segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Canário Alegre", legenda do tradicionalismo


Adão Brasil dos Santos, o “Canário Alegre” foi sem dúvida, o tradicionalista mais famoso de São Gabriel. Era conhecido em todos os rincões do Rio Grande do Sul. Eu lembro de uma vez em que me encontrava a noite, no Bar Vera Cruz, em Rio Grande, quando um cliente, ao saber que eu morava em São Gabriel, me perguntou sobre ele.

Disse que não conhecia a cidade, mas ouvira falar muito do músico e que gostaria de conhecê-lo. Contei a esse amigo várias coisas sobre o grande tradicionalista, que tive a felicidade de conhecer.

A primeira vez que vi o “Canário” foi no Armazém Motta, do meu saudoso sogro Gelcy Motta. Os dois eram amigos e muitas vezes ele foi convidado a almoçar lá em casa. E tive a oportunidade de ocupar a mesa ao seu lado, para saborear os gostosos pratos que minha sogra, a saudosa professora aposentada dona Mecília, preparava.

Era um tempo em que não podia faltar uma sopa quente à mesa, no período de inverno. Só depois vinha o prato principal. E nessas ocasiões o “Canário” sempre nos brindava com um improviso, no qual era mestre.

Mas os seus pratos preferidos eram os da culinária gaúcha, um churrasco gordo, mocotó bem apimentado, tripa de boi refogada e um carreteiro com charque de manta, daqueles que os carreteiros traziam para vender na cidade.

No Armazém Motta, do meu sogro, sempre tinha um bom charque para vender. E também um feijão chamado de “miudinho”, que era uma verdadeira delicia. Fiquei sabendo que não existe mais, o que é uma pena.

Uma vez levamos o “Canário” para uma festa de aniversário na propriedade rural do Menoti Motta, irmão do Gelcy e tio da minha esposa Teresinha, na Vila Gomes. Não lembro quem estava aniversariando, o que não vem ao caso.

Foi um dia para não ser esquecido. Churrasco gordo, muita cerveja e o velho “Canário Alegre” nos brindando com poesias de improviso, toque de gaita e interpretações de músicas gaúchas.

UMA VERDADEIRA RELÍQUIA

Eu guardo com muito carinho uma verdadeira relíquia. Certa vez eu e o amigo Paulo Mattos, que hoje reside em Torres, no litoral Norte gaúcho, estivemos na mercearia do Gil, na Vila Maria.

Corria o ano de 1988. E lá encontramos o “Canário Alegre”. Entre umas e outras geladas, entrevistamos o querido tradicionalista. E de gorjeta ele ainda nos brindou com a sua arte campeira, cantando, tocando a gaita apianada e declamando versos.

Lembro de um improviso seu, quando com maestria e inteligência declamou versos sobre o rio Vacacaí.

Eu conheci a morada do “Canário Alegre”. Muitas vezes lhe ofereci carona até sua casa, que ficava no Bairro Pró Morar, pertinho do rio Vacacaí. Lembro que ele construiu uma porteira, ao estilo das existentes nas estâncias, é claro, em condições bem mais humildes.

Tinha uma placa colocada bem no alto da porteira com os dizeres “Rancho da Amizade”. Apesar de ser um homem pobre, “Canário” gostava de receber amigos em sua modesta casa, onde nunca faltou um churrasco gordo e um bom chimarrão.

Algumas vezes o convidamos para participar dos inesquecíveis churrascos no “Bar do Tamika”, debaixo das frondosas árvores da Praça do Bairro Cohab, que o Bereci Macedo defende com galhardia, que chamem de “Menino Jesus”.

E lá se degladiavam em trovas memoráveis “Canário Alegre” e Carlos Alberto Moreira, que também era um excelente cantor, trovador e declamador.

Eu também guardo até hoje uma fita cassette com o Carlos Alberto improvisando uma “pajada”, sobre um político da cidade, que por razões óbvias não vou citar o nome.

Pena que não tenha mais o “Bar do Tamika”. Ele foi embora para Venâncio Aires, e não sei se voltou a morar em São Gabriel. Foi um tempo bom que deixou muita saudade. Vários amigos daquela época já partiram para outro plano espiritual.

Lembro de uma vez que estive em visita ao amigo Antônio Carlos Simonetto, o popular “Tontá”, em seu escritório de advocacia, na rua Mauricio Cardoso, e ele me falou de um artigo que escrevi na coluna “De Brasília”, em um jornal da cidade.

Acho até que ele exagerou no comentário, ao dizer que lendo o escrito, parecia se transportar para aquele local à sombra de árvores, fogo de chão e costela gorda pingando graxa na brasa. E, levantando uma fumaça cheirosa, que fazia a vizinhança ficar com água na boca. Mas essa é outra história.

“Canário Alegre” foi também radialista, tendo apresentado programas tradicionalistas nas Rádios São Gabriel e Batovi. Nessas ocasiões aproveitava para montar um verdadeiro escritório radiofônico, onde vendia seu peixe, fazendo propagandas de casas, terrenos e até gado, que oferecia na condição de corretor.

Era uma forma de aumentar os seus rendimentos e garantir o pão nosso de cada dia. Foi do tempo de outras legendas do tradicionalismo gabrielense, como o saudoso policial militar aposentado Marcelino Rios Medeiros, conhecido como "Lenço Azul" e Carlos da Silva Leite.

“Lenço Azul” foi um dos primeiros apresentadores de programas tradicionalistas na Rádio São Gabriel. Na sua residência na Vila Maria, mantinha um verdadeiro museu gaúcho.

CRIADO NA ZONA RURAL

Mas voltemos ao bar e mercearia do Gil e ao “Canário Alegre”. O nosso querido trovador nasceu em 7 de fevereiro de 1929. Coincidentemente o mesmo dia e mês em que Sepé Tiaraju, o herói índio morreu em 1756. E faleceu em 5 de julho de 1999, aos 70 anos de idade.

“Canário” nasceu na localidade da Palma, filho de Eugênio Brasil e Marcina dos Santos Brasil. Mas foi criado pela família Coelho Leal, perambulando pela zona de Suspiro, Tarumã e Jaguari.

Criado na campanha estudou em escola somente seis meses. Foi peão de estância por muito tempo, e também tropeiro. Trabalhou em lavouras de arroz e milho.

Até 1945 foi peão caseiro, sota-capataz de estância e tropeiro, quando, então, ingressou no Exército, antigo 3º RCM, atualmente 6º Batalhão de Engenharia de Combate.

Lembra que quando o marechal Mascarenhas de Morais retornava do teatro de guerra na Europa, teve o prazer e a oportunidade de apresentar armas a ele, quando desembarcou na gare da estação férrea de São Gabriel.

O comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), veio em trem especial. Na chegada a cidade foi acompanhado por duas guardas, representando às três unidades militares aqui sediadas na época, 9º RCI, 3º RCM e a Companhia de Transmissões.

Depois aconteceu uma recepção no Quartel do 3º RCM, ocasião em que o coronel Osvaldo Menna Barreto, comandante da Guarnição Militar, deu-lhe as boas vindas. Seguiu-se a celebração de uma Missa Campal frente a casa onde Mascarenhas de Morais nasceu, o prédio onde funcionou a antiga Coopex, na Praça Doutor Fernando Abbott.

Em 1946 “Canário Alegre” deu baixa do Exército e começou a trabalhar em granjas de arroz, a domar e fazer outros trabalhos campeiros.

Em 1949 resolveu ganhar a vida em outras plagas, indo para a Argentina. Ficou por lá até 1953, quando voltou para São Gabriel, para casar com Valda Marques dos Santos, com quem teve cinco filhos. E começou a trabalhar como servente de pedreiro e estivador.

Já existia na cidade a Rádio São Gabriel, fundada em 25 de outubro de 1949. O gerente na época em que o “Canário” retornou a cidade era o radialista Ataíde Ferreira, meu conterrâneo de Dom Pedrito.

Quando meu saudoso pai, José Tavares, arrendou a antiga Rádio Ponche Verde, de Dom Pedrito, hoje Rádio Sulina, conheci um irmão do Ataíde de nome Ernesto, que trabalhava na técnica de som.

