terça-feira, 13 de junho de 2017

*Fronteira Agreste, um livro polêmico

Boa Noite Sr. Nilo Dias. Meu nome é Rodrigo Lucca, sou gabrielense morando fora de minha querida terra há bastante tempo, assim como vários conterrâneos que por diversos motivos deixaram nosso município.

Mesmo morando longe de São Gabriel há muitos anos, tenho o hábito de ler sobre o que está acontecendo em nossa cidade, pelos meios de comunicação que estão disponíveis na Internet.
 Acompanho seus textos periodicamente, admiro seus estudos e seu empenho em resgatar a história não só do nosso município, mas de todo nosso Estado.

Em sua postagem do dia 10/06/2017, intitulada de “Fronteira Agreste: Um Livro Polêmico”, no primeiro paragrafo tive uma grata surpresa, o senhor escrevia sobre um saudoso amigo o Ênio Lucca, e logo em seguida falava nos seus também amigos Flávio, Zé e Pico. Pois bem, sou o neto mais velho do seu Ênio, consequentemente sobrinho dos demais citados em seu texto.

 Lendo suas palavras sobre ele, senti uma nostalgia enorme em recordá-lo da maneira na qual o senhor descreveu meu querido avô.

Remeteu em minha lembrança a figura de um homem muito bem informado para sua época, nunca abria mão da leitura diária dos seus jornais, uma pessoa que possuía diversas habilidades, era marceneiro e carpinteiro, a mãe falava na minha adolescência que nos carnavais era ele quem ajudava a construir e montar os carros alegóricos dos clubes para os desfiles de suas rainhas.

Pedreiro, juntamente com seus filhos ergueu sua casa na rua Major Faeco, no Bairro Siqueira. Eletricista, ofício este repassado aos filhos Pico e Flávio, que hoje mantem uma oficina que durante muitos anos ficava na Rua General Marques, quase na esquina do Distribuidor de Bebidas Bergamo, que inclusive são seus parentes.

Até onde sei, árbitro auxiliar de futebol, o famoso bandeirinha ele também foi, enfim era um cidadão versátil (rsrs).

Era também um apaixonado pela pesca. É desta época que tenho a lembrança do senhor como um grande parceiro do meu avô e dos meus tios. Se não me falha e memória o senhor também participou da diretoria da Sociedade Esportiva e Recreativa São Gabriel, juntamente com meu tio Zé Lucca e do saudoso Domingos Rivas.

Durante a leitura de seu artigo, fiquei imaginando meu avô nos dias de hoje, com a quantidade de informação que possuímos e a velocidade com que tudo acontece. Fico pensando que ele em seu “Brizolismo”, iria ver o quanto estava correto este senhor, que em minha humilde opinião foi um dos maiores injustiçados de nossa história, quando não teve a oportunidade de governar esse gigante e hoje infelizmente desgovernado País.

Se bem que, pensando melhor, os culpados fomos nós, povo, que não sei por quais motivos não lhe concedemos essa oportunidade.

Trabalho em uma instituição de ensino e tenho certeza que se meu avô estivesse entre nós neste momento conturbado, com tanta falta de caráter, de princípios éticos e políticos, com tamanha carência de verdadeiras lideranças e total descrédito em nossos representantes, citaria alguma frase do senhor Leonel Brizola.

Por fim, agradeço as palavras sobre nossa família, especialmente pela lembrança de meu avô, referência fundamental para todos nós que tivemos a oportunidade de conviver com ele. Verdadeiras amizades estão cada vez mais escassas.

E me sinto muito orgulhoso em saber que meu avô foi um grande amigo seu. Desejo-lhe muitos e muitos anos de vida, para que possa continuar nos contando mais de nossas origens, assim nos fazendo entender um pouco melhor nossa história.

Abaixo deixo um pequeno trecho de Leonel Brizola, talvez esse seja um dos tantos que seu Ênio iria nos lembrar:

“A educação é o único caminho para emancipar o homem. Desenvolvimento sem educação é criação de riquezas apenas para alguns privilegiados. A Violência é fruto da falta de educação. Venho e volto do campo e os bois são os mesmos: não mudam de caráter. Já os homens...“

Vida longa Sr. Nilo Dias

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma bela recordação


O amigo doutor Hermes Marengo Filho, é gremista. O que fazer? Cada um gosta de sofrer ao seu modo. Mas sem dúvida essa foto sua e da esposa, dona Eli, ao lado do grande craque gremista, o uruguaio, Ancheta, que também é excelente cantor, é uma linda recordação.

Ele só não foi o melhor zagueiro do Estado, poque teve o azar de ver o chileno Figueroa, até hoje o melhor do mundo na posição, brilhar com a camisa colorada.

A foto é de cinco anos atrás, foi tirada no "CTG Querência Xucra", quando de uma festa do Consulado gremista. O amigo, advogado e funcionário da extinta Caixa Econômica Estadual, Paulo Valle, era o Consul do Grêmio, em São Gabriel.

domingo, 11 de junho de 2017

Fronteira Agreste: um livro polêmico

Certa vez eu estava na Mercearia do Djalma Munhós, no alto da Sociedade XV de Novembro. E como sempre, encontrei por lá o saudoso amigo Ênio Lucca, pai dos também amigos Flávio, Zé e Pico. Ele sabia um pouco de tudo, era um intelectual. Se provocado, dissertava sobre qualquer tema, de futebol a política, passando por história e geografia.

Muitos foram os bons papos batidos lá na mercearia, também com a presença do tenente reformado do Exército, Alci Dutra e eventualmente do ex-vereador Roque Oscar Hermes. Pena que se tratava de gremistas.

Certa vez seu Ênio me falou que tinha em casa o livro “Fronteira Agreste”, que retratava situações vivenciadas no meio rural de São Gabriel envolvendo uma conhecida família. Apesar de ele ter me oferecido por empréstimo, o tempo acabou passando e não vi e nem li o livro.

Passado muitos anos, e já morando em Brasília, encontrei “Fronteira Agreste” na Internet e acabei comprando, como tenho feito com outras obras que me chamaram a atenção.

Casos de “São Gabriel na história”, de Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva; “Aspectos Gerais de São Gabriel”, de Fortunato Pimentel; “A Batalha de Caiboaté”, de Ptolomeu Assis Brasil e a obra de Carlos Reverbel, que estou adquirindo aos poucos.

Já tenho: “O Gaúcho”, “Diário de Cecília Assis Brasil”, “Um capitão da Guarda Nacional” e “Pedras Altas”. Mas pretendo comprar todos os livros do autor, se for possível. Até em homenagem ao meu amigo doutor João Alfredo Reverbel Bento Pereira, primo do grande escritor.

E para conhecer melhor a obra de Ivan Pedro de Martins, também adquiri “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, que são a continuidade de “Fronteira Agreste”, que entendo ser um livro que fala de paisagens, cenas e tipos de uma estância gaúcha da fronteira.

Tradicionalmente ligado ao chamado “Romance de 30” pelos seus estudiosos, contudo, Ivan Pedro não seguiu uma das principais lições daquele grupo de escritores: não trabalhou ele com heróis individuais ou mesmo anti-heróis, se considerarmos o Fabiano, de “Vidas Secas”, dentre outros.

Preferiu conjuntos humanos e sociais que traduzissem, exatamente pelo aspecto coletivizado, as modificações sociais em emergência.

Assim sendo, “Fronteira Agreste” analisa o espaço da estância, enquanto “Caminhos do Sul” busca o espaço do corredor. E, enfim, “Casas Acorelhadas”, fala da cidade e de seus variados espaços representativos, o boliche popular, o bar das elites, o clube social, etc.

Fronteira agreste, publicado em 1944, não deixa de prestar tributo à tradição de lutas da campanha, mas traz bem visíveis sinais de outro momento histórico, pois Ivan Pedro de Martins evoca neste romance os maiores conflitos entre facções rivais ocorridos em solo sul-riograndense:

A Revolução Federalista de 1893 e a revolução de 1923 que já refletia desdobramentos dos primeiros anos da República. No entrecruzar das vozes daqueles que relatam o que lhes ficara na memória, registram-se as gestas desse período histórico.

Sabemos pelo narrador que “as coxilhas estão cheias de histórias e de sangue. Ali perto, fica o Caverá, a serra, com os grotões, onde se metia Honório Lemes quando ia mal”.

OPINIÕES SOBRE IVAN PEDRO

O escritor Lauro Dieckmann, em seu blog “Memória do Escrevinhador”, escreveu o seguinte sobre Ivan Pedro de Martins:

“Na verdade ele era mineiro. Andou pela Campanha no fim da primeira metade do século passado. A exemplo de outro mineiro, Guilhermino César, encantou-se com o que viu”.

O autor e dramaturgo, Guilherme Figueiredo, que era irmão do ex-presidente general João Baptista Figueiredo disse que Ivan Pedro de Martins, com a esplendida obra ”Fronteira Agreste”, colocou pela primeira vez na ficção do campo sulino esta coisa terrível e verdadeira: a vida que é preciso corrigir, a realidade que se deve socorrer.

Olívio Dutra, respeitado político gaúcho escreveu: “Dentre as leituras que me causaram impacto pela reflexão que provocou junto com a fruição prazerosa de seu universo ficcional, lembro-me de uma, muito singular, porque trata do mundo e da cultura gaúcha. E foi um livro escrito por um mineiro. Trata-se de Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

De repente, os personagens de Fronteira agreste eram parentes próximos do povo do qual eu fazia parte ali na periferia de São Luiz Gonzaga. Gente que, como meus pais, agregados num fundo-de-campo, aos poucos foram vindo para a cidade em busca de um ganho que não mais encontravam como peões nas fazendas. Seus relatos e causos passaram a ter um outro significado para mim.”

O trecho que segue é transcrito do livro “Caminhos do Sul”, edição da Livraria do Globo (1946), quando ainda era da família Bertaso, e descreve um temporal em pleno campo, coisa muito comum por estes pagos.

“O ar estava pesado. Tio Virgílio pensava que o melhor era por a carga no boliche e esperar que a tempestade passasse. A tormenta se aproximava. O sol era um tição vermelho no borralho das nuvens cinzentas.

Esfiapadas, as nuvens brancas saíam como lã de novelo das bandas do Sul e formavam uma cola de pomba no céu esbranquiçado. Os cachorros andavam de língua pendurada, sentados debaixo dos cinamomos, pois não aguentavam ficar deitados.

