomem.

Um dia, convidei uma camarilha de amigos pra dar uma chegada no "Porto dos Assombros". Uns, queriam, outros, não. Eu, também, fazia que queria e não queria, porque a cousa era feia... Aí, os índios disseram: "Tchê, nós saímos logo, meio borrachos, mais engraxados que telefone de açougueiro, do baile do Capixi (porque o Capixi tava dando um baile...)". O velho Capixi era um desses velhos antigos, que domou muito naquela época e ficou meio alcatruzado.

Pobre do Capixi... Dava horror de ver! Era boa criatura. Nunca conseguiu um pila pra botar uma chapa: na frente da boca um dente só; um negro velho, feio! Cabeça mais pelada que sovaco de sapo.

Ele tinha umas mulatas, umas filhas; bonitas como ovo de pelincho!
Os vestidos eram mais floreados que roupa de cigana. Bueno! Aí, combinamos: "No baile do Capixi, tem um concurso de valsa. Depois, nós meio se emborrachamos e vamos "pra picada dos Assombros".

Fomos pro baile, só assistir o concurso. Botamos a mala na garupa, tudo ajeitado: lampião, aquela lambança toda. Chegamos no baile. De repente, ali pelas 10 horas, entaipou a lambança: o gaiteiro, tchê, só tocava pra cima, de tanta gente! Pelos lados, não dava; já se pechava todo mundo... Quando o negro queria rir, tinha que ser de bico, porque pros lados se pechava. Assim, ó de gente! E fomos. Só olhar o concurso de valsa, pra seguir viagem depois.

No concurso tinha um negro, Calandro, de Dom Pedrito; famoso. O prêmio era bom. Parece que o Capixi dava uma novilha ao primeiro colocado. De repente, aquela negrada grudou na valsa. Mas, vou te dizer uma cousa: a indiada tirava os quartos como boneca de mexeriqueira.

A noite inteira, tchê! E grudados na valsa! O Calandro não era trouxa. Escolheu uma mulata velha, dessas delgadas como pulga de tapera, e se atracou com ela. Oiga-le-tê, maula! Mas a cousa saltava fogo! Atracou-se com a mulata... a dançar.

Aquela valsa durou uma hora e pico, mais ou menos. E nós, sempre olhando; com os cavalos prontinhos pra pescaria. De repente o Calandro largou... terminou a valsa, largou a mulata: morta. Caiu morta... Ah! Houve um princípio de bochincho nessa altura. Morreu, a mulata. Naquela corrida toda, gritei. "Vamos pra pescaria, que isso vai dar nó!". Aí vem o doutor!

Já saiu um lá, de auto, buscar o doutor. Este constatou que a mulata dançou 15 minutos, viva, e uma hora e 45 morta. O Calandro a puxou morta! Essa negra dançava mesmo, né? Esse resto, ela dançou morta. Não perdeu o embalo nunca, seu! Ganhou o concurso e o bochincho estourou. E nós, ó... Bueno. Nos mandamos pra pescaria. Esse negócio de bochincho não é comigo: "Vamos pra pescaria que é a nossa finalidade".

Compramos uns pastéis do Capixi (que vendia pastel) e fomos embora. Já na pescaria, o primeiro pastel, que fui comer meio com fome, na bocada, o barbicacho me voou da cabeça. Dava horror, esses pastéis! Quando chegamos na costa do mato, nós já tava com as gadelhas lá em cima.

Desencilhamos os cavalos e atamos à soga a cavalhada. O dono do petiço era bochinchão que dava horror! Companheiro de lá, também.

Nos primeiros passos, nos atropela um lobisomem... E era negro que se atirava na reboleira, se atirava pra sanga... Aquele reboliço. O mato parecia que vinha abaixo. E ali ficamos. O tal de lobisomem sossegou. Bueno, a gente se refrescou. Começamos a cochichar uns com os outros e tal: "Tchê, vamos ver esse lobisomem. Não tá bem isso aí".

Um companheiro, muito mais corajoso do que eu, saiu a procura. Viu que era uma vaca, pesteada de tristeza, que tava dentro do mato. E, uma vaca pesteada de tristeza não tem a quem não atropele! Primeiro susto! Mas, se constatou que era vaca; não tem problema.

Agarramos as malas, de novo, e tocamos pras barrancas do arroio. Chegando no arroio, pegamos a comida que nós levava: só pastel. Daqui há pouco, um dava uma bocada e era chapéu que voava... Pastel do Capixi era só “rrrram”! Sentamos na barranca. Atiramos as linhas n’água. Atiramos longe, não! Olhamos longe, como avestruz em campo pequeno.

De repente, um grito, meio à esquerda? “Mas, o que foi que te aconteceu?”. Bah! A gadelha se foi lá em cima! De novo! Em riba do laço, aquele grito! Na hora que eu tava comendo o pastel... E, voou o chapéu! Paramos o ouvido. Desastre! Começamos a nos olhar. Nós não tinha revólver, não tinha nada, só uns facões.

Resultado do assunto: lá pelas tantas, fomos ver o que era. Chegamos numas reboleiras de unha-de-gato. Era um pedaço de disco da "Jardineira" que tinha quebrado. Alguém botou fora e, com as enchentes, se enredou nas unhas-de-gato. Tava ventoso e quando a unha-de-gato passava ali o pedaço de disco tocava: “Mas o que foi que te aconteceu?”.

Outro assombro! Aí, nos tranqüilizamos de novo. Voltamos pras barrancas do arroio. No que sentamos, o do petiço começou um bochincho com um companheiro. Mas, te falo de bochincho! Saltava tampinha de joelho, ponta de orelha, pé com bota...

E eu, meio borracho, não tava dando importância pra aquela briga. O do petiço se incomoda e queria ir embora. "Vou encilhá meu petiço e vou me embora"! Nem tirei a saber porque eles brigaram. E ele encilhou o petiço. Não demorou 15 minutos o mato parecia que vinha abaixo! E vinha pro nosso lado.

Era o petiço do desgraçado, correndo direto a nós. Agarrou picada adentro e veio que nem uma lista! Só vi quando ele voou pra cima de nós e caiu pro meio do arroio. O desgraçado, borracho, encilhou um capincho que tava dormindo, deixando o petiço. Outro susto!

O capincho se prendeu a velhaquear e saiu correndo direto à água. Terceiro susto! Decidi: “Até vou mudar de porto. Não fico por aqui. Não aguento mais!”. Saí e fui passeando bem aonde tinham pealado a velhama de 93, nas catacumbas. Mas, aí, fui me arrepiando... Nem me dei conta daquilo.

Quando dobrei uma catacumba, um me calçou com um revólver. Mas, um monstro! Não sei bem o que era. "A vida ou a carteira"! gritou. "Mas que vida nova?! Eu já tô morto há 30 anos, chê!!", respondi, na tampa, pra aquela coisa feia! (Pesquisa: Nilo Dias – Continua na próxima edição)


Nico Fagundes participou do 1º Concurso de Causos de São Gabriel.

sábado, 13 de agosto de 2016

CTG Tarumã homenageado

Invernada Artística do CTG Tarumã foi homenageada com um baile na fazenda do senhor João Caminha, em Bagé, em 1968. (Foto: Tarço Maciel, publicada na página do professor Meneghello, no Facebook)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Na Estância dos Galpões

Um silo na "Estância dos Galpões", que se localiza no Batovi. A estância foi mandada construir pelo senhor Manuel Bicca, no ano de 1922. Tinha características de arquitetura colonial portuguesa.