O INÍCIO NA RÁDIO SÃO GABRIEL

A Rádio São Gabriel apresentava um programa gauchesco de grande audiência chamado “Inverno no Galpão”, dirigido pelo locutor Omar Barbosa, que depois foi trabalhar em rádios de Porto Alegre.

Para que o programa tivesse continuidade, Ataíde Ferreira convidou “Canário Alegre” para ser o novo apresentador. O gerente da emissora tornou-se amigo do tradicionalista, ao ouvi-lo cantar e trovar em festas na cidade.

E de fato isso aconteceu. “Canário” então deixou seu trabalho na Hidráulica onde estava há alguns meses, para se dedicar exclusivamente a nova tarefa.

No inicio tudo correu bem, até o dia em que a emissora atualizou os valores cobrados pelas publicidades. Com isso o programa praticamente ficou sem anunciantes e foi tirado do ar.

Já com família constituída e o nascimento do primeiro filho, “Canário” foi ganhar a vida trabalhando como esquilador. Algum tempo depois, as coisas se normalizaram e ele voltou aos microfones da Rádio São Gabriel.

O programa mudou de nome, em vez do tradicional “Inverno no Galpão”, passou a chamar-se “Campereando pelo Rio Grande”. Meses depois foram criados novos programas, “Rancho Alegre”, “Sentinela dos Pagos” e “Galpão da Querência”.

Trabalhou com o gerente Zenon Martins por muito tempo, até que houve um desacerto e “Canário” deixou a rádio onde militou por mais de 30 anos. Mudou de endereço, indo para a Rádio Batovi, apresentando um programa tradicionalista nas tardes de sábado.

Antes, o apresentador José Boaventura Félix, apresentava um programa, também gauchesco. E como era muito amigo do “Canário”, sempre aguardava sua chegada com alguma brincadeira. Até lembro de uma:

“Que bom que você já esteja “aqui”, “Canário”. Chegou bem devagar, não é verdade”? E “Canário”, sem perder tempo respondeu: “É que sou de casa, posso entrar pela porta dos fundos”.

O amigo “Canário” também teve intensa participação no CTG Caiboaté, onde foi Peão Caseiro da Invernada Campeira, tendo viajado com a entidade para apresentações artísticas em vários lugares do país.

Costumeiramente era convidado para festividades na 13º Companhia de Comunicações, desde o tempo em que era comandada pelo capitão Miller, depois pelo major Valter e mais tarde pelo capitão Deoclécio.

Começou a trovar em carreiras de cavalos, no Suspiro, quando conheceu o capitão Bicca, que era um exímio trovador. Tinha também o filho dele, o Maneco Bicca. Como tinha vontade de ser trovador, se juntou a eles, cantando versos de quatro linhas.

E depois encontrou os senhores Raul Sotero de Souza e Aristides Marques, que lhe deram muita força. E começou a trovar profissionalmente em carreiras, bailes e fandangos.

Até que conheceu Gildo de Freitas, que era quatro anos mais velho que ele e Francisco Bicca, com os quais se irmanou. E o Gildo então lhe deu um bom incentivo, tendo trabalhado com ele em parques e circos. E assim começou a carreira, tendo gostado e vencido vários trovadores. Enfrentou os melhores do Rio Grande do Sul.

Trovou até com o próprio Gildo de Freitas, e naturalmente que não teve condições de ganhar dele. Desafiou o “Garoto de Ouro”, Luiz Miller e Portela Delavi, entre outros.

Apresentou-se pela primeira vez como trovador em Itaqui, no ano de 1951, trovando com “Preto Limão”, já cancheiro no improviso. Surgiu nessa época, quando se apresentava em carreiras, na campanha, o apelido de “Canário Alegre”.

Outro fato marcante desse grande trovador é que no início das suas apresentações improvisava em trovas de quatro versos e também fazia poesia de improviso.

TROVA COM O PADRE POTRILHO

“Canário” recordou de uma trova que fez muitos anos atrás com o padre Paulo Aripe, também conhecido por “Padre Potrilho”. Ele gravou e deu uma cópia da fita de presente ao trovador gabrielense.

E fora disso lembrou de versos que fez em comemoração ao “Dia dos Médicos”, durante uma grande festa realizada no CTG Caiboaté. Contou que fez um verso para cada médico da cidade.

“Canário” não fazia grandes distinções entre os vários tipos de músicas cantadas no Rio Grande do Sul. Se dizia admirador de xotes, rancheiras e vaneirões. Não desprezava a chamada música nativa, se dizendo um fã das canções de Leonardo, que considerava um grande cantor e compositor.

Também gostava muito de Barbosa Lessa. Acompanhava com interesse os festivais nativistas. E confessava que sentava o pingo na rédea quando escutava uma cordeona choramingando e dois trovadores se dando “puaços”.

Ou escutando as nossas músicas crioulas da época do chão batido. Do caramanchão gostava muito e admirava. Nessa época era empresário do “Conjunto Irmãos Ramirez”, que costumava se apresentar no CTG Três Querências, do patrão Edgar Ramos. Gostava de ver a poeira na madrugada com uma gaita chorando e um violão beliscando. Achava lindo.

“Canário” considerava um grande avanço para as nossas tradições, o fato da gurizada desses novos tempos usar bota, bombacha e lenço no pescoço. E da proliferação de grupos musicais de jovens, como o “Marca Farroupilha”.

Contou ter conhecido em Caçapava um moço, filho de fazendeiro, lá da Estância Velha, de Cachoeira do Sul, que era sobrinho do doutor Milton Teixeira. A mãe dele era prima irmã do Chico Chiappetta.

De maneira que esse menino puxava cordeona, cantava músicas novas desses conjuntos, e era também um grande ginete. Era bem diferente daqueles outros magrinhos que foram para o iê-iê-iê.

“Canário” detestava manifestações racistas. Contou que certa vez, no interior do município, parece que no Batovi, houve um fandango organizado por um cidadão, que depois se elegeu vereador, cujo nome não vale a pena dizer.

Num grande salão foi colocada uma corda no meio, dividindo negros e brancos. Dizia que foi um fato bastante triste, lamentando que a Polícia não tivesse acabado com a festa e prendido o responsável.

Sobre a música pornográfica que andou sendo divulgada anos atrás no Rio Grande do Sul, como a composição “Bugio Gay”, “Canário” disse que sendo um índio grosso, criado na rigidez dos costumes da campanha, achava isso de mau gosto, fruto de pessoas que desejavam aparecer.

O que “Canário” gostava, na verdade, era de uma viola na madrugada, uma serenata e de gente batendo na janela de uma chinoca e cantando uma bela canção de amor.

AJUDOU MUITOS MÚSICOS

Uma coisa que o orgulhava bastante foi ter dado oportunidade para que muitos músicos vencessem na carreira, tendo começado em seus programas de rádio.

Foi o caso de Fernando Augusto, que começou com uma gaitinha. E o pai dele, no violino. Pediram uma oportunidade no programa, o que foi dado e depois ele foi para frente, comprou acordeona e conseguiu formar o seu próprio conjunto. Comprou carro, ganhou dinheiro, viajou e até gravou disco.

Tinha o José Boaventura Félix, que era do conjunto “Os Vaqueanos da Querência” e hoje tem programa na Rádio Batovi. Esse moço estava servindo e também começou no programa do “Canário”. E em agradecimento, o radialista foi convidado para ser o padrinho do conjunto, até porque foi ele que sugeriu o nome “Vaqueanos da Querência”.

O famoso cantor tradicionalista “Gaúcho da Fronteira”, quando da “1ª Campereada de São Gabriel”, se encontrou com “Canário”, que disse tinha muita vontade de conhecê-lo. E o “Gaúcho” retrucou: “Eu é que tinha vontade de te ver, te dar um abraço e dizer que te devo uma grande atenção”.

“Canário” perguntou por qual razão, e “Gaúcho” lhe disse: “Não lembra que num programa teu, quando tinha o Praça Hotel, em São Gabriel, veio um senhor gordo de Livramento, com um piazote dos 13 ou 14 anos, com uma gaitinha de 8 baixos? Era o meu tio e meu padrinho, que escutava o teu programa. E o menino era eu. Foi a primeira vez que toquei em rádio.”