“Vai ser gorda”. Disse tio Virgílio. Os outros concordaram.

O dia morria sufocado de eletricidade e o céu parecia inverter a abóbada em nuvens cada vez mais negras e mais próximas da terra, espremendo o ar úmido que oprimia os homens. Já era quase noite quando o ar parou completamente, como se esvaziasse o mundo de ruídos e um vácuo tenebroso ocupasse tudo, apertando os ouvidos e fazendo latejar as fontes.

Os homens se olharam e Laudelino riu. O barulho da risada repercutiu pelas coxilhas silenciosas e um trovão profundo a terminou, acompanhando o chispaço que cruzou de uma nuvem a outra sobre o boliche.

“Aí vem ela”.

E se desencadeou uma sarabanda de raios e trovões, cortando o ar em todas as direções, unindo o céu e a terra em ziguezagues ofuscantes que carbonizavam árvores ou estatelavam vacas e ovelhas.

A chuva começou com um granizo grosso como ovo de quero-quero, branqueando o campo com as pedras brilhantes, que saltavam ao golpear o chão, depois se despencou em cataratas, imensos cordões de água, unidos e parelhos a ponto de mais semelhar o derramar gigante do mar que o esfiapar de nuvens prenhes de umidade.

Em poucos minutos estava o corredor transformado em regato barulhento e o pátio do boliche em lagoa que escorria pelos valos naturais em direção do “espantoso”. A noite que chegava se apressou em ficar negra e no escuro soava aquele chuá sem fim sobre as santa-fés do rancho do Laudelino.

Os trastes estavam dentro do galpão, os bois no potreiro e a carreta não era a primeira tormenta que aguentava. Ele estava sequinho no boliche”.

O CAMPEIRO TIO REMIGIO

A exemplo de Blau Nunes, de João Simões Lopes Neto, também Ivan Pedro encontra e centraliza sua atenção em um antigo campeiro, “Tio Remígio”.

Em “Casas Acolheradas”, “Tio Remígio” é o narrador e o modelo referencial tomado pelo escritor para desenvolver sua obra. “Tio Remígio”, ao contrário de Blau Nunes que é congelado na obra de Simões Lopes, tem retratada sua vida na velhice em “Fronteira Agreste”, embora sob certa sobrevivência tranquila, a sombra da estância.

Depois é que foi examinado em processos anteriores ou paralelos de afastamento do centro das atenções, dando lugar a novos tipos e personagens, como ocorre em “Caminhos do Sul”, situado temporalmente antes da narrativa de “Fronteira Agreste”.

A juventude de “Remígio”, levando-o a compartilhar dos corredores com outros personagens, até o conhecimento dos desdobramentos da decadência vivida pela gauchada em “Casas Acolheradas”.

Observe-se que a “Tio Remígio”, como principal personagem referencial de “Fronteira Agreste”, se sucedem ou somam Maneco, peão exemplar, Geraldo, um negro capão, seu Guedes, peão marginalizado que anuncia a consciência em formação da rebeldia do gaúcho a pé e Miguelina, desejada pelos irmãos, filhos do dono da estância.

Além de Valderedo, este sim, retrato do antigo gaúcho épico, mas que, por isso mesmo, acaba eliminado violentamente, à traição pelo ronda Armando, justamente após aceitar sua proletarização através do emprego em uma estância.

O episódio se completa no capítulo seguinte, quando “Remígio” cede o principal lugar às figuras múltiplas de Chico Fonseca, que lhe arrebata a mulata “Candoca”, ao carreteiro João Cardoso, ao platino Manuel Garcia, outra figura rebelde assassinada a mando do dono da estância e ao negro “Rosica”, ladrão de gado que se acostumou a tal prática para sobreviver.

E de tal forma, que, mesmo quando encontra abrigo e garantia de alimentação, não deixa de roubar, porque, como afirmava: “roubado é mió”.

O painel continua com a figura do velho Ambrósio, contrabandista heroico, ao mesmo tempo em que novos tipos já se anunciam, à maneira de “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, nas figuras do italiano Giuseppe, ou dos mascates Salim e Jamil. Mais do que tipos exóticos, anunciadores de novas etnias e novas ocupações a se fazerem presentes no chão do Rio Grande.

Enfim, em “Casas Acolheradas”, onde “Tio Remígio” ressurge esporadicamente, aqui e ali, e onde nas observações das figuras que desenvolvem as ações principais, ganham espaço as personagens negativas de Pedro Vinhas, Vaz, coronel Pontes, Olguinha, Mariazinha, etc.

Aparecem os ativistas sindicais urbanos, como José, Américo, Raimundo e até mesmo um estancieiro moderno, como é o caso do Pituca Gomes, capaz de entender a importância da industrialização, enfrentando, assim, a partir da terra natal, os avanços das multinacionais simbolizados pelos frigoríficos. Ou as ideologias retrógradas, como o nazi-fascismo e o caipira integralismo.

Sei que Ivan Pedro foi um escritor polêmico, que adquiriu uma legião de inimigos. Não vou fazer nenhum tipo de comentário favorável a respeito do que ele escreveu, nem contra. Até porque acho que um livro sempre retrata o pensamento do autor.

ESTÂNCIA COM NOME FICTÍCIO

Em “Fronteira Agreste” todos os personagens tinham nomes supostos. O doutor Camilo Mércio era o Coronel Tavares. Murilo, filho do doutor Camilo era Tonico no livro. E a “Estância Santa Cecília”, era “Estância Santa Eulália”.

A “Estância Santa Cecília” é uma das mais antigas do nosso município, à margem do rio Santa Maria, junto ao Passo de São Borja, no distrito de Batovi, hoje pertencente a Família Veríssimo.

O nome foi uma homenagem a Cecília Menna Barreto, filha de João Propicio Menna Barreto, Barão de São Gabriel. Pertenceu ao doutor Camilo Mércio, médico humanitário e chefe revolucionário nos anos 1930.

Mais tarde foi vendida ao senhor Clarindo Verissimo da Fonseca. Hoje, metade da estância pertence a Carlos Alberto Verissimo da Fonseca. A outra metade, denominada “Santa Adriana”, pertence a Hebe, casada com Milton Viera da Costa.

A antiga sede da estância foi desativada, tendo sido construída outra próxima do local. As duas propriedades dedicam-se à pecuária e a agricultura, utilizando moderna tecnologia.

Sei também que em “Fronteira Agreste” Ivan Pedro abordou temas enigmáticos, que até hoje são comentados pelos mais antigos.

É inegável que ele, mesmo não sendo natural do Rio Grande do Sul, tinha um conhecimento enorme de nossas coisas. Vejam só a profundidade e beleza deste trecho do livro:

Santa Eulália dorme. O gado espalhado pelo campo não faz ruído. À meia-noite, dizem os gaúchos, as reses se levantam, mugem, deitam do outro lado e dormem esperando a manhã. Já os cavalos são diferentes; os garanhões pastoreiam suas manadas e, no retouço noturno, trocam coices, mordidas e relinchos surdos, ou gemidos, devido aos golpes.

As éguas não se entregam de primeira mão. As ovelhas são silenciosas e o rebanho se move no campo como uma espessa nuvem branca, arrastando-se no chão; só se ouvem balidos, se um estranho aparece.

A noite nas coxilhas e banhados é dum silêncio profundo, e o alerta estridente dos quero-queros ou o sinal de alarme, grave, dos ta-hans, se perde no vazio da noite como o barulho de pedra caindo num poço: sem ressonâncias.

Só o minuano assobia raivoso, levantando a geada que cai e levando-a pelos ares como uma bofetada de gelo que racha os beiços, dói nos olhos e amarela os brotos novos das plantas. Se não fosse o vento, os campos iriam amanhecer cobertos de uma geada de renguear cusco e o frio agora penetra por todos os lados como um castigo.

QUESTÕES SOCIAIS

“Fronteira Agreste” mexe com questões sociais envolvendo os peões campeiros, que tinham salário fixo, normalmente vivendo nos galpões das estâncias, mantendo certa independência frente ao patrão.

Os mesmos tinham mobilidade e facilmente mudavam de emprego, por divergências, querendo acompanhar a tropeada, “embora submetidos ao comando dos estancieiros que os recrutavam para as batalhas em conflitos civis ou guerras externas”.

A morada desses peões em galpões é retratada por Ivan Pedro Martins, quando coloca que o galpão do fogo não é tão silencioso. Ali dormem os peões, aproveitando o calor da roda. É um rancho de torrão com paredes de uns dois metros de altura, coberto de santa-fé em quincha de escada.

“O vento entra por todos os lados fazendo tinir os arames e latas encontrados no caminho. Aquilo é a casa dos peões, se se pode chamar de casa um rancho sem portas onde moram o fogo, a fumaça, o vento e a poeira.

No canto escuro, onde não há brechas, está no chão o aro de ferro de uma velha roda de carreta – é a roda do fogo; dentro dela uma fogueirinha de tocos pequenos é o fogo, e, pendurada em um arame retorcido que pende de um caibro, fica a chaleira de mate.

Não há mais fogo nem se vê a chaleira. No meio do galpão fica um poste que serve de escora à cumeeira e ao caibro onde se penduram a lata d’água e os arreios. Encostadas à parede fechada, atrás da roda do fogo, ficam as camas da peonada. São de dois tipos; ou quatros estacas de forquilha, sustentando tábuas de esquilar, ou os arreios no chão mesmo. A arrumação, em cima das tábuas ou no chão, é a mesma.

QUEM ERA IVAN PEDRO

Ivan Pedro de Martins foi presidente nacional da juventude da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Após a Insurreição Comunista de novembro, tornou-se clandestino, sendo abrigado em uma fazenda de um amigo de seu pai, no interior do Rio Grande do Sul, que mais tarde se tornou seu sogro.

Dali surgiu a inspiração de seu romance, apresentando a estrutura socialmente injusta de uma fazenda de pecuária extensiva na região Oeste do Rio Grande do Sul.

O livro acabou sendo julgado ofensivo à moral e aos bons costumes da época, pelo diretor do Departamento Estadual de Imprensa, o artista-plástico Ângelo Guido, que expediu ordens para que as edições de “Fronteira Agreste” fossem apreendidas e proibida sua venda.

Em meio à discussão travada nos jornais entre os partidários e os contrários à censura, a intelectual Lila Ripoll, poeta de Quarai, se posicionou contra a apreensão da obra do escritor e militante comunista Ivan Pedro de Martins, que no entender dela não passava de um romance social sobre a vida na campanha gaúcha.