O silo foi construído no mesmo ano. Um dos proprietários da época, era Dodigo Bicca que conheceu esse tipo de silo na Argentina, para armazenar forragem no inverno. Mas segundo o historiador Osório Santana Figueiredo, que ouviu dos antigos, ele nunca foi usado para esse fim.

Quando o historiador o conheceu em 1943, era depósito de couros. Os donos quebraram e tiveram de entregar a estância para o Banco da Província do Rio Grande do Sul, em razão de dívidas, e arrendada por Arcanjo Arleu Petrarca.

Depois foi vendida para Ataliba Rodrigues das Chagas, conhecido por "Doca Chagas", que trabalhava para Arleu Petrarca. "Seu Doca", casado com Rosalina Modernel das Chagas, teve 11 filhos: Toribio, Didino, Gastão, Ari, Luis Carlos, Amélia, Dária, Maria, Ilda, Iracema e Eloisa.

Atualmente a estância encontra-se subdividida. A sede pertence a Eloisa, casada com Birá Neves, pais de Ataliba, casado com Raquel Velasques dos Santos, pais de Melk. Dedicam-se a pecuária.

De acordo com observação do historiador, embora já esteja com 94 anos desde a construção, o depósito está custando a ruir. Sinal de que foi uma obra bem feita. (Foto: Magro Borin)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tio Caio, bateu saudade!

Carlos Dácio de Assis Brasil não era somente um homem bom, querido por toda a comunidade gabrielense. Era muito mais do que isso. Estudioso da vida do próprio avô, inteligente, sincero, amigo. Um verdadeiro líder, na mais pura acepção da palavra.

Foi um idealista. Mesmo sendo um homem de posses preferiu sempre se posicionar ao lado das pessoas mais necessitadas. Por isso filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e chegou até a concorrer a prefeito pela sigla, em 2000, em uma chapa que tinha o saudoso advogado doutor Lanes Bicca, como vice.

Também concorreu a deputado federal pelo PT. Foi um dos primeiros defensores da Reforma Agrária e do Movimento Sem Terra (MST). Ele também defendia fortemente a renovação da política local e foi um dos entusiastas companheiros petistas na eleição que conduziu o então provedor da Santa Casa, Roque Montagner à Prefeitura de São Gabriel.

Antes de ingressar no PT, Carlos Dácio foi vereador e presidente da Câmara Municipal nos anos 70, quando filiado à ARENA. Era também, patrão de honra do PTG Dácio de Assis Brasil.

Seu pai foi uma liderança política

Carlos Dácio nasceu em 1940, dois anos depois da morte do avô materno, o lendário líder político Joaquim Francisco de Assis Brasil. O pai de Carlos Dácio, o doutor Dácio de Assis Brasil, médico e ruralista, era uma liderança política no Estado, tendo presidido a Farsul em dois mandatos, 1957 e 1965.

Foi nesse período que implantou o Sindicalismo Rural no Rio Grande do Sul, quando a Federação das Associações Rurais passou à Federação da Agricultura, adequando-se à Lei do Sindicalismo, aprovada pelo Governo Federal;

E não é só isso: era um homem que primava pela austeridade, dono de uma personalidade marcante. Mesmo sendo médico, foi no ruralismo gaúcho que Dácio de Assis Brasil deixou seu nome gravado para a posteridade.

Foi Presidente da Associação Rural de São Gabriel, fundador e presidente da Cooperativa de Carnes de São Gabriel, quando construiu o Frigorífico Santa Brígida, um dos primeiros a ser instalado no país por entidade do gênero. Organizou e também dirigiu por diversos anos a Cooperativa de Lã Tejupá.

Dácio de Assis Brasil é hoje nome de uma escola, de uma rua e de uma entidade tradicionalista em São Gabriel.

Dona Lina de Assis Brasil

A mãe de Carlos Dácio era a saudosa dona Lina de Assis Brasil, que faleceu em 2003, aos 87 anos de idade. Eu a conheci. Muitas vezes entreguei o jornal “Tribuna de Povo”, de minha propriedade em sua casa, na “Chácara Juca Tigre”. E seguidamente era convidado para um delicioso café da manhã, acompanhado de deliciosas cucas e pastéis apetitosos.

Lembro bem dela. Era uma senhora idosa, simpática e cheia de vitalidade. E sempre estava por dentro de tudo o que se passava na cidade e no país.

Ela era filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, com uma nobre portuguesa. Quando Lina casou e foi viver em São Gabriel, não precisou mudar o sobrenome: o marido era Dácio Assis Brasil, seu primo em segundo grau.

Dácio e Lina, além de Carlos Dácio, tiveram ainda os filhos Ana Maria, casada com Sinval Teixeira da Silveira, Maria Inês, casada com Niwton Valentini, Vera, que foi casada com Marco Aurélio Souto e Jaime Dácio, casado com Clarice Bento Pereira.

Tentativa de homicidio

Em junho de 2010, Carlos Dácio sofreu uma tentativa de homicídio, enquanto dormia em sua residência, na propriedade situada na área verde localizada próximo ao Centro da cidade.

Segundo informações, assaltantes entraram na casa dele para roubar carnes de ovelhas, que tinham sido trazidas no dia, da “Estância Tejupá”, de propriedade do pecuarista. E também estavam em busca de dinheiro, indo até o quarto em que ele dormia.

Carlos Dácio acordou já com um dos assaltantes tentando cortar o seu pescoço com uma faca. Sem conseguir matar a vítima, os assaltantes fugiram, e o pecuarista foi socorrido por familiares e levado até a Santa Casa de Caridade, onde se recuperou.

A notícia causou surpresa e choque, em face de Dácio ser de uma família tradicional na comunidade gabrielense.

Amigo de longos anos

Eu tive a honra de ser seu amigo e admirador por cerca de 30 anos. Muitas foram as jornadas notívagas que empreendemos juntos. Lembro de uma vez em que visitamos vários bares da cidade, num velho carro Ford Corcel que eu tinha.

Na hora de ir para casa, depois de sair do Restaurante Glória, ao dobrar para a rua Celestino Cavalheiro, já sentindo os efeitos etílicos da noitada, acabei subindo a calçada e derrubando parte do muro da residência do doutor Nero Meneghello.

Na manhã seguinte fui falar com o conceituado médico, que era também meu amigo e providenciei a reconstrução da parte atingida. Coisas que acontecem.

Faço essa introdução para dizer que senti muito a morte do grande amigo, ocorrida no dia 23 de setembro de 2013, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

O “Tio Caio”, como era carinhosamente chamado pelos amigos mais íntimos, chegou a ser atendido pelo conceituado e competente médico, doutor Luis Carlos Nunes, mas não resistiu e morreu ao dar entrada no hospital da Santa Casa de São Gabriel.

Eu devo a vida ao doutor Luis Carlos Nunes, que é filho do saudoso amigo e ex-jogador de futebol, campeão da Zona Centro pelo antigo G.E. Gabrielense, João Nunes, “Muquica”. Certa feita eu me encontrava no “Bar Pilequinho”, do amigo Amarílio Flávio Socca, quando tive um mal súbito e fui levado às pressas até o hospital.