Em agradecimento, “Gaúcho da Fronteira” fez com que “Canário Alegre” autografasse o seu primeiro LP, que o nosso querido amigo guardou como valiosa relíquia até o dia de sua morte.

“Canário” garantiu que não juntou dinheiro na sua carreira artística. Não tinha conta bancária. No rádio não tinha carteira assinada, vivia das comissões de propaganda que conseguia e dos terrenos, casas e gado que comercializava.

OSÓRIO SANTANA FIGUEIREDO

Como faço em cada matéria que escrevo sobre São Gabriel e os seus vultos mais brilhantes, procuro o historiador Osório Santana Figueiredo, que sempre tem um algo a mais para contar. E com “Canário Alegre”, não foi diferente. Disse o amigo Osório:

“Conheci por demais o velho “Canário Alegre”, nome artístico, que ele se pôs no quartel. Em 1946 sentamos praça no extinto 3º RCM. O Canário veio no mesmo trem para sentar praça comigo. Éramos da classe de 1924.

Ele começou a trovar com os soldados no Esquadrão. Depois o Carlos da Silva Leite, lançou o primeiro programa de cunho tradicionalista na Rádio São Gabriel, “O Inverno no Galpão”.

O Lázaro Xarão fazia parte e levou o “Canário Alegre” para o Rádio e fez grande sucesso. Na época eu vivia lá pela Rádio e não lembro do Omar Barcellos. Outro que não ouvi falar é o tal capitão Bicca.

O Marechal Mascarenhas chegou em São Gabriel em 1946. Éramos recrutas. Não lembro do “Canário Alegre” fazer, nessa ocasião, qualquer comentário. Talvez em outras ocasiões que o Marechal esteve em São Gabriel. Mas não sei.

E ganhou fama cantando e trovando nos CTGs e viajando para dar shows. O “Canário Alegre” viajou e trovou com quantos repentistas encontrou. Lembro de Gildo de Freitas e Garoto de Ouro. Ele viveu uma grande temporada e tornou-se famoso. 

Era muito apreciado e todo o mundo gostava dele. Viveu sua época, o seu apogeu em São Gabriel. Nasceu na Palma, distrito de São Gabriel. Era da minha idade. Deveria estar hoje com 90 anos, se vivo fosse.

Não lembro quantos anos faz que ele faleceu. Depois que enviuvou ficou só e sozinho, se judiou muito e terminou morrendo lá pelos fundos da COHAB, onde morava. Só teve filhos homens e não teve sorte com eles”.

“Canário” foi sempre assim: um homem simples que soube usar o talento do improviso para deixar seu nome gravado de maneira definitiva na história gabrielense e gaúcha. Sempre vestia trajes gaúchos, tal o seu amor pelas nossas mais caras tradições.

“Canário Alegre” foi uma figura sem igual na vida de São Gabriel. Não tinha posses, apenas uma pequena casa na periferia da cidade. Mas sempre tinha um sorriso nos lábios. Era um homem dócil, respeitador, calejado nas intempéries da vida e escolado na faculdade do mundo.

Pena que a cidade não lhe dê o valor merecido. Não tenho certeza, mas acho que ele nem é nome de rua. Apenas uma homenagem sei que lhe deram, foi na Rádio Batovi, onde existe o “Galpão Canário Alegre”, utilizado em festas e programas radiofônicos.

ANDARENGO NEGRO

A professora Egiselda Xarão, de Porto Alegre, que faz estudos sobre as trovas no Rio Grande do Sul, fez uma bonita poesia intitulada “Andarengo Negro”, em que homenageia o nosso “Canário Alegre”. Publico o último verso:

“Assim vai vivendo/Negro Guasca,/Alma Branca do Improviso/cantando sempre contente/nos rodeios do rincão./É um canário que canta/invocando a tradição;/Canário que canta alegre/
... Alegre, por vocação!”

Fico muito feliz em poder fazer esse resgate. E agradeço a Deus por ter tido um dia a felicidade, junto com o amigo Paulo Mattos, de gravar um depoimento de “Canário Alegre”, contando detalhes de sua existência. E de guarda-lo até hoje, e assim poder fazer justiça a quem muito fez por nossa terra e nossa gente.

E isso me consola pelo fato de não ter conseguido contar a história da vida de Joel Moreira, um dos grandes nomes da radiofonia local, o que me causou uma frustração muito grande. Havia combinado uma entrevista com ele, mas o destino quis que falecesse poucos dias antes.

O mesmo aconteceu em relação a Rui Grillo, um dos maiores nomes da radiofonia da cidade de Rio Grande, onde morei por muitos anos. Ele morreu antes que a entrevista que marquei com ele fosse feita.

E para concluir este trabalho de saudade, nada melhor que divulgar os versos que o “Canário” nos ofereceu, no dia em que gravamos sua história.

Eu quero pedir licença/Aqui na Vila Maria/Ao contar a minha vida/Vou cantar com alegria/Um abraço para o Paulo e outro pro Nilo Dias.

Meu prezado Nilo Dias/Que há muito eu conheci/Costeando o Vacacaí/E o prezado amigo Paulo lá da Rádio Batovi.

Lá na Rádio Batovi/Aproveitando este horário/Fazer versos de repente/Isto é muito necessário/E queiram aceitar um abraço do velho amigo “Canário”.

Ao abrir minha cordeona/Eu vejo uma grande razão/De estar na sua programação/Por isso faço essa homenagem/Do fundo do coração.

Vou cantar mais esse verso/Com prazer e boa fé/Que Deus ajude esses moços/O nosso Santo Nazaré/Está chegando a minha hora/De ir lá pro Caiboaté.

Deus sempre me ajudou/A fazer versos de repente/Por isso que eu sempre peço ao Pai Onipotente/ Derramai paz e saúde/Nos coração dessa gente.

Este é o último verso/Eu vou dar por terminado/Por tudo que me fizeram/Eu fico muito obrigado/E a esses dois grandes amigos/O meu abraço apertado.

Para encerrar, uma sugestão. Que se faça justiça a “Canário Alegre”, dando seu nome a alguma instituição importante da cidade. Quem sabe o “Sobrado da Praça”. (Texto: Nilo Dias)

Anos 1980. "Canário Alegre" e Paulo Santana, durante apresentação do "Jornal do Almoço", em São Gabriel. (Foto> Divulgação - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Uma valiosa recordação

Na foto publicada no Facebook de Ana Pacheco da Costa, na ordem: Jane Rubim, Lizete Moura (saudades), Lélia lopez, Rosinha Patchwork, Helenice Trindade de Oliveira, Regina Fiori e Cleiva Moura (saudades).


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Causos: riqueza cultural gaúcha (Final)

O poeta e escritor gabrielense, Fernando Almeida Poeta, nos brinda com um conto (ele garante que a história é verídica), sobre um lobisomem que costumava aparecer em algumas plagas do município de São Gabriel. Que os nossos leitores se deliciem com a história.

Conheci um senhor chamado João Honório, morador de uma localidade denominada Rincão do Claro, no interior do município de São Gabriel. João Honório era um curandeiro que receitava remédio para todo aquele povo, pois ali não havia sistema de saúde, pelo fato de ficar muito distante da cidade. Na pratica funcionava muito bem, talvez mais valesse a fé do que o café. Em terra de cego quem tem um olho é rei.

Numa noite de sexta-feira, lua cheia, João Honório voltava do atendimento de um paciente, chegando à sua casa, ali pela meia-noite. Ao abrir a cancela do potreiro deparou-se com um bicho muito esquisito: orelhudo, pelagem longa e caminhava meio cambaleando, junto de seus dois cachorros.

Seguiram ao lado de seu cavalo, em direção ao rancho. João Honório não era um índio muito assustado, mas, naquela hora, arrepiou o pelo. Por sorte o bicho encarreirou em direção ao arvoredo, e João Honório aproveitou para desencilhar o cavalo no galpão e entrou pra dentro de sua moradia.