Além de “Fronteira Agreste”, “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, Ivan Pedro ainda escreveu “Do campo e da cidade”, “A flecha e o alvo – A Intentona de 1935”, “Um amor depois do outro”, “Trilogia da campanha – O Rio Grande do Sul invisível”, “O amanhã e hoje”, “Introdução a economia brasileira”, “Bahia” e “Interno “.

MISTÉRIOS DE UM CASAMENTO

O casamento de Ivan Pedro com a filha do doutor Camilo Mércio não se sabe como começou e muito menos como acabou. Depois que saiu do Sul, Ivan Pedro foi casado com a jornalista paulista e escritora Elsie Lessa, falecida aos 86 anos em 17 de maio de 2000, em “Cascaes”, uma vila litorânea de Portugal. Ela era neta do escritor e gramático Júlio Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras.

Elsie Lessa escreveu e publicou, sem interrupção, no jornal “O Globo”, de 1952 a 2000. Nenhum outro escritor teve um espaço por tanto tempo nas páginas do jornal.

Na juventude, embora natural de São Paulo, foi considerada uma das duas mais belas mulheres do Rio de Janeiro. A outra era Adalgisa Nery.

Se não observarmos outras questões, realmente “Fronteira Agreste” poderia ser visto assim, como um livro retratando o dia-a-dia de uma propriedade rural no Sul.

Poucos escritores, talvez só Alcides Maia, Simões Lopes, Érico Verissimo, Carlos Reverbel, Pedro Wayne, Aureliano de Figueiredo Pinto e Barbosa Lessa, puderam descrever tão bem o que era na verdade o Rio Grande do Sul rural. Sem enveredar, é claro, por possíveis distorções do autor as pessoas retratadas em sua obra.

Li o livro com atenção e sei que ele envolve pessoas de famílias que ainda hoje residem em São Gabriel. Por razões óbvias não cito nomes. Fora isso existem trechos lindos como este:

Na estância toda só se ouve o assobio do Minuano, que chia entre as folhas dos eucaliptos, torcendo-lhes os galhos, quebrando ramos secos e seguindo sua rota triste, contando, por onde passa, as histórias tenebrosas das geleiras dos Andes e as correrias pelos pampas do Sul.

A lua rola no alto engolindo as estrelas, parece que vai tapando os buracos na cuia velha do céu. Algum ta-han desperto por barulho desconhecido largou seu chamado sério de atenção e os quero-queros bochincheiros desandaram no berreiro nervoso de seus gritos.

Depois tudo volta à calma, até a cavalhada parece adormecida, e fica cantando no silêncio da noite o assobio raivoso do Minuano que leva a bofetada de gelo da geada por cima das árvores e dos homens. É o modo de respirar dessas noites nas coxilhas.

E segue. Santa Eulália é grande, tem galpão de material com a garagem para o auto, a aranha e a carroça, varanda de esquila, quarto de guardar milho e aveia, quarto de hóspedes e os quartos onde dormem o chofer, o negro velho “Tio Remígio” e “Manequinho”, o cozinheiro.

“Seu Duca”, sota da estância, dorme com Geraldo, o peão caseiro, no quarto que dá para a varanda da esquila e onde se guarda a carroça. Entre os dois galpões fica o aramado que cerca as casas e a borboleta de passagem.

Entre a casa grande e os galpões, deixando um pátio grande no meio, é a casa do capataz, que consta de um quarto assoalhado e uma sala de terra batida; do outro lado estão a despensa e a cozinha da peonada. Atrás, o forno do pão e o galinheiro, mais adiante, os chiqueiros vazios.

A OPINIÃO DO HISTORIADOR

Mais uma vez me vali do amigo e historiador Osório Santana Figueiredo, que tem uma visão sólida a respeito do livro “Fronteira Agreste” e de seu autor, Ivan Pedro de Martins.

Ele confirma que Ivan já morreu. Conta que se tratava de um intelectual comunista. Perseguido pela policia refugiou-se na estância Santa Cecília, do seu sogro, doutor Camilo Mércio, em Batovi. Embora a estância ficasse nos mesmos pagos do historiador, ele não o conheceu pessoalmente.

Na concepção de Osório o livro “Fronteira Agreste” é uma obra de injustiça. Os seus personagens pobres, muitos que ajudaram Ivan a se esconder nos matos, foram covardemente aleivados e arrasados por ele. Ainda existe na cidade gente descendente desses injustiçados.

Em consequência teve de fugir para Porto Alegre e depois para a França, porque havia muitas pessoas dispostas a matá-lo por ser difamador das criaturas humildes. Osório conviveu com esse povo, e quando leu o livro ficou com pena dessas pessoas e muita raiva do escritor.

Não podia compreender como que uma criatura poderia ter sido tão má. Desde essa ocasião, por ver tamanha injustiça, o nosso historiador pegou uma aversão pelo comunismo. O sogro e os cunhados de Ivan Pedro aparecem no livro com nomes supostos e as criaturas pobres que ali viviam, eram identificadas por seus próprios nomes.

Sabe-se que um dos protetores de Ivan, na época, foi o saudoso amigo, militar reformado e vereador, Lázaro Xarão, que sofreu na carne a ingratidão.

Ivan publicou uma notícia falsa envolvendo o pai de seu Lázaro, que não vale a pena repetir. Em consequência, o Lázaro buscou retratação, mas o escritor já havia fugido para longe de São Gabriel. (Pesquisa: Nilo Dias. Matéria publicada no jornal “O Fato”, de São Gabriel-RS, edição de 9 de Junho de 2017)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Armazém Rangel: o antigo que resiste:

O Armazém do seu Ari Rangel fica na rua Barão de São Gabriel, antes dos trilhos. É a casa comercial mais antiga de São Gabriel, em atividade há quase 70 anos.

Ele está com 92 anos e muita vitalidade para trabalhar. O armazém tem de tudo, a variedade é imensa. A Casa não tem letreiros, nem precisa. Todos sabem que ali está o seu Ari Rangel, figura carismática de nossa cidade.

A freguesia é fiel. O atendimento cortes é marca da casa. Armazém Rangel, um lugar de muita história. Muito frequentei essa casa comercial, nos bons tempos que morei em São Gabriel. (Fotos e histórico de Rhê Cor, publicado na página de Beraldo Lopes Figueiredo, Facebook)







sexta-feira, 2 de junho de 2017

Lembrando um velho gaúcho

Essa foto foi postada pelo amigo Júlio César Ferreira, em sua página no Facebook. Lembrança de seu avô materno, com certeza um gaúcho autentico. Bonita lembrança.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Antigas farmácias de São Gabriel

O amigo Beraldo Lopes Figueiredo, filho do consagrado historiador gabrielense, Osório Santana Figueiredo, nos brinda em sua página no Facebook, com antigas fotos de São Gabriel, retiradas dos arquivos de seu pai, como essas abaixo, de farmácias que existiram na cidade.

Farmácia Brasil, no ano de 1935. Ficava na esquina das ruias João Manoel e Barão de São Gabriel, frente a também antiga Fábrica Aimoré. (Foto: Doação de Rui Barros)


Prédio construido em 1917, onde funcionou uma das primeiras farmácias da cidade. Era conhecida como a "Farmácia do Doutor Allan."

Anos 70. Farmácia Central, conhecida como "Farmácia do Argeu", figura popular na cidade. Atendia as pessoas sem nada cobrar, pois tinha grande conhecimento sobre a Medicina. Fazia fórmulas de remédios.

Foto de 1940. Farmácia Central, ficava na Praça Doutor Fernando Abbott. Foi a primeira farmácia do Argeu, próximo a Loja Rocha Negra Número 1.

Foto de 1940. Farmácia Confiança, que ficva frente o Banco Pelotense e Clube Comercial, onde o doutor Fernando Abbott teve seu consultório por muitos anos. (Doação: Rui Barros)

Ano 1940. Farmácia Toledo, ficava na esquina das ruas General João Manoel e Coronel Soares, frente onde hoje está a Delegacia de Polícia. Durou até os anos 60.

Foto de 1940. Farmácia Varella, na rua Celestino Cavalheiro com avenida Júlio de Castilhos. Época da arborização da cidade. (Foto: Doação de Ruy Barros)

Foto anos 70. Farmácia São Gabriel, do saudoso Dilmar Vals Machado, ficava na Coronel Soares, esquina com Laurindo Lopes Nunes.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

São Gabriel na Guerra dos Farrapos (Final)

A Revolução Farroupilha em São Gabriel (Final)

Já o historiador gabrielense, Osório Santana Figueiredo, escreveu em seu livro “História de São Gabriel”, todo um capítulo dedicado a Revolução Farroupilha no município, que, resumidamente, diz o seguinte:

No decênio farroupilha, São Gabriel era apenas uma vila, então terceiro distrito de Caçapava. Em seu solo ocorreram combates cruentos e entreveros épicos. Era comum estar um dia de posse dos revolucionários, e outro nas mãos governistas.

Tão logo os revoltosos ficaram sabendo que o presidente Antônio Rodrigues Fernandes Braga, fora deposto, reuniram-se nas proximidades, constituindo uma força de mais de 300 homens, sob o comando do coronel João Antônio da Silveira, e puseram cerco à vila. A 4 de outubro, ante a iminência do ataque rebelde, as forças legais se renderam confraternizando-se logo após com os atacantes.

Antônio Rodrigues Fernandes Braga foi um juiz, ouvidor de comarca, desembargador e político. Ele foi deputado geral, presidente da província do Rio Grande do Sul quando da Revolução Farroupilha, ministro do Supremo Tribunal de Justiça e senador do Império do Brasil.

Quando Bento Gonçalves marchou para Porto Alegre em 20 de setembro de 1835, o presidente Fernandes Braga se refugiou na cidade de Rio Grande, que se tornou assim a base principal do Império do Brasil no Rio Grande do Sul. Os farroupilhas, como ficaram conhecidos os rebeldes, empossaram Marciano José Pereira Ribeiro como novo presidente. (Wikipédia)

A uma hora da madrugada de 5 de outubro, uma coluna revolucionária dispersou, no distrito de Batovi, uma tropa governista, comandada pelo marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto.