Lá chegando, minha pressão estava 26 por 20. Um milagre estar vivo. E fui atendido pelo doutor Luis Carlos, que conseguiu reverter a situação. E graças a ele estou aqui hoje, escrevendo histórias no jornal “O Fato”.

Voltando ao “Tio Caio”, ele já vinha tendo outros problemas de saúde, tendo inclusive sido internado na Santa Casa. Mas como não era homem de ficar preso a uma cama de hospital, insistiu para voltar para casa, ficando aos cuidados de familiares.

Lançamento do livro

A última vez que vi o amigo foi quando do lançamento de meu livro “100 anos de futebol em São Gabriel”, no Museu Nossa Senhora do Rosário, instalado no prédio restaurado da antiga “Igreja do Galo”.

Ele adquiriu dois livros, um para enviar ao seu grande amigo Cláudio Duarte, ex-lateral do S.C. Internacional, de Porto Alegre e depois treinador dos mais competentes.

Antes, nos encontramos num jantar especial realizado na “Chácara Juca Tigre”, na residência do também amigo Luiz Eduardo Assis Brasil, o popular “Seco”.  O Carlos Dácio, com a atenção que sempre lhe foi pródiga, providenciou para mim um delicioso preparado de cachaça com butiá, que estava virado num verdadeiro “néctar dos deuses”.

Me esbaldei bebendo aquela delícia, para depois forrar o estômago com uma carne de ovelha com mandioca, arroz branco e um feijão maravilhoso, enriquecido com um valioso charque ovino.

E para completar o cardápio um maravilhoso assado, digno de reis e príncipes, uma carne tipo exportação trazida pelo amigo João Alfredo Reverbel Bento Pereira. Eu disse na ocasião que foi um jantar digno de recepcionar o presidente Obama.

A cerveja, uísque e cachaça com butiá rolou solta. Meu estomago matou a saudade dessas delícias e agradeceu.

Estavam presentes, além do anfitrião “Seco” Assis Brasil, o seu tio e amigo Carlos Dácio Assis Brasil, que eu não via há muito tempo. Também os amigos João Manoel Macedo, Caio Rangel, Atamarílio Socca, o “Flavinho”, Luiz Marengo, o inigualável “Mudo”, sempre alegre e bem disposto e o saudoso Luiz Porciúncula, o “Popó”, que foi o dono da noite, nos contando alegres histórias. E sem esquecer o amigo Celci, responsável pela excelência dos pratos servidos.

João Alfredo Reverbel BentoPereira

O João Alfredo é visitante ativo da “Chácara Juca Tigre”, não perdendo nenhuma das recepções feitas pelo amigo comum Luiz Eduardo, o “Seco”. E me aproveitei disso para pedir-lhe que contasse alguma história, um fato, enfim qualquer coisa envolvendo o nosso saudoso “Tio Caio”.

E como não poderia deixar de ser, a resposta veio pronta:

“No velório do Carlos Dácio, fiquei ao lado do Tiago Nobre. Perguntou-me por sua idade e confirmei: 72 anos (era de novembro de 1940). Disse-lhe que a nossa diferença de idade era de quatro anos, o que, agora, parece pouco, mas, quando jovens, pesava bastante.

Sua turma era outra que não a minha e sempre convivemos pouco. Isso, porém, não me impede de reconhecer que se tratava de uma pessoa singular, com suas idiossincrasias, mas quem não as têm? Mas sempre foi íntegro, correto e justo.

Aliás, isso não surpreende, pois tinha um pai e uma mãe admiráveis. Foi das poucas e raras pessoas que incursionaram pela política, saindo ileso, intacto e inteiro. Era e sempre foi um homem com agá maiúsculo. Até um dia, meu amigo”.

Abaixo, duas historinhas verídicas dele e que me foram repassadas pelo “Seco”, o seu sobrinho.

“Tio Caio” era muito amigo de um antigo taxista, o Neri. Um certo dia, fez diversas encomendas e lhe emprestou o seu melhor carro para que fosse até Rivera, buscar alguns produtos alimentícios e etílicos. O taxista deixou o seu carro com ele, com a devida identificação. E o Carlos Dácio saiu a passear pela cidade.

Nisso, começou uma garoa miúda e cáustica. No centro, um casal da campanha, devidamente paramentado, fez sinal para o taxi. O motorista estacionou e o gauchinho perguntou se podia levá-los até o Engenho Gabrielense.

Com sua pronta concordância, deixou-lhes no destino certo. O gauchinho perguntou-lhe quanto devia pela corrida e o Carlos Dácio: "nada, pois eu não cobro em dias de chuva". E seguiu o seu caminho, ante o olhar pasmo do passageiro.

O mesmo Carlos Dácio sempre gostou de carros velhos. Entre esses, tinha uma Brasília esmerilhada. Na época, morava na Baltar, próximo ao Parque de Exposições que leva o nome do seu avô materno. E era dia de exposição. Saiu na Brasília e logo foi parado por uma barreira da Brigada Militar, pouco antes da ponte do rio Vacacaí.

Os brigadianos, educadamente, pediram que estacionasse, desligasse o motor e apresentasse os documentos do veículo, bem como sua habilitação. Constrangido, o motorista explicou que havia saído de casa, assim como estava e esquecera os papéis do carro e seus documentos.

Disseram-lhe que, sendo assim, teriam que apreender a Brasília e, após, a levariam para o depósito (naquele tempo, não havia guincho). O Carlos Dácio fez o que lhe fora mandado fazer, desceu do carro e entregou as chaves do veículo.

Os brigadianos devem ter pensado na amolação de tudo aquilo, ainda mais que teriam de levar o veículo até o depósito. Convencidos da boa-fé do condutor e que já ia se afastando, devolveram as chaves do carro, dizendo-lhe que, da próxima vez, tivesse mais cuidado.

Aí, ainda mais constrangido, pediu que empurrassem o carro, pois estava sem bateria. Os brigadianos não tiveram outra alternativa, até a Brasília pegar no tranco.

O João Alfredo é uma pessoa especial. Embora sendo um homem de posses, membro de família respeitável, a exemplo do saudoso “Tio Caio”, sempre preferiu a companhia daqueles que ele mesmo chama de “amigos de verdade”.

Sei que são muitos, por isso não me atrevo a citá-los, pois com certeza correria o risco de esquecer de algum. E sei que o João Alfredo não iria me perdoar.

Tenho a coleção completa de seu livro “Amenidades”, que anualmente é atração na Feira do Livro de São Gabriel. São historinhas reais, gostosas de ler. Sou seu fã de carteirinha.

Ninguém conhece o butiá

Mas voltando a falar no butiá, aqui por Brasília ninguém conhece. Uma vez eu consegui alguns bons frutos em São Gabriel. Preparei a bebida, que ficou três meses em infusão, e depois levei dois litros para que os amigos do bar que frequento, provassem.  Os caras se esbaldaram e beberam tudo em pouco tempo.

Lembro que o meu saudoso sogro, Gelcy Motta, que tinha um armazém frente a antiga Ponte Seca, todos os anos preparava vários garrafões da bebida, que depois vendia no decorrer do ano. Importante, ele não “requentava” o butiá, colocando mais cachaça depois que os garrafões secassem, como fazem alguns comerciantes.

Eu até me arriscaria em sugerir que algum vereador, também consumidor da gostosa bebida, entrasse na Câmara Municipal com um projeto aclamando essa como a bebida oficial da cidade. E quem sabe, até merecesse uma festa anual.