Era um lobisomem, uma mística de lobo com homem, mais pra lobo que pra homem. E o cachorro grande se tornara amigo dele, mas um pequeno, seu inimigo. Continuaram embaixo das laranjeiras até a madrugada. João Honório sem saber o que fazer ficava espiando o bicho pelas frestas do rancho. Até enquadrou na mira de sua arma, mas faltou coragem para atirar.

A cachorrada da redondeza fazendo alarido, e uivando como se presentissem que tinha algo estranho por aquelas bandas. Talvez o próprio vento inalasse um tipo de cheiro por aqueles pagos afora. No outro dia o comentário foi grande pela vizinhança. Alguns riam debochando do fato, a maioria fechava as casas cedo e poucos os que se arriscavam a sair à noite.

Mas o bolicho estava sempre cheio de fregueses até altas horas. E o comentário era um só, não se tratava de outro assunto. Pedro Carvoeira não estava gostando muito daquela situação, e até falou se encontrasse o bicho iria pegá-lo pela orelha e levar lá no bolicho para lhe oferecer um trago de canha. Na verdade ele não acreditava em assombração.

Pedro Carvoeira naquela mesma noite estava chegando à sua casa e o lobisomem o esperando, bem na porta do galpão onde dormia. Pedro Carvoeira usava dois 38 na cintura. De vereda deu-lhe dois tiros, mas nem cócegas fez no animal. Pedro conseguiu abrir a porta do galpão, mas o lobisomem entrou primeiro e ficou atrás da cama.

Os olhos eram duas bolas de fogo. Pedro pegou uma taquara comprida para cutucar o bicho, mas não conseguiu acerta-lo. Desistiu e foi dormir no quarto de seus pais.

Esse lobisomem virou atração naquela localidade. Andava pela estrada, visitava as casas de alguns moradores, perturbando à noite. Adão Ligeiro e Caburé estavam indo estrada afora numa noite de luar. Ao cruzarem o Passo das Carretas, Caburé num olhar de relancina percebeu que vinha um cusquinho a trotezito pela estrada. Mas nada de mais, pois era normal transitar guaipeca à noite.

Mas ficou estranho quando o animalzinho, na medida que se aproximava, começava a mudar de tamanho, para maior, cada vez maior, e passou entre os dois. Era um enorme "guaipecão" e se mandou a lacria. “Dizem que mataram aquele lobisomem, mas eu nunca vi o couro."

Escrito a ponta de facão

Já este caso, “As Escrituras Sagradas”, de autor desconhecido, foi encontrado escrito a ponta de facão no balcão de um bolicho, hoje tapera, no “Passo do Elesbão”, Quinto Distrito de Cacequi, no tempo em que este fazia parte do município de São Gabriel:

Pois não sei se já les contei os causo das Escritura Sagrada. Se não les contei, les conto agora. A história essa é meio comprida, mas vale a pena contá por causa dos revertério.                   

De Adão e Eva acho que não é perciso contá os causo, porque todo mundo sabe que os dois foram corrido do Paraíso por tomá banho pelado numa sanga.

Naqueles tempo, esse mundaréu todo era um pasto só, sem dono, onde não tinha nem dele nem meu. O primeiro índio a botá cerca de arame farpado foi um tal de Abel. Mas nem chegou a estendê o primêro fio porque levou um ontaço nos peito do irmão dele, um tal de Caim, que tava meio desconforme com a divisão.                           

O Caim, entonces, ameaçado de processo feio, se bandeou pro Uruguai e deixou o filho dele, um tal de Noé, tomando conta da estância.   

A estância essa ficava nas barranca de uma corredêra e o Noé, uns ano despois, pegou uma enchente muito feia pela frente. Côsa munto séria... Caiu água uma barbaridade! Caiu tanta água que tinha até índio pescando jundiá em cima de cerro.

O Noé entonces botou as criação em cima de uma balsa e se largou nas correnteza, o índio velho. A enchente era tão braba que quando o Noé se deu conta a balsa tava atolada num banhado chamado “Delúvio”. Foi aí que um tal de Moisés varou aquela água toda com 20 junta de boi e tirou a balsa do atolêro.         
                        
Bueno, aí com aquele desporpósito, as família ficaram amiga.
A filha mais velha do Noé se casou-se com o filho mais novo do Moisés e os dois foram morá numa estância muito linda, chamada estância da “Babilônica”.

Bueno, tavam as família ali, tomando mate no galpão, quando se chegou um correntino chamado Golias, com mais uns 30 castelhano do lado dele, abriram a cordeona e quiseram obrigá as prenda a dançá uma milonga.

Foi quando os velho, que eram de muito respeito, se queimaram e deu-se o entrevêro. Peleia braba, seu.

O correntino Golias, na voz de vamos, já se foi e degolou de um talho só o Noé e o velho Moisés. E já tava largando planchaço em cima do mulherio quando um piazito carretêro, de seus 10 ano e pico, chamado Davi, largou um bodocaço no meio da testa do infeliz que não teve nem graça. Foi me acudam e tou morto.

Aí a indiada toda se animou e degolaram os castelhano. Dois que tinham desrespeitado as prenda foram degolado com o lado cego do facão. Foi uma sangüêra danada. Tanto que até hoje aquele capão é chamado de Mar Vermelho.

Mas entonces foi nomeado delegado um tal de major Salomão. Homem de cabelo nas venta, o major Salomão.

Nem les conto! Um dia o índio tava sesteando quando duas velha se bateram em cima dum guri de seus seis ano que tava vendendo pastel.

O major Salomão, muito chegado ao piazito, passou a mão no facão e de um talho só cortou as velha em dois. Esse é o muito falado causo do “Perjuízo de Salomão” que contam por aí.

Mas, por essas estimativas, o major Salomão, o que tinha de brabo tinha de mulherengo. Eta índio bueno, seu. Onde boleava a perna, já deixava filho feito. E como vivia boleando a perna, teve filho que Deus nos livre. E tudo com a cara dele, que era pra não havê discordânça.

Só que quando Deus Nosso Senhor quer, até égua véia nega estribo. Logo a filha das predileção do major Salomão, a tal de Maria Madalena, fugiu da estância e foi sê china de bolicho. Uma vergonhêra pra família!

Mas ela puxou à mãe, que era uma paraguaia meio gaudéria que nunca tomô jeito na vida. O pobre do major Salomão se matou-se de sentimento, com uma pistola “Eclesiaste” de dois cano.

Mas, vejam como é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casou-se três anos despois com um tal de coronel Ponciano Pilatos. Foi ele que tirou ela da vida. Eu conheço uns três causo do mesmo feitio e nem um deles deu certo.    
            
Como dizia muito bem o finado meu pai, mulher quando toma mate em muita bomba, nunca mais se acostuma com uma só.

Mas nesses contraproducente, até que houve uma contrapartida.
O coronel Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tiveram 12 filho, os tal de “aposto”, que são muito conhecido pelas caridade que fizeram. Foi até na casa deles que Jesus Cristo churrasqueou com a cunhada de Maria Madalena, que despois foi santa muito afamada. A tal de “Santa Ceia”.

Pois era uns tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinham perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no potrêro, chamada “Samaritana”. Um rico animal, criado em casa, que só faltava falá. Pois tiveram que se desfazê do pobre.

E como as desgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí que estouraram as revolução. Os maragato, chefiado por um tal de coronel “Jordão”, acamparam na entrada da Vila. Só não entraram porque tava lá um destacamento comandado pelo tenente “Lázo”, aquele mesmo que por duas vez foi dado por morto.

Mas aí um cabo dos provisório, um tal de cabo “Judas”, se passou-se pros maragato e já se veio uns tal de “Romano”, que tavam numas várzea, e ocuparam a Vila.

“Nosso Senhor” foi preso pra ser degolado por um preto muito forte e muito feio chamado “Calvário.” Pois vejam como é a vida. Esse mesmo preto “Calvário”, degolador muito mal afamado, era filho da velha “Palestina”, que tinha sido cozinhêra da “Virge Maria”.

Degolador é como cobra, desde pequeno já nasce ingrato. Mas entonces botaram “Nosso Senhor” na cadeia, junto com dois abigeatário, um tal de “João Batista” e o primo dele, “Heródio dos Reis”. Os dois tinham peleado por causo de uma baiana chamada “Salomé” e no entrevero balearam dois padre, monsenhor “Caifás” e o cônego “Atanásio”.