Após um período de arrefecimento das hostilidades, chegou o ano de 1839, registrando-se a 5 de fevereiro um combate junto ao rio Vacacai, onde foi derrotado o caudilho legalista Juca Cipriano, deixando na fuga precipitada, seis mortos e dois feridos. São Gabriel voltava às mãos dos revolucionários.

Em meados desse mesmo ano Bento Gonçalves da Silva esteve em São Gabriel e determinou a criação de uma escola pública, sendo nomeado para dirigi-la o professor Luiz Carlos de Oliveira. A abertura desse colégio teve lugar a 12 de agosto e a matrícula constou de 68 alunos, sendo 43 do sexo masculino.

Durante o ano de 1840, São Gabriel passou ao poder dos imperiais, após a derrota de uma força farroupilha no Passo do Salso, quando foi morto seu comandante, capitão Fileno de Oliveira Santos, e mais três revolucionários.

O coronel legalista Manoel dos Santos Loureiro após infligir essa derrota ao inimigo, ocupou a povoação a 13 de junho, a frente de 700 homens.

O COMBATE DE SÃO FILIPE

A 16 de novembro feriu-se o sangrento combate de São Filipe, distrito de Azevedo Sodré, quando o general Antônio de Souza Neto e o coronel João Antônio da Silveira, bateram a brigada do coronel Gerônimo Jacinto.

No campo de batalha foram contados 80 mortos, 162 prisioneiros, armas e munições em profusão, rica bagagem e 1.500 cavalos. O coronel Jacinto conseguiu escapar com alguns oficiais e praças.

No ano de 1841, São Gabriel novamente voltou às mãos dos revolucionários, passando a ser Capital da República Rio-Grandense. A 27 de fevereiro, Bento Gonçalves chegou na localidade e recebeu o governo do vice-presidente em exercício, coronel José Mariano de Matos. No outro dia, houve um combate em Batovi, sendo derrotados os legalistas, que abandonaram o lugar.

José Mariano de Matos era engenheiro e militar, carioca e republicano, formado pela Escola Militar, foi soldado voluntário no 1º Corpo de Artilharia de Posição.

Foi transferido para o Rio Grande do Sul, em 1830, onde, em 1833, comandou o Corpo de Artilharia a Cavalo e liderou, junto com João Manuel de Lima e Silva, os protestos populares contra a Sociedade Militar, cuja filial tinha sido recém criada em Porto Alegre. A sociedade era suspeita de simpatizar com a restauração de D. Pedro I e não era vista com bons olhos pelos estancieiros.

Foi deputado provincial eleito à 1ª Legislatura da Assembleia Provincial. Esteve presente na sessão de 18 de setembro de 1835 da “Loja Maçônica Philantropia e Liberdade”, que decidiu iniciar a Revolução Farroupilha.

Na República Rio-grandense foi ministro da Guerra e da Marinha, vice-presidente da República e presidente da república interino, em substituição a Bento Gonçalves, de 23 de novembro de 1840 a 14 de março de 1841. Autor do brasão que foi adotado para o Rio Grande do Sul pelos constituintes de 1891.

Próximo do final da revolução foi preso em Piratini, junto com o coronel Joaquim Pedro, por Chico Pedro, o “Moringue”, e encarcerado em Canguçu, na cadeia que este mandara construir como “quarto de hóspedes para os farrapos”, o que ironicamente divulgava.

Finda a revolução, foi ajudante-geral do Duque de Caxias durante a guerra contra Oribe e Rosas entre 1851 e 1852 e, ao voltar ao Rio de Janeiro, retomou sua carreira. Em 1855 participou de diversas experiências sobre o uso de foguete de Halle, conhecidos também como foguetes rotativos, juntamente com o Barão de Capanema.

José Mariano de Matos foi ainda Ministro da Guerra do Império em 1864. Foi o farrapo que chegou mais alto na hierarquia militar do Império, como general, sendo ministro do Conselho Supremo Militar ao falecer. (Wikipédia)

Durante sua permanência em São Gabriel Bento Gonçalves criou uma fábrica de lombilhos, oficinas de armeiros, alfaiatarias e um matadouro de gado. Por essa época viveu no lugar o legendário José Garibaldi, com sua mulher Anita e seu filho Menotti, mais tarde general italiano.

A 18 de junho, na Estância do Meio, foram os revolucionários derrotados, ficando 10 mortos no local, um prisioneiro e muitos feridos. No outro dia, bem próximo, no Batovi, sofreram novo revés, perdendo 30 homens mortos e mais 30 feridos.

Outra vez, a 28 de fevereiro, o tenente-coronel legalista Francisco Pedro de Abreu, o famoso “Morigue” ou “Chico Pedro”, tomou de assalto São Gabriel, fazendo grande número de prisioneiros, volumosa bagagem de guerra, inclusive grande quantidade de armamento novo de infantaria, enviado por Frutuoso Rivera, do Uruguai. O ano de 1842 foi de apenas escaramuças no município.

CAXIAS EM SÃO GABRIEL

A 19 de março de 1941, chegou a São Gabriel o novo comandante em chefe das Forças Imperiais, o Barão de Caxias, instalando no local a sua principal base de operações de combate. Mandou construir um grande entricheiramento aos fundos da Estância do Trilha, denominado de “Entricheiramento do Trilha”.

Ali empotreirou numerosa cavalhada, gado de municio, quatro canhões, grande cópia de munições e demais provisões necessárias. Mais tarde, em 1856, esteve acantonado nesse local o 5º Regimento de Cavalaria Ligeira.

Em São Gabriel, Caxias fez-se forte de 7 mil homens e coordenou o ataque aos farroupilhas em várias direções. Tendo de se afastar deixou ao coronel Jacinto Pinto de Araújo a guarnição de três batalhões de infantaria e 600 cavalarianos, com o fim de proteger os armazéns militares e o gado de reserva.

Sabendo da ausência de Caxias, o coronel Antônio da Silveira, à frente de mil homens, investiu contra o “Trilha” e o fez com tal ímpeto que se apoderou de várias carretas, do gado de abate e de toda a cavalhada.

Durante os oito dias de constantes ataques, prendeu um coronel e deixou mais de 80 inimigos mortos. Só não ocupou a vila porque o Barão, sabendo do desastre de sua tropa, retornou às pressas de Santana do Livramento, fazendo esse percurso em 48 horas, a tempo de salvá-la, com a retirada dos revolucionários.

Em novembro, repetiu-se a façanha. O comandante imperial afastou-se outra vez de São Gabriel e o intrépido farrapo voltou à carga. Foi quando o coronel João Antônio da Silveira aproveitou-se da sua ausência e entrou de novo na vila, cobrando em fazendas para vestir suas tropas, os impostos ha tempos atrasados.

A 28 de abril de 1844, o célebre coronel Carvalhinho derrotou, nas proximidades de São Gabriel, o caudilho legalista João Batista, surpreendendo ainda no dia seguinte a força do tenente-coronel Andrade Neves, futuro Barão do Triunfo.

ENFIM, A PAZ

Por fim raiou o ano de 1845, trazendo a paz e a concórdia a esta heroica província, devastada por 10 logos anos de sangrenta peleja.

Tão logo chegou a São Gabriel a tão ansiada notícia da paz, houve festas e a população, tomada de grande júbilo, percorreu as ruas precedida de uma banda de música, cantando e dançando de alegria. Davam vivas aos pacificadores, notadamente a Caxias, que tanto dera de si pela concretização desse evento.

A 8 de março, às cinco horas e meia da madrugada, chegou inesperadamente em São Gabriel o denodado pacificador, que assim fizera com a modesta intenção de fugir à receptividade que lhe estava reservada.

Não pode, contudo, furtar-se à passagem pelos arcos do triunfo, erguidos no portão de entrada da Caieira, por onde ingressou, na Praça da Matriz e o da Estrada do Forte.

Em São Gabriel, o Barão de Caxias foi alvo das mais retumbantes manifestações de aplausos e regozijos populares. Uma comissão foi organizada para coordenar os festejos, constituída do Juiz de Paz, Antônio de Faria Corrêa, José Ilidório de Figueiredo, Antônio Ferreira Valle, Joaquim José de Freitas Santos, João Raimundo da Silva Santos, Francisco Cândido de Campos, Inocêncio Cócio e Macedônio.

Durante a estada em São Gabriel, o Barão recebeu a visita de um grupo de 11 meninas, sendo a mais velha com 11 anos, assistiu um “Te Deum” na Igreja Matriz, participou de dois bailes em sua homenagem e recebeu a visita de David Canabarro.

No Museu João Pedro Nunes existe um documento raro, onde consta toda a programação em homenagem ao Barão de Caxias, durante sua estada em São Gabriel. Esse folheto, contendo 12 páginas, foi impresso pela tipografia do Exército, na época existente em São Gabriel, composta em quatro dias daquele longínquo mês de março de 1845.

HERÓIS ESQUECIDOS

Embora São Gabriel tenha tido uma participação importante na Revolução Farroupilha, são raras às ruas que lembram os nomes de alguns vultos do decênio guerreiro. Que eu saiba nem o chefe farroupilha, Bento Gonçalves, é lembrado.

E muito menos Antônio de Souza Neto, Anita Garibaldi, Giuseppe Garibaldi, David Canabarro, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Gomes Jardim e tantos outros. Não tenho certeza se ao menos tem alguma rua que homenageie a data, 20 de setembro.

Além do acervo existente no Museu João Pedro Nunes, que é valioso, e hoje encontra-se no novel Museu Nossa Senhora do Rosário Bonfim, este guarda com carinho uma lembrança do ciclo farroupilha. Trata-se de um clarim em bronze e cobre, que segundo se sabe teve um papel estratégico desde a primeira vitória dos farrapos, na tomada de Porto Alegre, em 20 de setembro de 1835.

A história, que é contada de boca em boca narra um desfecho improvável: ao analisar a capacidade de reação dos imperiais, o comandante farrapo teria dado a ordem ao corneteiro para que anunciasse à tropa a necessidade de recuar.

Mas o instrumentista teria se atrapalhado e dado um toque de “avançar”, alterando os rumos do confronto. Apesar da confusão, os soldados farrapos teriam derrotado os inimigos, transformando o instrumentista em protagonista da conquista.

Os livros de história atestam que a atrapalhação estratégica no toque de clarim realmente aconteceu. Mas não na Guerra dos Farrapos, nem sequer no Rio Grande do Sul. O episódio teria sido decisivo para outro combate, ocorrido na Bahia. Treze anos antes. Foi na batalha de Pirajá, em 1822, quando o Brasil lutava contra Portugal para consolidar a independência nacional.