Da próxima vez que for a São Gabriel, vou procurar alguma muda de butiazeiro. Quero plantar aqui em casa. Tinha receio que não pegasse, mas li em uma publicação na Internet que a planta se dá bem em qualquer lugar.

Se não conseguir a muda, vou experimentar plantando o caroço. Dizem que também pega, mas leva mais tempo. Desde já conto com a colaboração de algum amigo, que possa me arranjar uma muda. Vou buscar quando for aí.

Estância Tejupá

“Tio Caio” nunca negou que se pescasse na sua propriedade rural, a Estância Tejupá. O nome é indígena e significa “casa modesta”. No passado foi posto da “Estância Tiaraju”, pertencente ao general Ptolomeu Assis Brasil.

O general nasceu em São Gabriel no dia 26 de março de 1876. Era filho do estancieiro Francisco de Assis Brasil e de Josefina de Assis Brasil.

Combateu na Revolução de 1893/95, sendo um dos chefes da Revolução de 1930. Governador do Estado de Santa Catarina (1930/32), engenheiro, geógrafo, localizou as posições dos exércitos que combateram nas batalhas de Cayboaté (1756) e de Ituizaingo (1827).

Casou-se em primeiras núpcias com Arlinda Porto de Castilhos, filha do coronel José Seraphim de Castilhos, conhecido como “Juca Tigre”.

Seu irmão, Joaquim Francisco de Assis Brasil foi várias vezes embaixador na Argentina, constituinte de 1891, embaixador nos EUA de 1898 a 1903, revolucionário de 1923 e 1924, deputado federal de 1927 a 1928, revolucionário de 1930, ministro da Agricultura de 1930 a 1932 e constituinte de 1934, tendo-se destacado como chefe do Partido Libertador e um dos mais importantes líderes políticos gaúchos.

O general Ptolomeu foi o autor do livro “A Batalha de Caiboaté”, onde fez a descrição dos antecedentes jurídicos e históricos do conflito. Retrata a vida cotidiana nas Missões e aponta o grau de sociedade comunitária e o progresso alcançados.

Expõe também os números da chacina: morreram, do lado dos ibéricos, apenas três homens – de um contingente de 3.700 soldados –, ao passo que foram massacrados 1.300 índios em uma hora e 10 minutos.

O autor estudou o caso como historiador e militar. Muniu-se de trena, mediu trechos a pé, confrontou informações obtidas no diário do comandante luso, tudo para ser o mais fidedigno possível na realização da obra e mostrar a grandeza do índio Sepé. Descrição física: 134 páginas

Eu estive na “Estância Tejupá” em três ou quatro oportunidades, sempre acompanhado do tenente Alci Dutra e do Flávio Lucca, meus inseparáveis companheiros de linha e anzol.

Lembro bem da estância. Era um lugar muito bem cuidado. Já na entrada se podia observar o capricho do proprietário. Grama bem aparada e flores coloridas nos jardins.

Matéria interessante

O jornal “Diário de Santa Maria” publicou interessante matéria sobre Carlos Dácio, com o título “O herdeiro intelectual de Assis Brasil”.

A publicação salientou que Carlos Dácio, intrigado com as histórias que cercavam o seu lendário avô, passou a buscar mais subsídios sobre tantos feitos contados por sua mãe.

Tendo a origem Assis Brasil nos dois lados, Carlos Dácio assumiu a responsabilidade de perpetuar a história da família. Seu avô paterno, Ptolomeu de Assis Brasil, filho de Antônio e sobrinho de Joaquim Francisco, era general do Exército e combateu na Revolução Federalista, de 1893-1895. Também foi um dos chefes da Revolução de 1930, o que o levou a ser interventor de Santa Catarina, no período de 1930-1932.

Já o avô materno de Carlos Dácio, Joaquim Francisco de Assis Brasil, foi um revolucionário das ideias, longe de ser um homem de combate. Foi um pioneiro, um inovador, um homem do mundo.

Carlos Dácio leu e releu todos os livros escritos por Joaquim Francisco. Sabia cada detalhe da vida do avô, do contexto político e histórico do momento e teve um entendimento muito articulado sobre o andar dos tempos.

Carlos Dácio dizia que sempre admirou o avô, que foi um homem de muitas ideias políticas e rurais sempre à frente de tudo. Seu avô era a favor da universalidade de escolha – dizia, na casa que era de sua propriedade em São Gabriel, onde fica um marco na “Sanga da Bica” que sinaliza o provável lugar da morte de Sepé Tiaraju, o índio guarani que virou herói ao lutar contra o domínio luso-espanhol no século 18.

Na biblioteca da antiga casa dos pais, onde vivia em São Gabriel, Carlos Dácio guardava algumas bandeiras, como as do Rio Grande do Sul e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Era dono de terras e, assim como seu avô, acreditava na reforma agrária. E, por isso, causava o mesmo tipo de estranheza de Joaquim Francisco, perpetuando um tipo de pensamento argumentado e racional que marcou a trajetória do avô.

Segundo Dácio, os primeiros a receber terra no Brasil foram os que ajudaram a guardar as fronteiras. Ganhavam-se títulos de terra e o direito de formar pequenos exércitos.

E o que foram a capitanias hereditárias? Isso que, naquele tempo, ganhava-se terra sem o compromisso de produzir. Depois, houve reforma agrária com os imigrantes italianos e alemães. Pregava a busca da igualdade social. A agropecuária não adianta nada se as pessoas passam fome, dizia.

Acho que vale a pena relembrar aqui, um artigo escrito pelo amigo Bereci da Rocha Macedo, em seu blog, quando do falecimento de Carlos Dácio:

Fraterno amigo

Registro, com acentuada tristeza, o passamento do fraterno amigo, Carlos Dácio Assis Brasil. Sou avesso a homenagens póstumas, portanto não encarem estas palavras como uma.

Acontece que muitas vezes somos atropelados pela morte. Um dever moral, porém me obriga a escrever algo sobre esse cidadão culto, inteligente, solidário, pacífico e humano que ora nos deixa.

Tivemos um excelente e prolongado convívio político/social e durante esse período avaliei sua lealdade para com sua gente e seu extremado amor pela sua cidade.

Nossa convivência foi pautada pelo respeito mútuo e pelas regras da civilidade. Atrevo-me a dizer que Carlos Dácio Assis Brasil mais não fez pela sua terra porque ela mesma lhe negou mandatos para tanto.

Posso afirmar, sem medo de errar, que o Carlos Dácio pelas suas qualidades e seu indiscutível preparo intelectual poderia muito ter contribuído com o engrandecimento de São Gabriel.

Lamentavelmente isso nunca dependeu somente da sua vontade, mas da vontade da maioria da coletividade, o que lhe faltou. Foi um bom vereador, mas poderia ter sido muito mais se não lhe tivessem negado o passaporte.

Posso ainda afirmar que em determinados momentos o dileto amigo Carlos Dácio foi usado por muitos e prestigiado por poucos. Quem conviveu com ele pode atestar quanta razão me assiste.

Tanto a Prefeitura Municipal, como a Câmara Municipal, decretaram Luto Oficial por três dias em decorrência da morte do ex-vereador Carlos Dácio de Assis Brasil, ocorrida em 23 de setembro de 2013.