Mas aí veio uma força da Brigada, comandada pelo coronel “Jesus Além”, que era meio parente do homem por parte de mãe e com ele veio mais três corpo de provisório e se pegaram com os maragato. Foi a peleia mais feia que se tem conhecimento. Foi 40 dia e 40 noite de bala e bala.

Morreu três santo na luta: “São Lucas”, “São João” e “São Marco”. “São Mateus” ficou três mês morre não morre, mas teve umas atenuante a favor e salvou-se, o índio...

“Nosso Senhor” pegou três balaço, um em cada mão e um que varou os pé de lado a lado.

Ainda levou mais um pontaço do mais velho dos “Romano”, o “César Romano”, na altura das costela. Ferimento muito feio que “Nosso Senhor” curou tomando vinagre na sexta-feira da paxão...

Mas aí, “Nosso Senhor” se desiludiu-se dos home, subiu na Cruz, disse adeus pros amigo e se mandou-se de volta pro Céu.

Mas deixou os 10 mandamento, que são cinco e que se pode muito bem acolher em dois: 1º - Não se mata home pelas costa, 2º - Nem se cobiça mulher dos ôtro pela frente.

As aventuras de Hugo Borges Leite

Umas histórias que foram contadas pelo Ernande Vargas, do Caiboaté, ao amigo Napoleão Langendorf Leite, funcionário da Corsan, hoje trabalhando em Rosário do Sul.

Lá no interior de São Gabriel, tinha o seu Dário dono de uma casa comercial que vendia de tudo, mas não fiava de jeito nenhum.

Um certo dia chegou lá o senhor Hugo Borges Leite e disse ao seu Dário, que estava com uma certa dificuldade e queria cinco pila emprestado. O seu Dário tirou o dinheiro da gaveta e disse: "Não tem problema te empresto o dinheiro".

Ele pegou o dinheiro na mão e disse, "agora me bota um trago". O seu Dário deu uma retrucada, e ele disse: "não estou lhe pedindo fiado, pedi foi o dinheiro emprestado". Hugo Borges Leite, nasceu em 01-04-1923 e faleceu em 05-11-1982.

Como o pessoal gostou bastante da primeira historinha, o amigo Napoleão Langendof Leite mandou mais uma aventura de seu pai.

Salgando a carne

A exemplo da outra, esse fato é real e aconteceu quando o seu Hugo Borges Leite era jovem e solteiro. Ele estava num baile lá pelas bandas de Vista Alegre, daqueles de antigamente onde sempre tinha churrasco gordo. De repente deu um tremendo entrevero com ele, na sala da casa.

Uma turma mal encarada resolveu mandá-lo embora. Era empurrão pra cá e empurrão pra lá. Nesse vai e vem ele foi parar perto de onde o churrasco estava sendo assado. O assador era o avô do Napoleão, o seu Ataliba da Costa Leite, ou seja, o pai do seu Hugo. Como eram muitos os desafetos, e seria suicídio enfrentar toda aquela gente, o seu Hugo resolveu ir embora.

Mas antes chegou junto de seu pai e disse no ouvido: "Vou dar uma salgada nessa carne". Mijou em cima de todo a churrasco e se mandou a cavalo para casa. Como não havia outra solução o meu avô deu mais uma passada no fogo para não deixar cheiro e mandou para o povo se alimentar. Pelo que se sabe, ninguém reclamou. Pelo contrário, teve gente que repetiu e engraxou os bigodes. E não sobrou nada do churrasco.

Levando fora

Mais uma historinha do seu Hugo. Quando jovem ele gostava muito daqueles bailes de campanha, temperados com churrasco. E o assador era sempre o pai dele.

Certa ocasião aconteceu um baile em Vista Alegre. E lá estava presente uma prima do seu Hugo, muito bonita, mas eles não se "bicavam" de jeito nenhum. Como o que ele mais gostava era de confusão, logo a convidou para dançar. Lógico que ela não aceitou, e já veio a gozação dos amigos:

“Levou um carão Hugo”. E ele bem tranquilo disse que foi apenas a "potranca zaina que negou o estribo". Deixou terminar a “marca”, dançou a próxima com outra moça e voltou a convidar a prima para dançar. Novamente ela não aceitou.

Aí ele foi nos amigos e disse que a "potranca zaina" negara o estribo novamente. Em seguida foi lá nos fundos e comeu uns pedaços de churrasco e engraxou bem as mãos com graxa e carvão juntos.

E outra vez convidou a prima para dançar. Novamente ela não aceitou. Hugo voltou na frente dos amigos e repetiu: “Negou o estribo mais uma vez, mas garanto para vocês que eu monto”.

Voltou no churrasco, comeu um mais um pedaço e voltou a sujar as mãos o mais que pode. Retornando ao salão, convidou ela mais uma vez para dançar. Já cheia com a insistência do primo, e também para se livrar dele, imaginou que se dançasse uma vez seria o suficiente para se ver livre.

E dançou só uma mesmo, pois foi a última música da noite. Seu Hugo limpou bem as mãos engraxadas e encarvoadas no vestido branco e lindo da prima. Ela foi para o quarto e não apareceu mais na sala.

Desmanchando comicio

Seu Hugo quando jovem fazia parte do Partido Libertador (PL). Certa ocasião havia um comício lá no seu Benedetti, do engarrafamento, no Passo da Lagoa. Ele era do antigo PTB. Como seu Hugo já tinha tomado umas que outras, mesmo sendo amigo dos Benedetti, resolveu desmanchar o comício.

Tinha um monte de gente gritando “viva o PTB”, “já ganhou”, “já ganhou”. Seu Hugo, que sempre lidou bem com cavalos, resolveu entrar comício a dentro, jogando sua montaria contra o povo e gritando “Viva o Partido Libertador”, mostrando seu lenço vermelho no pescoço.

Não deu outra, confusão formada, gente correndo para todos os lados, até que os donos da festa cívica botaram o seu Hugo rua afora. E o comício pode recomeçar na boa, com inflamados discursos contra a presença do intrépido “Libertador”.

Carta de recomendação

Agora, sim, para encerrar. De vez em quando seu Hugo dava algumas agitadas, por isso chegou ao ponto de ser preso pela autoridade da Campanha, por 14 vezes num ano só. A autoridade era, nada mais, nada menos, que o seu Euclides Bica.

Seu Hugo andava meio complicado e necessitava mudar de querência por uns tempos. Mas para isso precisava de uma carta de recomendação. Encontrou o seu Euclides que ia lá para as bandas do "Pau Fincado" e pediu para ele a tal carta.

A resposta foi bem seca: "Hugo, só posso te dar carta de má conduta". Depois de ouvir isso, ele nem retrucou, ia para o lado contrário, ou seja para o lado da casa do seu Euclides. Saiu a "trotezito" no más. Ao chegar na casa  do seu Euclides, disse para a filha dele:

"Rola" o teu pai disse para ti preencher para mim, uma carta daquelas de bons antecedentes que tem aí assinada, que eu te pago dois pilas. Ela de imediato, disse: "Está bem Hugo, vou fazer para ti". Dentro de minutos estava pronta, e Hugo pagou e foi embora.

Daí mais ou menos uma semana, quando o seu Euclides voltou, ele já tinha pego o trem e se mandado para os lados da Argentina. (Pesquisa: Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS)

Fernando Almeida Poeta, sendo entrevistado por Evaristo de Oliveira.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Causos: riqueza cultural gaúcha (1)

São Gabriel sempre teve fama de ser uma cidade que gosta de cultuar o tradicionalismo. São inúmeros os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e Piquetes de Tradições Gaúchas (PTGs). Os desfiles da Semana Farroupilha costumam reunir milhares de cavalarianos e prendas, exibindo cavalos que são cuidados o ano inteiro somente para esse dia.

Por aqui são realizados rodeios que ultrapassam as fronteiras do município, como o “Rodeio Internacional do Mercosul”, promovido pelo CTG Tarumã. Também o CTG Caiboaté realiza anualmente o seu rodeio, que costuma receber tradicionalistas de todo o Estado e até de fora dele.