Mesmo não sendo tão ilustre como na versão mais popular, a corneta guardada em São Gabriel é considerada autêntica relíquia da Revolução Farroupilha. Os registros do museu atestam que foi doada pelo ex-governador de Santa Catarina Ptolomeu de Assis Brasil, em 1932.

Mas o que um ex-governador catarinense tem a ver com a corneta dos farrapos? Simples. Ptolomeu era natural de São Gabriel e quis devolver ao Rio Grande do Sul o instrumento que teria sido levado para o Estado vizinho durante as ações militares que desencadearam a proclamação da República Juliana, em 1839.

Assim, quase um século depois de ter anunciado combates, avanços e recuos de tropas dos farrapos que lutaram pela proclamação da república catarinense, a peça acabou retornando ao solo rio-grandense.

O historiador Osório Santana Figueiredo lembra que, naquela época, cada exército tinha a sua corneta — e o corneteiro andava sempre ao lado do comandante, cumprindo uma função importante. “O clarim era um instrumento de guerra”, define o pesquisador.

O corneteiro oficial dos farrapos foi Antônio Ribeiro, que era peão da estância de Bento Gonçalves e permaneceu morando na estância Cristal, em Camaquã, após o fim da guerra, em 1845. Quando morreu, com mais de 80 anos, teria sido enterrado com sua inseparável corneta, que tantos combates anunciou nos 10 anos da Guerra dos Farrapos.

Tataraneto de Bento Gonçalves, o publicitário Raul Moreira diz que até o fim da vida Ribeiro manteve o hábito de tocar a corneta diariamente, como forma de homenagear o antigo líder, morto em 1847. Mas esta já é outra história. (Fonte: Jornal “Zero Hora”)

A SEMANA FARROUPILHA

Em São Gabriel é realizada anualmente uma extensa programação para comemorar a Revolução Farroupilha. Nos CTGs realizam-se fandangos e penhas (comida gaúcha, músicas e danças). No Parque de Exposições Assis Brasil, forma-se o acampamento gaúcho, com barracas montadas e churrasco o dia todo.

No dia 20, data consagrada aos gaúchos, realiza-se o desfile de cavalarianos, um dos maiores do Estado, chegando a reunir cerca de 5 mil participantes.

Dentro das comemorações da Semana Farroupilha 2011, o Museu Nossa Senhora do Rosário Bom Fim, de São Gabriel, foi o palco de uma mesa redonda para debater a vida de David Canabarro e participação do espanhol Don José Guasque na Revolução Farroupilha. Foram palestrantes: doutor Gerson Oliveira (descendente de Guasque) e Elma Sant’Ana, autora do livro sobre o espanhol. (Diversas fontes) (Pesquisa: Nilo Dias)

 Desfile da Semana Farroupilha em São Gabriel, é um dos maiores do Estado. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

São Gabriel na Guerra dos Farrapos (1)

A Revolução Farroupilha foi a mais longa guerra civil da história brasileira, durando de 1835 até 1845. Foram dez anos de batalhas entre Imperialistas e Republicanos. Os primeiros defendiam a manutenção do império e os segundos lutavam pela proclamação da república brasileira.

Esta matéria trata apenas de fatos ocorridos em São Gabriel. Contar tudo o que se passou nesses 10 anos de lutas incessantes, exigiria grossos livros. Mas é importante que as pessoas tenham conhecimento da história. Por isso, espero que os alunos de nossas escolas tenham acesso a tudo isso.

Penetrar nos meandros da história é algo fascinante. Certo dia comentei a esse respeito com o historiador Osório Santana Figueiredo. Quando eu pesquisava em velhos jornais no escritório do amigo Ruy Barros, para escrever o livro “100 anos de futebol em São Gabriel”, de repente eu me sentia “viajando” pelo tempo e estacionando nos acontecimentos de outras épocas.

E o seu Osório me confirmou que é assim mesmo. Da pesquisa sobre o futebol, passei a me interessar por outros temas históricos, em especial que dizem respeito a São Gabriel. Isso, para atender os compromissos que tenho com o jornal “O Fato”, da amiga Ana Rita Focaccia.

E confesso que isso tem me feito um bem enorme. Agora compreendo o porquê da longevidade dos amigos Osório e Dagoberto Focaccia, o primeiro com mais de 90 anos e o segundo com bem vividos 80.

A mente tem que ser usada em sua plenitude. O uso da memória é uma ginástica, seja através da leitura ou da lembrança de coisas passadas. É o que estou fazendo.

Hoje leio muito. Tenho uma apreciável biblioteca que está sempre aumentando. Antes, eu adquiria livros esportivos. Hoje também me interesso por obras históricas, especialmente sobre o Rio Grande do Sul. E aproveito as horas vagas de aposentado, para resumir esses livros e apresenta-los em matérias fáceis de ler e entender, que são publicadas no jornal.

GARIBALDI E ANITA EM SÃO GABRIEL

São Gabriel teve importante participação na Revolução Farroupilha. Em 15 de março de 1841, Giuseppe e Anita Garibaldi chegaram a cidade, onde permaneceram por algum tempo no novo acampamento farroupilha onde foram construídos e improvisados diversos barracões para abrigo das tropas.

O próprio Garibaldi, com auxílio de alguns de seus marinheiros construiu uma cabana, para nela abrigar sua família, a quem passou a dedicar maior atenção, pois havia apenas exercícios militares de adestramento das tropas, sem qualquer confronto com os inimigos nas cercanias. Assim decorreram semanas, onde nada se decidia.

Lá encontraram Francesco Anzani que, segundo Garibaldi, foi o melhor soldado italiano que conheceu e a quem “a Legião Italiana de Montevidéu ficou devendo a sua organização de ferro”.

Anzani era natural de Alzate, Itália, onde nasceu em 1809. Faleceu em Gênova, Itália, em 5 de junho de 1848. Quando jovem lutou pela independência da Grécia. Depois, largou a Universidade de Parma para dirigir-se para a França, onde fez parte do movimento republicano de junho de 1832. Combateu, ainda, contra Dom Miguel, na Guerra Civil Portuguesa, onde foi ferido e na Espanha.

Preso em Gênova, em 1838, pela polícia sarda, foi entregue às autoridades austríacas. Colocado sob vigilância, preferiu emigrar para a América, onde combateu com Giuseppe Garibaldi no Uruguai, participando da batalha de Santo Antônio do Salto, em 8 de fevereiro de 1846.

Retornou à Itália, em 1848, morrendo logo depois de desembarcar em Gênova, vítima de tuberculose. Garibaldi deu o nome de Anzani, a um de seus batalhões.

Quando chegaram a São Gabriel, Anita já dominava e entendia a língua italiana. Com a proximidade do Uruguai, e através dos mensageiros que de lá chegaram, teve os primeiros contatos com a língua espanhola. A ociosidade bélica de Garibaldi durante o tempo passado em São Gabriel foi pródiga em ensinamentos para Anita.

Aqueles funestos dias seriam lembrados para sempre na memória de quem lá esteve. Garibaldi os registrou em suas “Memórias”. Anita detalhou em carta enviada ao casal Costa, em São Simão, os terríveis momentos e as deprimentes cenas de que foi vítima e testemunhou.

São Gabriel teve importante participação na Revolução Farroupilha. Em 15 de março de 1841, Giuseppe e Anita Garibaldi chegaram a cidade, onde permaneceram por algum tempo no novo acampamento farroupilha onde foram construídos e improvisados diversos barracões para abrigo das tropas.

O próprio Garibaldi, com auxílio de alguns de seus marinheiros construiu uma cabana, para nela abrigar sua família, a quem passou a dedicar maior atenção, pois havia apenas exercícios militares de adestramento das tropas, sem qualquer confronto com os inimigos nas cercanias. Assim decorreram semanas, onde nada se decidia.

Lá encontraram Francesco Anzani que, segundo Garibaldi, foi o melhor soldado italiano que conheceu e a quem “a Legião Italiana de Montevidéu ficou devendo a sua organização de ferro”.

Anzani era natural de Alzate, Itália, onde nasceu em 1809. Faleceu em Gênova, Itália, em 5 de junho de 1848. Quando jovem lutou pela independência da Grécia. Depois, largou a Universidade de Parma para dirigir-se para a França, onde fez parte do movimento republicano de junho de 1832. Combateu, ainda, contra Dom Miguel, na Guerra Civil Portuguesa, onde foi ferido e na Espanha.

Preso em Gênova, em 1838, pela polícia sarda, foi entregue às autoridades austríacas. Colocado sob vigilância, preferiu emigrar para a América, onde combateu com Giuseppe Garibaldi no Uruguai, participando da batalha de Santo Antônio do Salto, em 8 de fevereiro de 1846.

Retornou à Itália, em 1848, morrendo logo depois de desembarcar em Gênova, vítima de tuberculose. Garibaldi deu o nome de Anzani, a um de seus batalhões.

Quando chegaram a São Gabriel, Anita já dominava e entendia a língua italiana. Com a proximidade do Uruguai, e através dos mensageiros que de lá chegaram, teve os primeiros contatos com a língua espanhola.

A ociosidade bélica de Garibaldi durante o tempo passado em São Gabriel foi pródiga em ensinamentos para Anita. Aqueles funestos dias seriam lembrados para sempre na memória de quem lá esteve. Garibaldi os registrou em suas “Memórias”. Anita detalhou em carta enviada ao casal Costa, em São Simão, os terríveis momentos e as deprimentes cenas de que foi vítima e testemunhou.

A CARTA DE ANITA

Ao casal Costa.

São Gabriel, 10 de março de 1841: Caros amigos, depois das penosas aventuras por que passamos, parece um sonho viver de novo numa casa confortável e poder escrever com calma esta carta que, graças à cortesia do nosso novo amigo Francesco Anzani, espero que chegue até vocês em pouco tempo.

Imaginem que Francesco ainda tem paciência para me ensinar ortografia, e eu estudo durante as longas horas de ócio que freqüentemente passamos juntos no conforto dos nossos quartéis de São Gabriel. Estamos todos sãos e salvos, mas só por milagre…

Quando nos despedimos … estávamos bem e com saúde, encorajados com a provisão de alimentos que vocês nos quiseram dar e pelos seus votos de boa sorte.