O corpo foi velado na Chácara Juca Tigre, e sepultado no cemitério local com grande acompanhamento. Sandra Xarão, que presidia o Legislativo Municipal, disse na ocasião que “São Gabriel não perdeu apenas um empresário e um político, mas um grande homem que passa a integrar a história de nossa cidade”. (Pesquisa: Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS))

Carlos Dácio e Nilo Dias, quando do lançamento do livro "100 anos de futebol em São Gabriel".


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Professora Ruth Farias Larré

Ruth Farias Larré nasceu em 29 de agosto de 1938 no "Rincão da Invernada", no interior de São Gabriel. Era formada em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Imaculada Conceição, atual Centro Universitário Franciscano (UNIFRA) e começou a lecionar aos 16 anos. Também foi secretaria da Inspetoria Seccional do ensino Secundário e coordenou o Clube de Teatro no Colégio Estadual Manoel Ribas.

A professora integrava a Academia Santa-Mariense de Letras, onde foi presidente, e a Associação Amigos da França, além de ministrar aulas de redação e português em sua casa. Era uma referência na área para Santa Maria e região.

Está presente em todas as publicações de produções coletivas da Associação e da Academia Santa-Mariense de Letras. Recebeu a Medalha do Mérito Literário da Associação Santa-Mariense de Letras, foi professora homenageada na Feira do Livro de Santa Maria em 1998 e Patronesse da Feira do Livro de São Sepé em 2012.

Publicou dois livros de autoria própria: "Receita de Homem e Outros Poemas", de 2000, e "Poemas e crônicas em sombra e luz", de 2008. Junto com a professora Solange Fonseca Kraetzig em 1980, publicou o livro didático "Textos para vestibular". Além disso, foi protagonista de alguns espetáculos e participou e coordenou recitais poético-musicais.

Ruth era casada com o escritor José Bicca Larré, 85 anos, com quem teve três filhos: Ludwig, Flavio (já falecido) e Gustavo. Ainda ajudou a criar dois filhos do primeiro casamento de Bicca. Ela tinha uma neta, Helena, e era irmã do militar da reserva e divulgador da doutrina espírita Teltz Cardoso Farias.

Ela faleceu em 25 de março de 2015, em Santa Maria, aos 76 anos. Estava internada desde o dia 2 de março, onde tratava de complicações causadas por um câncer. Há pelo menos uma semana, estava em estado gravíssimo no Centro de Tratamento Intensivo (CTI). (Fonte: Jornal "Diário de Santa Maria)

O ano passado, a Prefeitura Municipal de Santa Maria, por meio da Secretaria de Educação e as escolas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Rede Municipal de Ensino (RME), promoveram o Primeiro Concurso Literário de Poesia - Troféu Ruth Farias Larré, com o tema “Vidas transformadas em poesias”.  

Na Feira do Livro de Santa Maria, que aconteceu de 23 de abril a 8 de maio deste ano, a  escritora homenageada foi Ruth Farias Larré. Ela sempre foi presença constante na praça Saldanha Marinho nos dias de Feira. (Fonte: Diversas)


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Handebol no Perpétuo Socorro

Anos 70. Time de handebol do Colégio Perpétuo Socorro. Algumas das atletas que apareem na foto: Carmencita Fabrício, Tânia Regina Saccol, Stela Maris, Maria Eulalia Mancio, Carmem Tereza, Lurdinha Davi e Neuza Porto. (Foto: Página de Carmen Saccol dos Santos, no Facebook)

domingo, 17 de julho de 2016

Ainda há resistência

O amigo Gilberto de Moura Mello, grande tradicionalista de São Gabriel, filho de outro gaúcho da melhor estirpe, Derli Mello, é apresentador de programas gauchescos na Rádio Batovi.

Mas também sabe captar com sua máquina fotográfica valores históricos da terra, como são os carreteiros. Alguns, caso do seu Atos Quinhones, que aparece em uma das fotos, ainda resistem ao tempo e ao modernismo, visitando esporadicamente a cidade, vendendo os produtos de seu trabalho, como a batata doce.

Pena que hoje em dia eles não podem mais vender as famosas  mantas de charque, esplendidas para o feijão e para o nosso tradicional carreteiro. Lembro desse período em que o meu sogro Gelcy Motta, revendia no Armazém Motta o charque gordo trazido pelos carreteiros.

E não era só. Traziam, também, galinhas, leitões, melancias, laranjas, bergamotas, abóboras, algumas de tamanho gigantesco e tudo o mais que se pense. Ao ver essas fotos, dá uma saudade tremenda.




segunda-feira, 11 de julho de 2016

*Boa tarde, Nilo

Desculpa a demora em responder, mas fiquei com problemas no e-mail por quase 30 dias. Agradeço a atenção em nome dos meus queridos amigos Praxedes e Dilmar - mesmo que eles já não estejam entre nós.

Assim como eu, o meu tio Dilmar tinha um grande apreço, respeito e consideração pelo Praxedes. Uma biografia exemplar para todos os homens do nosso tempo e para os que virão.

É claro que autorizo a publicação. Considero quase uma prestação de serviço e informação aos gabrielenses.

Abraço fraterno e bom trabalho!!

Marco Medina

Praxedes: o iluminado

Praxedes da Silva Santos, um dos maiores nomes da Maçonaria gaúcha e brasileira, morou muitos anos em São Gabriel, onde prestou relevantes serviços à Loja Maçônica Rocha Negra Nº 1. Mas era filho de Alegrete, onde nasceu no dia 21 de julho de 1907, no 2º subdistrito de Itapororó, numa modesta casa de um fundo de campo, cercada por pés de laranjeiras.

Tudo o que será contado nesta matéria, inclusive às fotografias, foi retirado da magnífica obra do gabrielense Marco Medina, “Praxedes, o Cavaleiro do Tempo”, que recebi de presente do grande amigo Dilmar Valls Machado, quando de uma de minhas visitas a São Gabriel.

Somente há poucos dias fiquei sabendo que o amigo Dilmar nos deixou. Lamento profundamente sua partida, pois se tratava de uma pessoa que eu queria muito bem.

Lembro bem de seus tempos de Farmácia São Gabriel, quando eu costumeiramente ia visitá-lo para longos e agradáveis bate-papos, especialmente sobre futebol. Ele era torcedor do Internacional, também meu time de coração, sendo o primeiro cônsul do clube na cidade.

Integrava várias entidades assistenciais e sociais, como a Maçonaria e a Ordem Rosacruz (AMORC)

Dilmar morreu no dia 1 de janeiro deste ano. O seu velório aconteceu na Loja Maçônica Rocha Negra nº 1 e o sepultamento no Cemitério local.

Praxedes era filho de Cipriano Batista dos Santos e Francisca Silva. O sétimo filho, nascido em julho o sétimo mês, na sétima hora e em 1907. O pai do menino ficou convencido que tudo aquilo teria de ter um significado.

E mais tarde, casou no dia 7 de abril e foi iniciado na Loja Maçônica Rocha Negra Número 1 num dia 27.

Tinha oito irmãos, Rufino, Amador, Belmira, Amália, Antônia, Pelmina, Inocêncio e Arquilau.

O nome foi uma homenagem ao santo do dia, como era costume antigamente. Por coincidência, Praxedes vem do grego “Práxis” e quer dizer trabalho, ativo, laborioso, prático.