Temos também as concorridas “Penhas”, que se constituem em “fandangos” acompanhados de pratos da culinária gaúcha e apresentações de danças do nosso folclore. Quando morava em São Gabriel fui em muitas dessas festas, que na sua maioria, são excelentes.

São Gabriel poderia ter se destacado mais ainda no culto as tradições, se tivesse dado continuidade ao “Concurso de Causos”, que se realizou com grande sucesso em 1981 e 1982, durante o “Encontro Gaúcho de Literatura Oral”, nas comemorações da “Semana do Carreteiro”.

Foi uma realização dos ex-prefeitos Ramiro da Silva Meneghello e Balbo Teixeira, que aconteceu, em apenas duas vezes. As razões que levaram a não continuidade do festival, não sei, apenas lamento. Hoje, outros eventos, como o “Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha (Fenart”) realizam “Concursos de Causos” em outras localidades.

E até os causos apresentados no Concurso de São Gabriel, que estavam gravados em fita cassete e se encontravam na Secretaria de Turismo, desapareceram. Eu sei quem as levou, e “esqueceu” de entregá-las de volta. Mas como não sou “dedo duro”, deixa isso para lá.

De qualquer maneira consegui resgatar alguns desses casos, poucos, é verdade, mas de qualquer maneira servem para lembrar o que foi aquele magnífico evento. E se alguém, por acaso, tem mais algum guardado em suas casas, poderia também torna-los público. A cultura da cidade agradeceria.

O filme "Contos gauchescos - Simões Lopes Neto nas telas", que
relata a vida do grande escritor pelotense, teve parte das filmagens gravada em São Gabriel, no ano de 2008.

Os dois curtas metragens, "Os cabelos da china" e "Jogo do osso", tiveram como cenários a Chácara dos Caum, Estância Inhatium, Estância Santa Marta e outros locais na zona rural de São Gabriel.

Os outros quatro curtas metragens, todos de 25 minutos cada, que completam o filme, são adaptações dos contos "As trezentas Onças", "Contrabandista", "No Manantial" e "Negro Bonifácio".

Relembrando o festival

Mas chega de papo, vamos ao que interessa.  O causo denominado “Homero” foi apresentado pelo tradicionalista Nei Machado, que representou o Pólo Cultural de Vacaria no “Concurso de Causos” de São Gabriel:

O Homero era o mais novo de seis irmãos que moravam num fundo de rincão. Guri duns 20 anos, desde cedo se acostumou a ouvir as façanhas dos irmãos mais velhos: era lorota, briga, baile, gauchada. E o Homerinho ficava encimesmado: "Um dia, ainda vou fazer alguma cousa como esses meus irmãos!".

O Homero tinha duas particularidades: a primeira era uma vontade louca de conhecer a cidade, um baile do povo, uma tasca; a segunda era que tinha um medo que se pelava todo de polícia, porque um irmão tinha sido lastimado, um outro morto e ainda um terceiro tinha levado uns “planchaços” de Brigadiano. E ele tinha, então, um medo que se pelava todo de polícia.

Minto! O Homero tinha três particularidades: medo de polícia, uma vontade grande de conhecer uma tasca e uma ânsia louca de comprar um revólver. "Um dia ainda vou ter um revólver!", dizia.

Acontece que ele era “changador”. Quando aparecia serviço, ele pegava. Às vezes, ficava em casa de companheiro da mãe, mulher já bem velha, quando os irmãos mais velhos saíam. Um dia apareceu um comparsa de esquila. Era mês de setembro, quando logo se iniciam as tosas de ovelha.

No segundo dia, um tosador cansou, e o Homero estava lá. O chefe da comparsa perguntou ao patrão: “Não terá alguém que pegue na tesoura?”. “Olha, tem o Homero. Quem sabe não dá?” Tocaram o Homero na tesoura. O homem se revelou um aço! E ficou de efetivo na comparsa.

Começou a ganhar dinheiro, o Homero. E sempre com aquele troço na cabeça: "Vou conhecer a tasca e vou comprar um revólver!". Começou a ganhar dinheiro, ganhar dinheiro. E terminou a esquila. Ele pegou o dinheiro, encilhou o cavalo e tocou pra cidade. "É hoje!”

E começou a pensar: “Mas conheço a tasca ou compro o revólver antes? Se eu comprar o revólver e for pra tasca, vai dar um baita bochincho! Vou fazer o seguinte: vou na tasca primeiro e amanhã compro o revólver!"

Assim foi. Tomou um trago no bolicho e comeu salame com bolacha. O bolicheiro tinha um revólver. Homero já deixou entabolado o negócio e disse pro bolicheiro: “Cuida do meu cavalo com os arreios e da minha faca. Amanhã, bem cedo, pego o revólver”. E saiu, o Homero.

Por informação do irmão, ele sabia o rumo da tasca. Dali uns 500 metros achou armado o “moçorongo”. Foi-se chegando, por longe, assim como quem tropeia zorrilho: devagarinho e bem por longe. Fez a volta no salão, devagarinho.

Daí há pouco veio uma moça: “Vamos dançar, Baixinho?” “É! Se for preciso, bamo.” E saiu dançando, como quem dança de meio-luto: bem abaixadinho, pelo cantos. Dança daqui, dança dali, sentou. Uma Brahma. Ali pela sexta Brahma o Homero era dono do salão. “É comigo mesmo, hoje!”

Quando o sol levantou pegou o Homero saindo da tasca, numa baita ressaca e sem um tostão no bolso. "E agora? O que é que eu vou fazê!". Chegou no bolicho. O bolicheiro deu um mate gordo pra ele. O Homero foi perguntando: “Quanto tu me dá pela faca?” “Dou 50 pila”, disse o bolicheiro.

Era o que custava uma passagem da cidade à estação do Homero. E ainda tinha de caminhar duas léguas a pé. “Então tá. Tu me dá 50 pela faca e eu te dou meu cavalo encilhado pelo revólver.“

O xiru olhou o cavalo. Sabia que era bom. Viu os arreios: mais ou menos. “Tá feito o negócio!” Homero pegou o revólver. Era o que mais queria! E o baixinho saiu meio ladeado, com aquele baita 38 na cintura.

Comprou uma passagem de segunda e entrou no vagão. Logo que entrou, sentou pra direita. E assim ficou, no meio daquele mundo de gente, sozinho no banco. Dali a pouco saiu o trem. E ele com aquele revólver... "Tomara que esse trem chegue duma vez na minha estação", pensou o Homero.

Lá na ponta do vagão abriram a porta. E ele viu, assim por cima do banco, que levantou um quepe. O índio velho que vinha disse: “Revistas!” Aí o Homero se apertou! O xiru velho chegava num banco, noutro e vinha vindo... - "Ai, ai, ai... tô liquidado!", pensava o Homero.

Esse xiru, na verdade, vendia bilhetes de loteria e revistas, umas até do “Exército da Salvação”. E vinha: “Trinta-e-dois e trinta-e-oito! Pra hoje!” E o do Homero era 38! A la pucha, chê! E ele pensava: "Tô arrebentado!".

E o vivente vinha num banco, chegava noutro: “O Policial! O Detetive! Salva Tua Alma!” “Tô roubado!", pensava o Homero. Um gaúcho comprou todo o 1932 que o vendedor tinha. E o bilheteiro: - “O Trinta-e-dois já foi! Agora, o 38!”

"Aaaaai... agora não escapo!", pensou o coitado do Homero. “O Policial!” E o vendedor de bilhetes chegou bem perto do Homero e sampou, forte: “Trinta-e-oito!” E o baixinho Homero, já não aguentando mais aquela aflição braba, soltou, já aliviado: “Tá, seu guarda! Pega essa porquera logo, que desde que eu comprei essa desgraça foi só pra me incomodá!!!”

A presença de Nico Fagundes

O grande tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, também participou do “Concurso de Causos” de São Gabriel, representando o Pólo Cultural do Alegrete. Ele apresentou o causo “Candinho Bicharedo”:

Se eu falo no “Candinho Bicharedo”, primeiro, porque era contador de causo; segundo, porque ele peleou em 23, do lado dos Maragatos. Mas era Maragato dos quatro costados! Quando cercaram Uruguaiana, no primeiro dia de abril de 23, ele se juntou com as forças de Honório Lemes.