Mas logo a viagem se tomou penosa, por causa das chuvas incessantes. Nunca tomei tanta chuva em toda a minha vida. … alcançamos as tropas dos farrapos e iniciamos com eles a caminhada em direção das alturas. …

A coluna de companheiros parecia estender-se até o infinito. … Ministros, parlamentares, funcionários, empregados, artesãos e pobretões, todos fugitivos, com suas famílias e coisas, animais, provisões, armas, munições e até mesmo máquinas para imprimir jornais.

Vocês não imaginam o sofrimento de todos; por causa do terreno totalmente intransitável, era preciso cortar a vegetação densa, metro por metro, a chuva incessante ensopava nossas roupas, os pés gelados escorregavam na lama, de noite tremíamos de frio e nos apertávamos uns contra os outros, como animais, para conseguir um pouco de calor. …

As reservas de alimentos logo se esgotaram e a caça começou a rarear. Não conseguíamos mais acender fogo, pois a madeira estava toda úmida. Para tornar aceitável algum raro pedaço de carne, nós o colocávamos na garupa do cavalo, sob a cela, até ele cozinhar um pouco com o calor do animal. Depois de atravessar o vale do rio das Antas, começamos a subida.

O sofrimento aumentou ainda mais, por causa do terreno íngreme e da falta de alimento. Todos sofreram, em especial as crianças e as mulheres, que, depois de algum tempo, não conseguiam prosseguir.

A caminhada era muito difícil e as crianças caíam exaustas. As mães, não querendo largá-las, abatiam-se com elas, apesar de saberem que não teriam como se salvar. Às vezes os homens sem coragem de separar-se dos seus ficavam com eles ou então os matavam, para não entregá-los a uma lenta agonia.

Com um reflexo de horror nos olhos, continuavam a caminhada cada vez mais devagar, conscientes de que logo também cairiam exaustos na lama e seriam cobertos pela densa vegetação. Acho que por muito tempo será possível reconstituir a nossa trajetória pela fila de esqueletos que marcam o caminho.

Com certeza nossas perdas foram mais graves do que aquelas que sofremos nas muitas batalhas de que participei. Durante a subida, eu procurava frutas e raízes para comer, qualquer coisa que me pudesse alimentar, porque meu leite estava diminuindo e Menotti, sob o poncho que o prendia ao meu colo, quase já não tinha forças para chorar.

Seus gemidos tornavam-se cada vez mais fracos, a carinha pálida se enrugava, estava sujo, trêmulo e a única coisa que eu podia fazer era soprar por cima dele para lhe dar um pouco de calor.

Eu usava folhas e alguns trapos que restavam para conservá-lo o mais enxuto possível. Nas raras paradas eu lhe dava de mamar.

Muitas vezes vi, com dor no coração, alguma outra mulher tirar seu bebê do meio das roupas e encontrá-lo morto. Imaginem minha apreensão… Pela primeira vez senti minhas forças diminuírem e me cansava até por carregar o peso do menino, que afinal só tinha algumas semanas de vida.

Fiquei grata a José, que, voltando-se para ver se eu o estava seguindo, percebeu a minha angústia e quis carregar Menotti, agasalhando-o embaixo do poncho e conservando-o quente com seu bafo por algum tempo…

Quando mais uma vez a aurora chegou à serra com a sua luz pálida, ele veio até mim. Eu estava deitada, encostada a uma rocha, tentando me proteger do frio de algum jeito. José estava acompanhado de um soldado e trazia duas mulas. Disse para eu partir imediatamente e pôr nosso filho a salvo do outro lado da montanha.

Ele me olhava com aquele jeito de quem não admitia discussão e acrescentou que aquela era a única esperança para Menotti. Devolveu-me o menino depois de beijá-lo carinhosamente.
Então me abraçou e me empurrou na direção das mulas, evitando o meu olhar. Ele não quer me mostrar o quanto essa decisão está lhe custando, pensei.

É claro que eu estava sem forças para resistir. Peguei o Menotti, reduzido a um pacotinho, e parti com o soldado, que puxava as mulas com muito esforço, tropeçando nas pedras e nos arbustos que abundavam na vegetação virgem da serra.

Eu continuava com a impressão de estar escalando o infinito. À noite, deitamos no chão, amontoados sobre os animais exaustos.

As vezes parecia que eu tinha lâminas fincadas na cabeça, e procurava segurar o enjôo que tomava conta de mim no ar rarefeito da montanha. Na tarde seguinte, quando eu já estava achando que se caísse mais uma vez não teria forças para me levantar, notei que o terreno se tornava menos íngreme.

Então pude montar em uma mula, e fui revezando, montando ora em uma ora em outra, para elas não desabarem de exaustão. Passamos mais uma noite quase sem dormir, torturados pela fome. Menotti ainda respirava, mas, quando eu tentava dar-lhe de mamar, mal o sentia sugar.

No dia seguinte, enquanto nos arrastávamos mecanicamente, passo a passo, de repente percebi que o terreno formava um suave declive. Olhei ao redor e não consegui acreditar: a floresta tinha quase acabado e à nossa frente estendiam-se colinas e campos cultivados a perder de vista.

Caminhamos então em direção a uma fumaça que apareceu ao longe, e finalmente chegamos a um acampamento, onde alguns soldados estavam deitados ao redor de uma fogueira, bebendo de seus cantis.

Assim que nos viram, amontoaram-se ao nosso redor para saber quem éramos; pegaram o Menotti, já quase morto, deram-lhe um banho, envolveram-no em roupinhas limpas e lhe deram leite, gota a gota.

Eu também bebi leite de uma tigela fumegante, e aquela me pareceu a bebida mais fina do mundo. Enfim, caros amigos, estávamos salvos… Poucos dias depois, o único vestígio do pesadelo eram os meus pés que continuavam sangrando. Ainda tive que mantê-los enfaixados por muito tempo…

Anita Ribeiro Garibaldi

GARIBALDI DEIXOU A REVOLUÇÃO

Foi em solo gabrielense, que em 1841, Giuseppe Garibaldi obteve de Bento Gonçalves, que reassumira em 14 de março a presidência da República Riograndense, a sua dispensa das fileiras Farroupilhas.

E em pagamento por seus quatro anos de serviços prestados a causa, recebeu do líder revolucionário 900 cabeças de gado. O herói italiano pretendia retomar as suas atividades embarcado, ou quanto muito, fixar-se junto a um Porto, onde pudesse conviver com o mar, a sua grande paixão de navegador.

Garibaldi, acompanhado de sua mulher Anita, pretendia ir até Montevidéu, para uma estada temporária. Não tinha a intenção de abandonar definitivamente a causa republicana. Assim decidido, procurou o general Bento Gonçalves e expôs-lhe todas as suas angústias, dúvidas e incertezas.

De tal encontro não existem registros oficiais, havendo historiadores que afirmam ter Garibaldi argumentado a Bento Gonçalves que Montevidéu poderia ser uma alternativa para as ligações marítimas da República Riograndense.

A maioria, porém, defende a tese de que Garibaldi não partiu para Montevidéu com estas intenções. O que importa, porém é o fato de que desta confabulação, que não teve testemunhas e que durou quase duas horas, ficou definido que Garibaldi partiria com sua mulher e filho, sendo-lhe entregue uma manada de 900 bois, que deveriam servir para as despesas de manutenção da família, durante os primeiros tempos.

Estava encerrada a participação de Anita e de seu companheiro Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha. No Uruguai Garibaldi lecionou Matemática. E nasceram mais filhos.

Em 26 de março de 1842, na Igreja de São Francisco, regularizou a união com Anita, que declarou ser viúva de Manoel Duarte de Aguiar. O casal vivenciou freqüentes momentos de estrema miséria, em função de seu idealismo.


Comandou a Esquadra Uruguaia contra a potente e numerosa Esquadra de Rosas liderada por Browm, sendo completamente batido. Depois comandou uma Divisão de Voluntários Italianos, em Montevidéu.

Após 14 anos na América, retornou à Itália, onde foi recebido como herói. Na Itália, combateu, venceu e perdeu a sua Anita. E abortou mais uma vez o seu projeto de unificar a Itália. E mais uma vez o exílio: Gibraltar, África, Estados Unidos, América Central e o Peru.

MORTE DO PRIMEIRO PRESIDENTE FARROUPILHA

No dia 4 de março de 1840 faleceu em São Gabriel, quase repentinamente, em consequência de aneurisma interno, o doutor Marciano José Pereira Ribeiro, que fora o primeiro presidente farroupilha, empossado em Porto Alegre no dia 1 de setembro de 1835.

Marciano José Pereira Ribeiro era natural de Minas Gerais. Formado em medicina em Edimburgo, Escócia, foi deputado provincial eleito à 1ª Legislatura da Assembleia Provincial do Rio Grande do Sul.

Era 3° vice-presidente da província do Rio Grande do Sul ao estourar a Guerra dos Farrapos, quando Porto Alegre foi dominada pelos farroupilhas. Enquanto o presidente da província fugia, e os outros vice-presidentes não eram considerados confiáveis, assumiu como presidente interino duas vezes, de 21 de setembro de 1835 a 16 de fevereiro de 1836 e de 28 de março a 15 de junho de 1836.

Foi preso em 1836 e enviado ao Rio de Janeiro, de onde fugiu em 1840 e retornou ao Rio Grande do Sul, entrando por São Gabriel. Sua saúde já estava abalada, falecendo pouco tempo depois.

PELEIA NO ARROIO DO SALSO

Em 11 de junho de 1840, junto ao Arroio do Salso, tributário do Vacacai, encontraram-se as forças do coronel Manuel dos Santos Loureiro, da Guarda Nacional, e as do farroupilha Fileno de Oliveira Santos.

Depois de renhida peleia Fileno foi morto, dispersando-se os seus homens. Loureiro, que seguia para São Gabriel, então em poder dos farroupilhas, continuou sua marcha e entrou, sem mais novidades, na vila, no dia seguinte, pois os republicanos a haviam evacuado, abandonando nela três bocas de fogo, aliás, inúteis para eles.

No dia 28 de junho de 1841, Francisco Pedro de Abreu retomou a cidade de São Gabriel, surpreendendo a Guarda de Polícia rebelde, aprisionando o comandante intitulado major, Maximiano, um tenente, 22 soldados, e armamento sendo o de Infantaria, novo, mandado por Fruto Ribro (Frutuoso Rivera), e 400 e tantos cavalos.