Quem atendeu seu parto foi a parteira de nome Noêmia. E ela contou uma história realmente estranha. Depois do trabalho de parto, quando se dirigia para casa, viu passar ao lado dela sete pequenas esferas luminosas.

Assustada, só conseguiu dizer “Deus Pai” e fazer o sinal da Cruz. Depois ajoelhou-se e rezou: “Que Deus Pai, Todo Poderoso, proteja o guri. Deus ajude que aquelas sete bolinhas luminosas, sejam sete anjos do senhor”.

Além de Noêmia, um gaúchão conhecido por João Tropeiro testemunhou o estranho acontecimento. E dias depois encontrou a parteira no bolicho do seu Candinho. E ante a indagação do homem, ela negou ter visto quaisquer luzes sobre a casa de dona Francisca. E disse que João Tropeiro estava bebendo demais e tendo visões, dando o caso por encerrado.

Muitos anos depois, João Tropeiro, com 80 anos de idade, encontrava-se no leito de morte em Itapororó. Mas de repente melhorou, tendo se levantado, tomado água e até se alimentado, coisa que não fazia há meses.

Ao retornar a cama deu um enorme sorriso e disse: “as esferas que vi quando do nascimento do guri Praxedes, estão aqui no quarto, iluminando tudo. Vieram me buscar”. E realmente o quarto estava todo iluminado. E assim João Tropeiro morreu.

Dona Francisca, a mãe de Praxedes, era argentina de nascimento. E todas as noites, antes de ir dormir, passava pelo quarto do pequenino para ver se ele estava bem tapado na diminuta cama. E passando suavemente a mão sobre seus cabelos dizia baixinho:” Mi hijito querido”.

Com apenas cinco anos Praxedes já tinha aprendido uma boa parte do catecismo campeiro. Seguia o pai em todas as suas lidas, montado num petiço puxador de pipas d’água. E com o pai aprendeu muita coisa, ouvindo os bons conselhos que ajudaram a formar sua personalidade.

Aos 9 anos de idade, Praxedes foi vítima de um sequestro. Um fazendeiro, contando com a ajuda de um empregado o levou para sua propriedade rural, onde ficou por cerca de um ano. Nada recebeu de pagamento.

A família contratou advogados que conseguiram intimidar o malfeitor, que logo tratou de se ver livre de Praxedes, cedendo-lhe cavalo e roupas para que fosse embora. Isso acabou servindo para dar um amadurecimento maior ao menino.

Desde pequeno dedicou-se ao trabalho, tendo sido campeiro, comerciante, alfaiate, vendedor e viajante. Perdeu o pai muito cedo e teve de enfrentar as asperezas da vida.

Com apenas 12 anos de idade mudou-se para Alegrete. Alugou uma casa na rua São Manoel, próximo a uma padaria, embora o irmão mais velho fosse dono do Hotel Alegretense. A propriedade em Itapororó ficou aos cuidados do mano Amador.

As irmãs Belmira, Amália e o irmão Antônio casaram muito jovens. Pelmina ficou solteira e morreu com idade avançada. Belmira, que morava em Cacequi, morreu com 106 anos em 2005.

E lá em Alegrete, as sete bolinhas luminosas vistas no dia do seu nascimento, voltaram a aparecer, fato que foi testemunhado por um mendigo, morador de rua. Passado algum tempo, é que Praxedes soube que aquelas visões eram sinais evidentes de mediunidade.

Ainda em Alegrete, Praxedes e alguns amigos resolveram montar um circo, que se constituiu em grande sucesso. Como não era portador de nenhum dote artístico, foi encarregado de cuidar da portaria e bilheteria.

Lá em Alegrete Praxedes ganhou seu primeiro emprego. Foi no armazém do seu Vitor Pierry. O movimento era tímido, o que deu tempo ao “guri” de “fabricar” pandorgas e bonecos trapezistas de madeira. E também carimbos feitos de borracha. Tudo isso ele comercializava, o que rendia ganho extra.

Seu salário no armazém era de 8 mil réis, dinheiro que mandava integralmente para sua mãe, para ajudar no sustento da casa. Ela lhe devolvia pequenas quantias, que geralmente eram gastas em idas ao cinema.

Depois foi trabalhar na Alfaiataria La Gamba, onde logo aprendeu os segredos da arte. E suas habilidades logo se espalharam, tanto que os concorrentes da Alfaiataria Central, a maior de Alegrete, logo trataram de contratá-lo oferecendo-lhe um salário apreciável.

A noite frequentava a Escola Metodista e depois ia para o Hotel de seu irmão, para onde se mudara.

Aos 17 anos foi morar em Porto Alegre, onde logo de chegada conseguiu trabalho na Alfaiataria Soares, Irmãos e Companhia, sendo depois promovido a alfaiate-viajante.

Um moço vindo do interior encontrou pela frente uma cidade grande, coisa que não havia visto antes. Encantou-se com os bondes que cruzavam a metrópole de um lado a outro.

Ficou perplexo ao ver tanta gente nas ruas. E o que dizer dos cinemas que havia na capital? Na sua pequena Alegrete eram apenas um ou dois. E as confeitarias, cafés e livrarias que existiam em profusão? Tudo parecia um sonho.

Acomodou-se na “Pensão Alegretense”, cujos proprietários eram de Alegrete. Um lugar simples, onde era servida comida caseira. E para completar o quadro de otimismo, na primeira alfaiataria que chegou, garantiu emprego.

Era a Alfaiataria Soares Irmãos e Companhia, que se localizava na Rua dos Andradas, 925. Em pouco tempo foi encaminhado para a “Academia de Corte Francês”, de Porto Alegre, onde concluído o curso, além de maior qualificação profissional, ganhou de presente uma tesoura, “troféu” que guardou até seus últimos dias.

Não demorou para se tornar o melhor alfaiate da empresa. Nas merecidas férias ia sempre a Alegrete visitar os parentes e recordar os bons tempos de criança, vividos no seu querido Itapororó.

Quando da Revolução de 30, a alfaiataria onde Praxedes trabalhava era também especializada em roupas militares. Certa ocasião ele foi encarregado de fazer uma entrega para o Batalhão do Corpo Provisório, que contava com cerca de 400 homens.

Levava cerca de 20 quilos de dinamite, embalados em papel da alfaiataria para explodir o local, a mando de uma resistência recém organizada. Mas tudo deu errado. Praxedes, enredou-se em uns fios e caiu, com as bananas de dinamite rolando pelo chão.

Sua sorte foi que usava uma roupa cinza, típica dos alfaiates da época, que era da mesma cor que o uniforme dos militares. E na confusão formada conseguiu ir embora, com uns arranhões provocados pela queda, mas nada que preocupasse.

Passada a Revolução, a empresa estava em plena ascensão, vendendo para unidades militares de todo o Estado. Praxedes foi escolhido para viajante, encarregado de visitar esses clientes.

Viajava de trem, de carro e de ônibus. Embora gostasse do trabalho, esse era pesado, cansativo e o levava a pensar na possibilidade de voltar a morar no interior.

Em 1935, juntando o dinheiro do ótimo salário que recebia, mais as comissões das vendas realizadas por todo o Rio Grande do Sul, decidiu morar em São Gabriel, para onde sua mãe, que estava muito doente se mudara. Então, ele arrendou uma chácara próxima ao Quartel do 6º BE Cmb.