E no combate do Ibicuí da Armada, onde Flores da Cunha atacou com ímpeto enorme, matou tanta gente que os urubus fizeram cerimônia: só comiam de capitão pra cima...

Um piquete de Flores da Cunha aprisionou “Candinho Bicharedo!” Degola, não degola... disseram pro Flores degolar. “Não, o Candinho Bicharedo!! Que é isso! Vão tomar banho! O Candinho é uma glória aqui em Uruguaiana, aqui nesta região da Fronteira... Como é que vamos degolar?”

“Mas, ele é um contador de causo! Muito mentiroso!” “Não, não, o Candinho é sagrado”, disse o Flores. “Dêem ele prum soldado cuidar.” O soldado ficou cuidando do “Candinho”. Todos os dias o “Candinho” ia ao ouvido do soldado:

"É, vocês passaram no Ibicuí da Armada (onde Honório Lemes ofereceu uma resistência muito grande), mas passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!".

Com o passar do tempo, o soldado foi enchendo a paciência e não agüentou mais. Passou o “Candinho” pro cabo! O cabo ouvia, todos os dias: "É. Vocês passaram no Ibicuí da Armada. Mas, passaram porque tinham mais gente, mais arma. Nós semos muito mais homem que vocês!".

O cabo não agüentou e passou o “Candinho” pro sargento. O sargento passou pro capitão. O capitão passou prum major; dizem até que era o major Laurindo Ramos, lá do Itaqui, que não era de laçar com sovéu curto... E ninguém mais agüentava o “Candinho”.

Até que passaram pro próprio Flores da Cunha. “Olha, Coronel Flor, não agüentamos mais o “Candinho”! Só o senhor, pra dar um jeito na vida dele!” “Mas, o que é que ele faz?” “Ele fica incomodando a gente, à roda do dia. Já estava com vontade de mandá degolá!”

“Não, não e não! Me passem o “Candinho”. (O Dr. Flores da Cunha tinha sido intendente em Uruguaiana; comandava a Brigada do Oeste, na Fronteira da República, com o Coronel Neco Costa, aquela gente toda!).

Bueno, e pro Flores o Candinho cevou o mate, mas um mate véio espumando como apojo de brasina! Alcançou o mate pro Dr. Flores, que era Coronel Provisório, mas todo mundo chamava de General. Diz o “Candinho”:

"Óia, General Flor, vocês passaram no Ibicuí da Armada, mas só passaram porque tinham mais gente, mais arma que nós. Nós semos muito mais homens que vocês!".

E o Flores, que já sabia da história e que também não era de pelar com a unha, respondeu: “Olhe, “Candinho”, tu é Maragato, não é? - "Sim, claro. Sou Maragato". “Agora, tu vai vestir a farda azul dos meus Provisórios e botar um lenço branco no pescoço, jurar a Bandeira do lado do Governo, senão vou te mandar degolar.

Tu sabe que essa indiada tá louca pra te degolar; eu é que não deixei!” Na voz da degola, o “Candinho Bicharedo” achou que já tava com idade de sentar praça! E sentou.

Arrumaram uma farda azul pra ele. Aquele bonezinho, uma borda vermelha aqui em cima, e ataram um lenço branco bem nas pontas; mandaram o “Candinho” se apresentar pro Flores e bater continência.

O Candinho, travestido de “Chimango”, se apresentou ao Flores. Enquadrou o corpo, bateu continência. O Flores chasqueou: “E agora, “Candinho”? O que tu acha do combate do Ibicuí da Armada?” O “Candinho” não se apertou:

“É, General. "Nós" passemos, mas só "passemos" porque "nós" tinha mais gente, mais arma. "Eles" são muito mais homens do que "nós" !!!

O grande vencedor

O causo “Porto dos Assombros”, narrado por José Fontoura, de Dom Pedrito, inscrito pelo Pólo Cultural de Bagé, conquistou o 1. lugar no "Concurso de Causos do I Encontro Gaúcho de Literatura Oral", realizado de 8 a 10 de fevereiro de 1982, em São Gabriel.

O causo foi recolhido pelo tradicionalista José Itajaú Oleques Teixeira, administrador do "Sítio Bombacha Larga”, em Guará (DF), que também resgatou os demais causos do evento, aqui contados.

Sou pedritense. Moro onde nasce o rio Santa Maria. Nesse rio tem uma zona determinada; lugar que, na revolução de 93, mataram uma camarilha de velho. Naquela revolução, era balaço pra cá, faconaço pra lá, ficando essa velhama estendida. Em homenagem aqueles velhos que pelearam por lá fizeram uma catacumba, na beira do mato.

Lá, tinha um porto que dava muito peixe. Também, muita gente se aproveitava dos pescadores. Alguém ia pra se fazer de fantasma e saquear algum pescador. Diziam que aparecia muito fantasma, muito lobisomem.

Um dia, convidei uma camarilha de amigos pra dar uma chegada no "Porto dos Assombros". Uns, queriam, outros, não. Eu, também, fazia que queria e não queria, porque a cousa era feia... Aí, os índios disseram: "Tchê, nós saímos logo, meio borrachos, mais engraxados que telefone de açougueiro, do baile do Capixi (porque o Capixi tava dando um baile...)". O velho Capixi era um desses velhos antigos, que domou muito naquela época e ficou meio alcatruzado.

Pobre do Capixi... Dava horror de ver! Era boa criatura. Nunca conseguiu um pila pra botar uma chapa: na frente da boca um dente só; um negro velho, feio! Cabeça mais pelada que sovaco de sapo.

Ele tinha umas mulatas, umas filhas; bonitas como ovo de pelincho!
Os vestidos eram mais floreados que roupa de cigana. Bueno! Aí, combinamos: "No baile do Capixi, tem um concurso de valsa. Depois, nós meio se emborrachamos e vamos "pra picada dos Assombros".

Fomos pro baile, só assistir o concurso. Botamos a mala na garupa, tudo ajeitado: lampião, aquela lambança toda. Chegamos no baile. De repente, ali pelas 10 horas, entaipou a lambança: o gaiteiro, tchê, só tocava pra cima, de tanta gente! Pelos lados, não dava; já se pechava todo mundo... Quando o negro queria rir, tinha que ser de bico, porque pros lados se pechava. Assim, ó de gente! E fomos. Só olhar o concurso de valsa, pra seguir viagem depois.

No concurso tinha um negro, Calandro, de Dom Pedrito; famoso. O prêmio era bom. Parece que o Capixi dava uma novilha ao primeiro colocado. De repente, aquela negrada grudou na valsa. Mas, vou te dizer uma cousa: a indiada tirava os quartos como boneca de mexeriqueira.

A noite inteira, tchê! E grudados na valsa! O Calandro não era trouxa. Escolheu uma mulata velha, dessas delgadas como pulga de tapera, e se atracou com ela. Oiga-le-tê, maula! Mas a cousa saltava fogo! Atracou-se com a mulata... a dançar.

Aquela valsa durou uma hora e pico, mais ou menos. E nós, sempre olhando; com os cavalos prontinhos pra pescaria. De repente o Calandro largou... terminou a valsa, largou a mulata: morta. Caiu morta... Ah! Houve um princípio de bochincho nessa altura. Morreu, a mulata. Naquela corrida toda, gritei. "Vamos pra pescaria, que isso vai dar nó!". Aí vem o doutor!

Já saiu um lá, de auto, buscar o doutor. Este constatou que a mulata dançou 15 minutos, viva, e uma hora e 45 morta. O Calandro a puxou morta! Essa negra dançava mesmo, né? Esse resto, ela dançou morta. Não perdeu o embalo nunca, seu! Ganhou o concurso e o bochincho estourou. E nós, ó... Bueno. Nos mandamos pra pescaria. Esse negócio de bochincho não é comigo: "Vamos pra pescaria que é a nossa finalidade".

Compramos uns pastéis do Capixi (que vendia pastel) e fomos embora. Já na pescaria, o primeiro pastel, que fui comer meio com fome, na bocada, o barbicacho me voou da cabeça. Dava horror, esses pastéis! Quando chegamos na costa do mato, nós já tava com as gadelhas lá em cima.