A Guerra continuou por mais quatro anos. Os farroupilhas depuseram as armas e o Governo Imperial concedeu anistia aos revoltosos, tendo seus oficiais e praças sido incorporados ao exército e mantidas suas patentes.

Também as dívidas e os compromissos do Governo Farroupilha foram assumidas pelo Império. Em 1845 a paz foi selada e o Brasil manteve sua unidade territorial.

CAÇA AOS FARRAPOS

Fevereiro de 1843. Sete mil homens marcham à Fronteira Oeste da província sob as ordens de Luís Alves de Lima e Silva à caça dos farrapos. Com pressa e para ganhar agilidade, o futuro Duque de Caxias, em março, deixou em São Gabriel parte da bagagem, a cavalhada e dois mil homens.

Além de precipitar o confronto, o comandante queria 14 mil cavalos dos republicanos espalhados pela fronteira. Foi em vão. Os farrapos escapuliam por caminhos que dominavam e evadiram a manada da região.

Caxias teve de ir ao Uruguai comprar montaria. E os inimigos aproveitaram para atacar São Gabriel, em 10 de abril. “O desastre foi completo. Toda a cavalhada foi recolhida pelos rebeldes”, escreveu Morivalde Calvet Fagundes.

No dia 10 de abril de 1843, o tenente-coronel farroupilha, Manuel Carvalho de Aragão e Silva, surpreendeu na madrugada desse dia, em São Gabriel, os legalistas, aprisionando o coronel Antônio Pinto, matando 77 homens e apoderando-se de 1.500 reses.

Em seguida reuniu-se, na Caieira, às forças do general Portinho, sendo, porém, atacados por Juca Ourives que, protegido pelo 9º Batalhão de Caçadores, comandado pelo coronel Francisco de Arruda Câmara, os desalojou e os repeliu no campo do Fidélis, matando um capitão, dois tenentes e 13 soldados, incorporando-se logo após às forças do general João Antônio, que rumava para São Gabriel.

No dia 11 de abril de 1843, a tropa do general farroupilha João Antônio da Silveira atacou a guarnição imperial de São Gabriel, comandada pelo coronel Jacinto Pinto de Araújo Corrêa, e tomou posse da manada de cavalos e tropa de bois ali mantidos.

Caxias, ao saber do fato no dia 16, foi até Santana do Livramento, em socorro do chefe imperial, e resgatou, no dia 19, as manadas aliciadas pelos republicanos.

FIM DA REPÚBLICA RIO-GRANDENSE

A República Rio-Grandense foi dissolvida em 1 de março de 1845, pelo “Tratado de Poncho Verde”, que manteve em vigor algumas leis derivadas da constituição rio-grandense.

Teve ao todo cinco capitais durante os seus nove anos de existência: Piratini, Caçapava do Sul, Alegrete e São Gabriel (capitais oficiais), Bagé (somente por duas semanas) e São Borja. Os seus presidentes foram Bento Gonçalves e Gomes Jardim.

O alto comando da Revolução desejava dominar a guarnição de primeira linha da vila de São Gabriel, o 3º Regimento de Cavalaria, aquartelado no sobrado onde depois se instalou o Hotel Rio Branco, na antiga Praça da Matriz, hoje Fernando Abbott.

Contava a unidade militar com um contingente de 120 homens mais ou menos, e era comandado pelo capitão Francisco de Paula Macedo Rangel, avô dos antigos ruralistas gabrielenses Antônio, Gabriel e Otávio Macedo Rangel.

Com o objetivo de melhor coordenar o movimento em São Gabriel, inclusive entrada de armas e soldados na calada da noite, resolveram os insurretos patrocinar um suntuoso baile a 7 de setembro, dia comemorativo da Independência. Entretanto, a data teve de ser dilatada para 19 de setembro.

Foram convidadas para as festividades que se anunciavam brilhantes, todas as pessoas de maior destaque social na pequena, porém aristocrática povoação. Entre os principais convidados, situavam-se o capitão Macedo Rangel, alguns de seus oficiais e às respectivas famílias.

Oficial que não primava pela imprevidência, Macedo Rangel antes de dirigir-se à festa, deixou de prontidão a guarnição sob seu comando, mandando distribuir farta munição e reforçou os efetivos com praças de Infantaria de Pernambuco que, embora desmobilizadas, moravam na localidade e foram reengajadas. Assim estava preparado para qualquer emergência.

Macedo Rangel, para demonstrar que estava muito bem informado das maquinações que se estavam processando, no decorrer do baile referido e num intervalo das danças, chamou à sua presença o inspetor do 3º quarteirão, encarregado das patrulhas, mostrando-lhe uma carta que havia interceptado.

Na missiva, depois do pedido de certas armas, dizia-se “que o tempo tinha chegado”. Segredava-se com isto, já estarem os revolucionários em campo com mais de 150 homens. Informavam, ainda, ser o dia 25 a data marcada para “atropelar a capela, a rebenque”, disse Varela. (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel em 28/04/2017)

Garibaldi esteve com Anita em São Gabriel.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Antigo Hospital Militar

Neste prédio localizado na esquina das ruas Tristão Pinto e Barão de São Gabriel, onde antigamente funcionou o Hospital Militar de São Gabriel, hoje ali encontra-se instalado um Posto de Saúde.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um ícone da cultura gabrielense

O doutor Milton Teixeira era considerado o decano dos advogados de São Gabriel. Além da sua atuação na área jurídica destacou-se também no desenvolvimento da cultura em nosso município. Ele e mais algumas ilustres pessoas da comunidade fundaram a Associação Cultural Alcides Maia (ACAM), que resiste até hoje.

Como costumo fazer, me valho do historiador Osório Santana Figueiredo. Fiquei sabendo, em sua obra “História de São Gabriel”, que a ACAM partiu de uma idéia do doutor Milton. Ele, inclusive, cedeu o prédio localizado na rua General Mallet, de sua propriedade, para as primeiras reuniões da entidade e acabou virando sua sede.

Hoje, a entidade funciona em uma sala do “Sobrado da Praça”, cedida pela Prefeitura Municipal de São Gabriel.

O prefeito Balbo Teixeira criou uma Comissão para tratar do tema, que teve como membros o doutor Nelson Lydio Andrade de Azevedo, historiador Osório Santana Figueiredo, doutor Milton Teixeira, doutor Charlemagne Neme, Galeno Evangelho Costa, Ricardo Pereira Teixeira e doutor Aluizio Macedo.

Em 10 de setembro de 1986, em reunião festiva realizada no auditório da Câmara Municipal foi criada oficialmente a Associação Cultural Alcides Maya, cuja primeira Diretoria ficou assim constituída:

Presidente, Galeno Evangelho Costa; Secretária, doutora Maria Anita Prestes e Tesoureiro, doutor Gabriel Padilha Dornelles.

Lembro que depois do ato na Câmara Municipal, foi realizado um jantar na sede da entidade, na rua General Mallet, quando estive presente com a minha esposa, a jornalista Teresinha Motta.

Depois foi presidente o historiador Osório Santana Figueiredo, o doutor Milton Teixeira, a poetisa e escritora Maria da Graça Ferreira Cunha, o pastor Cláudio Moacir Moreira, Humberto Petrarca, Mara Rangel e Italo Zailu Gatto, se bem me lembro.

Hoje a entidade está nas mãos de Carlos Alberto Torres de Menezes, que ceertamente dará um grande impulso à entidade. Se faltou alguém peço desculpas, não foi intencional, sim  falta de memória, mesmo.

Durante todos esses anos a entidade realizou várias atividades de cunho cultural, como concursos literários, de declamações, músicas e danças, exposições de fotografias e artes plásticas, torneios, feiras, lançamentos de livros, com destaque para duas antologias de escritores gabrielenses, entre outras.

Patrocinou, ainda, o 7º Encontro Estadual de Micro História, em 1990, quando estiveram em São Gabriel historiadores de todo o Estado. E ainda o 7º e 8º Encontros do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, em 1990 e 1991.

Em 28 de julho de 1992 a entidade promoveu a I Festa Mundial do Folclore, com participação de grupos da Bélgica, Alemanha e Argentina. Em 1998 organizou o livreto “Talentos Gabrielenses”, junto a Editora Alcance, de propriedade do escritor gabrielense Rossir Berny.

O PATRONO DA ACAM

Alcides Maia (Alcides Castilho Maia), que dá nome a entidade, foi jornalista, político, contista, romancista e ensaísta, nascido em São Gabriel, no dia 15 de setembro de 1878, e falecido no Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 1944.

O pai de Alcides Maya, Henrique Maia de Castilho, era funcionário federal e de origem citadina. O vínculo com o pago e o sentimento gaúcho, que marcaram a ficção do escritor, vieram através da linha materna.

Carlinda de Castilho Leal, sua mãe, era filha de Manuel Coelho Leal, dono da “Estância do Jaguari”, no município de Lavras do Sul, e ainda de duas frações de campo em São Gabriel, chamadas “Tarumã” e “Guabiju”.

Alcides Maia passou a infância na “Estância de Jaguari”, cenário de muitas de suas páginas regionalistas, sobretudo no romance “Ruínas Vivas”, que é, de certo modo, a visão nostálgica da estância avoenga.

Antes de ter concluído o primário, Alcides foi levado para Porto Alegre, onde fez os estudos de humanidades. Em 1895, quando contava 18 anos, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo.

A sua verdadeira vocação, porém, eram as letras e o jornalismo, por isso abandonou o curso de Direito. Retornando a Porto Alegre em 1896, entregou-se à prática do jornalismo militante, atividade que exerceu ao longo de toda a vida.

Quando em atividade profissional no seu “Escritório Camboatá”, o doutor Milton distribuía aos seus clientes, ao preço de Cr$ 5,00, exemplares de uma revista chamada “Quadrins”, criada por desenhistas e roteiristas gaúchos. Isso por volta de 1979 e 1980.

O nome “Camboatá” que o doutor Milton tanto gostava, e que definia seu escritório de advocacia e sua propriedade rural, curiosamente lembra uma espécie de peixe de água doce e uma árvore sapindácea (plantas com flor).

O doutor Milton também enveredou pelos lados da política, tendo sido eleito vereador em São Gabriel no distante ano de 1959, pelo antigo Partido Social Democrático (PSD), alcançando a soma de 300 votos, bastante expressiva para a época quando o número de eleitores era bem menor que hoje.