O local lembrava muito a calmaria de Itapororó. Dona Francisca podia criar galinhas, porcos e cuidar da horta. Havia laranjeiras de umbigo tão doces, que até os parentes vinham de longe para saboreá-las.

Praxedes conseguiu emprego como alfaiate na unidade militar onde hoje se encontra o 9º Regimento de Cavalaria Blindada, onde ficou por longos anos. Depois partiu para montar sua alfaiataria própria, que ficava na Rua João Manoel, 355, próxima ao Calçadão de São Gabriel.

Com boa estabilidade financeira, sem precisar viajar, pode gozar de bastante tranquilidade, o que lhe permitiu até frequentar a Igreja Episcopal, na época conhecida por Igreja da Redenção, na esquina das ruas Coronel Soares e General Mallet.

Quando sua mãe deixou esta vida terrena, Praxedes estava preparado. Ele e a mãe conversaram muito sobre esse momento, e como os dois eram bastante espiritualizados, sabiam que a morte era um evento obrigatório da vida terrena, coisa normal para os verdadeiros espiritas.

Em 1940, quando de um culto, uma moça de nome Orfila Rodrigues de Oliveira, conhecida por “Mosinha”, lhe chamou a atenção. Ela fazia parte do Coral da Igreja. Namoraram e quatro anos depois, no dia 7 de fevereiro de 1944 casaram no mesmo templo onde se conheceram.

Foi um amor a primeira vista. Em 1969 o casal retornou a Igreja da Redenção, para a solenidade de “Confirmação do Matrimônio”. Aproveitaram bem a vida.

Frequentavam bailes sociais e de Carnaval, iam ao cinema, na época o Harmonia e viajavam bastante. Ora para Porto Alegre, ora para a Praia do Cassino. Adoravam passeios de barcos alugados pelo rio Vacacaí.

O casal gostava de ajudar os mais necessitados. Quem batesse a porta de sua casa, nunca saia de mãos vazias. Certa vez, quando de uma temporada no Centro de Águas Termais, em Irai, Praxedes constatou que os índios que habitavam a região, passavam por dificuldades de toda a ordem.

E o que fez? Liderou um movimento filantrópico entre os hóspedes do Hotel Internacional, onde estavam hospedadas cerca de 100 pessoas. Mas não obteve êxito, pois existia a crença generalizada de que os índios eram malandros, não gostavam de trabalhar e eram alcoólatras.

O casamento durou 36 anos, até o dia que Orfila faleceu, 4 de julho de 1980. Praxedes, graças a sua mediunidade, soube que sua mulher morreria antes dele. E contou isso a ela, o que de fato se concretizou.

Praxedes, que se aposentara em 1969, depois de 47 anos de trabalho, dividia seu tempo em frequentar a Igreja Episcopal, o Centro Espirita Obreiros da Caridade e a cuidar de seus animais, um cão e um gato e também de plantas.

Desde pequeno dava sinais evidentes de mediunidade. Costumava conversar com visitantes invisíveis, fato comprovado por familiares. Em tenra idade seu espirito se afastava do corpo, para longas campereadas pelas coxilhas de Itapororó, sem que depois nada lembrasse do acontecido.

Quando visitava Porto Alegre, Praxedes frequentava o Centro Espírita André Luiz. E foi lá que curou uma enfermidade nos olhos, depois de perder as esperanças na medicina dos homens. Submetido a três cirurgias espiritas, recuperou a totalidade da visão.

Em 27 de dezembro de 1955 ingressou como aprendiz maçom na Loja Maçônica Rocha Negra Nº 1, levado pelas mãos de Luiz Loureiro da Silva, o seu “Lulu”.

Praxedes contou ao seu entrevistador e autor do livro que mostra detalhes da sua vida, que na noite em que recebeu o convite de seu “Lulu”, ouviu em seu quarto a voz de seu irmão Rufino, soprando ao seu ouvido: “Te junta com os maçons, te junta a eles”.

E não se arrependeu. Disse que encontrou lá dentro uma nova família, onde é praticada a caridade. Confessou que antes de ingressar na Maçonaria, sua vida não tinha um objetivo definido. E lá encontrou um mundo diferente, desprendido dos falsos valores materiais e das aparências.

Mesmo como membro da Maçonaria, Praxedes continuou fiel a Igreja Episcopal. Tanto é verdade, que em 1968 atendeu uma solicitação do pároco João Assis Reis, para que fosse ser diretor da “Cidade dos Meninos”, instituição que cuidava de menores carentes, em Santana do Livramento.

Para sua surpresa encontrou um lugar que necessitava de grandes cuidados. Prédio sujo, grama alta, vidros quebrados, meninos quase maltrapilhos, com roupas rasgadas e alguns rebeldes ao extremo.

Reconhecido o líder do grupo, Praxedes e dona Orfila, encontraram uma forma delicada de acabar com sua rebeldia. O convidaram para jantar, e o garoto aceitou. Foi recebido como nunca antes na vida. Dona Orfila deu-lhe um beijo de boas vidas e Praxedes o abraçou.

O menino contou parte de sua vida. Que viera de família miserável, que não conhecera o pai. Viveu nas ruas até ser recolhido a “Cidade dos Meninos”.

E Praxedes, com inteligência, disse-lhe que pretendia fazer grandes melhorias na casa, providenciar banho quente para todos, roupa limpa, calçados para aquecê-los no inverno e também, que aprendessem uma profissão.

O menino concordou em ajudar e cumpriu sua promessa. Com os ânimos acalmados, Praxedes pode levar a cabo sua missão. Conseguiu ajuda da “Loja Maçônica Caridade Santanense Número 2”. E meses depois a “Cidade dos Meninos” era um bom exemplo.

E introduziu no local uma Escola de Alfaiates. E deu certo, tanto que em pouco tempo a instituição fabricava uniformes para a Prefeitura Municipal, garantindo uma renda extra.

E Praxedes sempre querendo aprender mais, fez um curso de Enfermagem num hospital local, para poder atender a saúde dos meninos, agora trabalhadores e estudiosos.

Em 1973, depois de terem ficado quatro longos anos fora, Praxedes e dona Orfila voltaram para São Gabriel, com a certeza do dever cumprido.

O reconhecimento ao trabalho de Praxedes foi feito pelo jornal “A Platéia”, de Livramento, em sua edição de 22 de setembro de 1968, em que destacou:

“Durante o tempo em que aqui esteve o casal participou da recuperação de vários menores delinquentes. E o ingrediente principal usado nessa recuperação, sem dúvida, foi o amor que Praxedes e a esposa, dona Orfila, nutriam pelos meninos”.

De volta a São Gabriel e a Loja Maçônica Rocha Negra Número 1, Praxedes foi designado “Chanceler”, aquele que timbra e sela os documentos maçônicos, faz controle dos livros de frequência de irmãos e visitantes, lembra datas de aniversários, etc. Exerceu o cargo até a sua morte.

Em 2002, quando das comemorações dos 95 anos do velho maçom, o poeta gabrielense José Gaspar Machado da Silva fez uma homenagem a Praxedes, com uma poesia bastante extensa, que diz em um de seus versos:

Praxedes da Silva Santos/Me vende um pouco de amor/Que quero dar por valor/De ouro ou libra esterlina/Para gritar nas esquinas/Como quem chama um sinuelo/em referência e modelo/Toda a estância se ilumina.

Alguns ex-veneráveis da Rocha Negra exaltaram a pessoa de Praxedes:

Adair Macedo Rodrigues: “Como ser humano uma figura fantástica. Como maçom um exemplo. Um irmão de um trabalho incansável, exemplar, no qual nós todos sempre nos espelhamos”.

Arthur Francisco de Souza Caldas: “O irmão Praxedes foi um baluarte dentro da Loja e almejamos que os novos irmãos possam mirar-se neste espelho”.

Dalton Rodrigues Bicca: “O que eu gostaria de dizer sobre o irmão Praxedes é que todos os veneráveis mestres que o tiveram como Chanceler foram privilegiados”.

Dilmar Valls Machado: “O irmão Praxedes, quando entrei, quando tive a honra de ser iniciado na Rocha Negra, já começou, maçônicamente, a ser um espelho na minha conduta dentro da Ordem”.

Ilo Batista da Silva: “O Praxedes, pra nós maçons, foi um símbolo. Para nós que convivemos com ele, sempre o enxergamos como um homem de bem, do bem e para o bem”.

Francisco Suchy: ”O irmão Praxedes foi um exemplo de vida”.

Itamar Fernando da Cruz Jobim: “Um homem inatacável e correto, que cumpriu fielmente os seus deveres com elegância total”.

João Francisco Coelho dos Santos: “Assim, correndo o risco de não saber melhor homenagear este Irmão, defino-o apenas como símbolo exemplar do que tem de ser um homem Maçom”.

João Vagner Albert Nunes: “Há duas maneiras de conhecermos uma pessoa: do que a gente ouve falar e aquilo que a gente testemunha. E essas duas coisas se encontram positivamente. O Praxedes, como todo Maçom, não é uma pessoa que fala de si. Tem as virtudes maçônicas e as experiências que ele acumulou ao longo da vida”.

José Fernandes Chagas de Moura: “Falar sobre o irmão Praxedes é fácil. Difícil é sintetizar em poucas palavras toda a vida desse homem que considero iluminado”.

José Gaspar Machado da Silva: “Do Praxedes eu posso falar muita coisa, pois sempre me aproximei dele para conversas interessantes e, sobretudo, receber lições de vida”.

Júlio Adolfo Pires Garcia: “Um dos irmãos mais queridos que a Rocha Negra teve foi o irmão Praxedes. Foi um grande benemérito, pois sendo alfaiate, fazia roupas também para as pessoas que não tinham dinheiro”.

Layr Contino Nuñez: O Praxedes sempre foi um exemplo de dignidade, de respeito, de cumprimento das suas obrigações e dos seus deveres para com a família e para a Maçonaria. Foi um exemplo para todos nós”.

Luiz Deodoro Barcellos: “Falar do irmão Praxedes é a coisa mais linda que a gente pode expressar. Foi uma pessoa iluminada e protegida pelas forças astrais do grande Universo. E nos deu, sempre, aulas de sabedoria e de ensinamentos”.

Nelson Sebastião da Silva Lopes: “O que posso dizer sobre o irmão Praxedes, sem medo de errar, é que ele fez parte de um grupo seleto de pessoas que encarnam na terra com a missão de servir ao seu semelhante”.

Romeu Maciel de Oliveira: “Abnegação, cordialidade, disciplina e desejo de bem servir, são qualidades primordiais para o exercício de qualquer tarefa, seja em qual instituição for. O irmão Praxedes reuniu estas e outras qualidades, tinha o perfil do homem extraordinário que sabia ouvir, falar o essencial e guardar uma fé inquebrantável em seu coração”.

Ubirajara da Silva Duro: “Praxedes da Silva Santos foi um símbolo dentro da Maçonaria. Como cultuamos os nossos símbolos, ele jamais será esquecido”.

Rosalvo Wayhs: “Cumpridor de suas obrigações, pontual na sua disciplina de horários, ocupou por muitos anos o cargo de irmão Chanceler da Rocha Negra Número 1, com 100% de frequência”.

Praxedes era dono de um espirito alegre e brincalhão. Gostava de contar piadas e espantava o cansaço nas longas viagens, com suas costumeiras brincadeiras.

Uma pergunta que as pessoas sempre lhe faziam, principalmente os visitantes de outras cidades: “Qual o segredo para sua longevidade?”. E ele sempre respondia: “É que não tenho onde cair morto”.

Praxedes faleceu em São Gabriel, no dia 20 de junho de 2009, com a avançada idade de 102 anos. Hoje empresta seu nome a novel “Loja Praxedes da Silva Santos Nº 256”, de Santa Margarida do Sul. (Adaptação do livro “Praxedes o Cavaleiro do Tempo”, de Marco Medina: Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS)).



quarta-feira, 6 de julho de 2016

A cultura da cidade agradece

O Conservatório Isa Meyer, de São Gabriel, recebeu no dia 5 de maio deste ano, duas valiosas doações: de dona Lýgia Brenner Teixeira, um quadro com foto de Isa Meyer e suas alunas de piano, datado do ano de 1937. E de Paula Marques Gonçalves, um piano alemão, fabricado em Hamburgo, no ano de 1854, herança de sua bisavó, a saudosa benemérita dona Zuleika da Silveira Gonçalves.

Estiveram presentes ao ato, realizado no “Centro Cultural Sobrado da Praça”, representantes de quatro gerações das famílias Brenner e Gonçalves: Lucia Otília Brenner Gonçalves, filha de dona Zuleika, Lucia Helena Brenner Gonçalves , neta, Paula Marques Gonçalves, bisneta e Maria Paula Gonçalves de Gonçalves, tataraneta. E ainda Rita Mariza Brenner Teixeira Gonçalves, filha de dona Lygia Brenner Teixeira.

Todos foram recepcionados pela coordenadora do “Centro de Cultura Sobrado da Praça”, Mara Ramos Rangel. Também marcaram presença o secretário de Turismo, Cultura, Desporto e Lazer, João Carlos Bisogno e o diretor do Conservatório de Música Isa Meyer, Evandro Marques.

O prefeito Roque Montagner destacou a importância do evento, dizendo que  se tratava de  um dia marcante, relevante, histórico e cultural para toda a comunidade gabrielense.

No encerramento, foram assinados os “Termos de Doação” do quadro e do piano pelas famílias e a Prefeitura Municipal. Na ocasião, a coordenadora do “Centro de Cultura Sobrado da Praça”, Mara Ramos Rangel, o prefeito Roque e o secretário Bisogno fizeram a entrega de botões de rosas para as senhoras Lygia Brenner Teixeira, Paula Marques Gonçalves e Lucia Helena Brenner Gonçalves.

Também houve a execução de músicas ao piano, pela aluna Thaís Garcia Miranda, do Conservatório de Música Isa Meyer. (Fotos: Centro de Cultura Sobrado da Praça)

O piano que pertenceu a dona Zuleika Gonçalves.

Placa do piano.

Foto da professora Isa Meyer e suas alunas, datada de 1937.

Dona Lýgia Brenner Reixeira e o prefeito Roque Montagner.

Foto de Isa Meyer e suas alunas, tem importante valor histórico.

Praça Tunuca Silveira

Também conhecida como "Pracinha dos Amores", a Praça Tunuca Silveira é um dos mais belos locais de lazer da comunidade gabrielense. Localizada na região central da cidade, o local conta com anfiteatro, restaurante panorâmico e quadra de esportes. As fotos abaixo são do facebook de Mara Rangel.