Prova disso é que o prefeito eleito, José Sampaio Marques Luz, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) teve 4.472 votos. O candidato derrotado, Bernardo Fernandes Barbosa, da União Democrática Nacional (UDN), alcançou 4.161 votos.

UMA JUSTA HOMENAGEM

A IX Feira Municipal do Livro, a partir da edição de 2016, passou a chamar-se oficialmente de “Dr. Milton Teixeira”, uma justa homenagem a quem em vida fez tanto pela cultura de nosso município.

O prefeito Roque Montagner disse na ocasião que se tratava de um reconhecimento do Poder Executivo, uma forma de gratidão e agradecimento do município a quem dedicou uma grande parte da sua vida em prol da cultura de São Gabriel, e que jamais será esquecido por toda a comunidade. “Temos a certeza que a energia do doutor Milton está aqui, através de sua esposa dona Leni e demais familiares”, frisou.

A patronesse da Feira de 2016 foi a escritora Fernanda Alves Pinto, colunista de “O Fato”, que sofre de uma doença chamada “Distonia Muscular Generalizada”. Ela conhece as limitações que tem, mas sabe que nenhuma a impede de buscar e querer a felicidade. O Capataz da IX Feira do Livro foi José Fernando dos Santos.

O doutor Milton Teixeira era natural da cidade de Lavras do Sul, tendo nascido na estância de seu avô em Pontas do Salso, município de São Gabriel.

Ao ler isso uma dúvida me bateu na cabeça e fez com que consultasse o amigo Osório Santana Figueiredo, que atenciosamente respondeu:

“Caro Nilo. Ele mesmo contava e dava risada. Não sabia de que lado. Se nasceu em terras de São Gabriel, gabrielense é de fato. Foi sepultado no cemitério de Lavras do Sul, em jazigo próprio da família. O Edilberto também. Abraço. Osorio”.

Era filho de Valério Teixeira Neto e Maria Julia Teixeira e irmão do saudoso doutor Edilberto Teixeira, advogado, agropecuarista, proprietário da “Estância do Capão”, em Santa Margarida, além de autor de obras de cunho regionalista. Hoje, Edilberto Teixeira é nome de praça no município de Santa Margarida do Sul.

Ele teve grande importância para a cultura regionalista, através de poemas, composições e livros que retrataram o cotidiano da vida do homem do campo e das cidades do interior.

Mesmo passados muitos anos de sua morte, composições por ele escritas – de forma inédita – são entregues pelo seu filho Mariano Teixeira para serem musicadas e defendidas por músicos e intérpretes nos festivais de São Gabriel e também em vários outros municípios do Rio Grande do Sul.

Eu conheci tanto o doutor Milton, quanto seu irmão Edilberto. Deste, ganhei, quando de uma visita que fiz a ele em sua casa, com direito a autógrafo, um livro de poesias especificando as várias pelagens de cavalos, que guardo até hoje com carinho.

O falecimento de Milton Teixeira ocorreu no dia 29 de maio de 2015, após longa enfermidade. O sepultamento aconteceu no cemitério de Lavras do Sul.

O doutor Milton Teixeira era proprietário de terras no hoje município de Santa Margarida do Sul, que agora pertencem a viúva Leni e ao filho único do casal, Rogério Brenner Teixeira, conceituado empresário rural em São Gabriel.

UM LUGAR HISTÓRICO

E não se trata de uma propriedade qualquer, igual a tantas outras existentes na região. É um lugar histórico, onde nasceu Plácido de Castro, que hoje é nome de município no Acre, de um time de futebol, de um CTG e também está inserido no "Livro de Aço", chamado "Livro dos Heróis da Pátria", o qual lhe confere o status de "herói nacional".

A inclusão do nome do gabrielense aconteceu em 17 de novembro de 2004, por ocasião do centenário da celebração do Tratado de Petrópolis.

O historiador Osório Santana Figueiredo, anos atrás, fez uma pesquisa de campo para saber o local exato onde Plácido de Castro nasceu. Esteve acompanhado do saudoso Alberto Saboia de Castro Franzen, o “Seu Saboia”, que era sobrinho do herói pátrio.

Ao final da empreitada, que contou com a ajuda do doutor Milton Teixeira, chegou-se a conclusão que Plácido de Castro nascera em terras que pertenceram a sua bisavó materna, Genoveva Maria de Assumpção de Oliveira, situada entre os arroios Cambai Grande e Cambaisinho, que antigamente era conhecido por “Rincão da Genoveva”.

Atualmente, essa área fica localizada nos campos da família do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras, Santa Margarida do Sul, e chama-se “Estância do Camboatá”, conforme explica o historiador Osório Santana Figueiredo em seu livro “Plácido de Castro, o colosso do Acre”.

UM MONUMENTO PARA PLÁCIDO DE CASTRO

No local onde estão as ruinas da “Tapera da Genoveva” e em que Plácido nasceu, foi erguido um monumento em homenagem à ele, por ocasião do seu centenário de nascimento.

A inauguração do monumento foi um momento histórico, com a presença do vice-governador do Estado do Acre. A “Tapera da Genoveva”, desde então, é um símbolo de admiração e respeito para os povos margaridense e acreano.

Sabe-se, através da história contada pelos acreanos quando aqui estiveram, na ocasião da inauguração do monumento, que demonstram sentimentos de fanatismo pelo herói, por meio de gestos simples, mas de significação, como o de levar consigo um punhado de terra do lugar onde se localiza a “Tapera”, símbolo de recordação.

Em 2001, a prefeitura de Santa Margarida do Sul, através de ato assinado pelo então prefeito Orestes Goulart, instituiu no município a “Semana Farroupilha”, que desde então é realizada anualmente de 13 a 20 de setembro.

O acendimento da “Primeira Chama Farroupilha” no novo município aconteceu às 18 horas do dia 13 de setembro de 2001, na “Tapera da Genoveva”, localizada na propriedade do doutor Milton Teixeira, em Laranjeiras.

A primeira “Chama Crioula” de Santa Margarida do Sul foi denominada “Chama Crioula Plácido de Castro”. Os desfiles da “Semana Farroupilha” são realizados hoje na “Praça Edilberto Teixeira”, irmão de Milton Teixeira, localizada no Bairro Camboatá.

O município de Santa Margarida do Sul emancipou-se em 17 de abril de 1996, pela Lei nº 10.751, desmembrando-se de São Gabriel. Acredita-se que a origem do nome do município está ligada à existência de uma antiga estância de criação de gado.

Os primeiros habitantes que se estabeleceram em Santa Margarida do Sul eram de origem portuguesa e seus descendentes dedicaram-se, até meados do século XX, somente à pecuária tradicional.

Procurei a amiga Elody Helena Veiga de Menezes, gabrielense de destacada atuação nos meios culturais, que desde a infância dedica-se à poesia e à literatura. Cursou letras, foi professora e aposentou-se como serventuária da Justiça.

Publicou quatro livros: “Réstias de Luz” (poesias), “A História e as Lendas de uma Família”, que conta a trajetória da família Menezes no Brasil, e que recebi de presente da amiga, “Baú de Sonhos” (poesias) e “Reflexões e Devaneios” (crônicas e poesias).

Dona Elody também publicou duas antologias de escritores gabrielenses, quando participou da ACAM. Conquistou vários prêmios com as suas poesias, entre eles o primeiro lugar num concurso da Casa do Poeta de Porto Alegre e segundo lugar no concurso da revista Brasília, de Brasília, DF.

Atualmente, dedica-se mais às crônicas, embora continue a fazer poesias. É dinâmica, gosta de estar sempre atualizada e participar de tudo o que se refere à literatura.

Nos últimos anos aderiu ao uso do computador e, através da Internet, mantem-se informada de tudo o que se passa no mundo e está sempre em contato com familiares e amigos em qualquer lugar.

Pois também recorri a ela, para que escrevesse algo sobre a trajetória do doutor Milton nos meios culturais de São Gabriel. E aproveitei sua inspiração para dar título a esta matéria histórica.

UM ÍCONE DA CULTURA GABRIELENSE

Eu já conhecia o doutor Milton Teixeira, há muitos anos, mas somente através da Associação Cultural Alcides Maya (ACAM), quando convivi quase diariamente com ele, foi que pude compreender a importância de sua atuação na vida cultural de São Gabriel.

Durante o tempo em que participei da diretoria da ACAM, cuja sede, naquela época, funcionava em um prédio que lhe pertencia, pude constatar que a admiração pela sua grande inteligência, caráter íntegro e a maneira respeitosa e educada com que tratava as pessoas, era unanimidade, entre todos os associados.

Sempre que surgia alguma dúvida para organizar um evento, redigir um documento, ou qualquer outro problema inerente ao funcionamento da ACAM (e isso ocorria com muita frequência) nós apelávamos para a experiência e a grande cultura do doutor Milton para resolver a situação, sempre recebendo dele uma orientação paciente, lúcida e segura.

Porém, o que mais destacava a importância do doutor Milton Teixeira na sociedade gabrielense era a sua participação no desenvolvimento cultural e artístico de São Gabriel naquela época. Ele era, sem dúvida nenhuma, um verdadeiro agregador de talentos.

São incontáveis as exposições de artes, lançamentos de livros, saraus literários e encontros artísticos e culturais que se realizaram nas dependências do seu prédio, sempre sob a sua orientação e beneplácito. Isso sem falar em feiras do livro, concursos literários e festivais nativistas que ocorreram naquele período e que tiveram o apoio e o incentivo do doutor Milton Teixeira.
         
Apesar de contar com a participação de vários outros escritores e literatos gabrielenses, pode-se dizer que ele foi o verdadeiro idealizador e fundador da Associação Cultural Alcides Maya a qual, durante muitos anos, cresceu e se desenvolveu graças ao esforço e a generosidade daquele homem invulgar.

Foi ele também que, ao escolher o nome de Alcides Maya, o primeiro gaúcho a participar da Academia Brasileira de Letras, para patrono da ACAM, deu o destaque merecido a esse grande escritor conterrâneo, cuja importância na literatura gaúcha, infelizmente, a maioria dos gabrielenses ignorava.

O doutor Milton Teixeira, certamente, merece ser considerado um dos ícones da cultura gabrielense. (Elody Helena Veiga de Menezes) (Pesquisa: Nilo Dias - Publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS, edição de 31 de março de 2017)

Dr. Milton Teixeira com a esposa, Leni Benner Teixeira, o filho, Rogério, e as netas, Gabriela e Helena, na comemoração das Bodas de Ouro do casal.