Desencilhamos os cavalos e atamos à soga a cavalhada. O dono do petiço era bochinchão que dava horror! Companheiro de lá, também.

Nos primeiros passos, nos atropela um lobisomem... E era negro que se atirava na reboleira, se atirava pra sanga... Aquele reboliço. O mato parecia que vinha abaixo. E ali ficamos. O tal de lobisomem sossegou. Bueno, a gente se refrescou. Começamos a cochichar uns com os outros e tal: "Tchê, vamos ver esse lobisomem. Não tá bem isso aí".

Um companheiro, muito mais corajoso do que eu, saiu a procura. Viu que era uma vaca, pesteada de tristeza, que tava dentro do mato. E, uma vaca pesteada de tristeza não tem a quem não atropele! Primeiro susto! Mas, se constatou que era vaca; não tem problema.

Agarramos as malas, de novo, e tocamos pras barrancas do arroio. Chegando no arroio, pegamos a comida que nós levava: só pastel. Daqui há pouco, um dava uma bocada e era chapéu que voava... Pastel do Capixi era só “rrrram”! Sentamos na barranca. Atiramos as linhas n’água. Atiramos longe, não! Olhamos longe, como avestruz em campo pequeno.

De repente, um grito, meio à esquerda? “Mas, o que foi que te aconteceu?”. Bah! A gadelha se foi lá em cima! De novo! Em riba do laço, aquele grito! Na hora que eu tava comendo o pastel... E, voou o chapéu! Paramos o ouvido. Desastre! Começamos a nos olhar. Nós não tinha revólver, não tinha nada, só uns facões.

Resultado do assunto: lá pelas tantas, fomos ver o que era. Chegamos numas reboleiras de unha-de-gato. Era um pedaço de disco da "Jardineira" que tinha quebrado. Alguém botou fora e, com as enchentes, se enredou nas unhas-de-gato. Tava ventoso e quando a unha-de-gato passava ali o pedaço de disco tocava: “Mas o que foi que te aconteceu?”.

Outro assombro! Aí, nos tranqüilizamos de novo. Voltamos pras barrancas do arroio. No que sentamos, o do petiço começou um bochincho com um companheiro. Mas, te falo de bochincho! Saltava tampinha de joelho, ponta de orelha, pé com bota...

E eu, meio borracho, não tava dando importância pra aquela briga. O do petiço se incomoda e queria ir embora. "Vou encilhá meu petiço e vou me embora"! Nem tirei a saber porque eles brigaram. E ele encilhou o petiço. Não demorou 15 minutos o mato parecia que vinha abaixo! E vinha pro nosso lado.

Era o petiço do desgraçado, correndo direto a nós. Agarrou picada adentro e veio que nem uma lista! Só vi quando ele voou pra cima de nós e caiu pro meio do arroio. O desgraçado, borracho, encilhou um capincho que tava dormindo, deixando o petiço. Outro susto!

O capincho se prendeu a velhaquear e saiu correndo direto à água. Terceiro susto! Decidi: “Até vou mudar de porto. Não fico por aqui. Não aguento mais!”. Saí e fui passeando bem aonde tinham pealado a velhama de 93, nas catacumbas. Mas, aí, fui me arrepiando... Nem me dei conta daquilo.

Quando dobrei uma catacumba, um me calçou com um revólver. Mas, um monstro! Não sei bem o que era. "A vida ou a carteira"! gritou. "Mas que vida nova?! Eu já tô morto há 30 anos, chê!!", respondi, na tampa, pra aquela coisa feia! (Pesquisa: Nilo Dias – Continua na próxima edição)


Nico Fagundes participou do 1º Concurso de Causos de São Gabriel.

sábado, 13 de agosto de 2016

CTG Tarumã homenageado

Invernada Artística do CTG Tarumã foi homenageada com um baile na fazenda do senhor João Caminha, em Bagé, em 1968. (Foto: Tarço Maciel, publicada na página do professor Meneghello, no Facebook)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Na Estância dos Galpões

Um silo na "Estância dos Galpões", que se localiza no Batovi. A estância foi mandada construir pelo senhor Manuel Bicca, no ano de 1922. Tinha características de arquitetura colonial portuguesa.

O silo foi construído no mesmo ano. Um dos proprietários da época, era Dodigo Bicca que conheceu esse tipo de silo na Argentina, para armazenar forragem no inverno. Mas segundo o historiador Osório Santana Figueiredo, que ouviu dos antigos, ele nunca foi usado para esse fim.

Quando o historiador o conheceu em 1943, era depósito de couros. Os donos quebraram e tiveram de entregar a estância para o Banco da Província do Rio Grande do Sul, em razão de dívidas, e arrendada por Arcanjo Arleu Petrarca.

Depois foi vendida para Ataliba Rodrigues das Chagas, conhecido por "Doca Chagas", que trabalhava para Arleu Petrarca. "Seu Doca", casado com Rosalina Modernel das Chagas, teve 11 filhos: Toribio, Didino, Gastão, Ari, Luis Carlos, Amélia, Dária, Maria, Ilda, Iracema e Eloisa.

Atualmente a estância encontra-se subdividida. A sede pertence a Eloisa, casada com Birá Neves, pais de Ataliba, casado com Raquel Velasques dos Santos, pais de Melk. Dedicam-se a pecuária.

De acordo com observação do historiador, embora já esteja com 94 anos desde a construção, o depósito está custando a ruir. Sinal de que foi uma obra bem feita. (Foto: Magro Borin)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tio Caio, bateu saudade!

Carlos Dácio de Assis Brasil não era somente um homem bom, querido por toda a comunidade gabrielense. Era muito mais do que isso. Estudioso da vida do próprio avô, inteligente, sincero, amigo. Um verdadeiro líder, na mais pura acepção da palavra.

Foi um idealista. Mesmo sendo um homem de posses preferiu sempre se posicionar ao lado das pessoas mais necessitadas. Por isso filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e chegou até a concorrer a prefeito pela sigla, em 2000, em uma chapa que tinha o saudoso advogado doutor Lanes Bicca, como vice.

Também concorreu a deputado federal pelo PT. Foi um dos primeiros defensores da Reforma Agrária e do Movimento Sem Terra (MST). Ele também defendia fortemente a renovação da política local e foi um dos entusiastas companheiros petistas na eleição que conduziu o então provedor da Santa Casa, Roque Montagner à Prefeitura de São Gabriel.

Antes de ingressar no PT, Carlos Dácio foi vereador e presidente da Câmara Municipal nos anos 70, quando filiado à ARENA. Era também, patrão de honra do PTG Dácio de Assis Brasil.

Seu pai foi uma liderança política

Carlos Dácio nasceu em 1940, dois anos depois da morte do avô materno, o lendário líder político Joaquim Francisco de Assis Brasil. O pai de Carlos Dácio, o doutor Dácio de Assis Brasil, médico e ruralista, era uma liderança política no Estado, tendo presidido a Farsul em dois mandatos, 1957 e 1965.

Foi nesse período que implantou o Sindicalismo Rural no Rio Grande do Sul, quando a Federação das Associações Rurais passou à Federação da Agricultura, adequando-se à Lei do Sindicalismo, aprovada pelo Governo Federal;

E não é só isso: era um homem que primava pela austeridade, dono de uma personalidade marcante. Mesmo sendo médico, foi no ruralismo gaúcho que Dácio de Assis Brasil deixou seu nome gravado para a posteridade.

Foi Presidente da Associação Rural de São Gabriel, fundador e presidente da Cooperativa de Carnes de São Gabriel, quando construiu o Frigorífico Santa Brígida, um dos primeiros a ser instalado no país por entidade do gênero. Organizou e também dirigiu por diversos anos a Cooperativa de Lã Tejupá.

Dácio de Assis Brasil é hoje nome de uma escola, de uma rua e de uma entidade tradicionalista em São Gabriel.

Dona Lina de Assis Brasil

A mãe de Carlos Dácio era a saudosa dona Lina de Assis Brasil, que faleceu em 2003, aos 87 anos de idade. Eu a conheci. Muitas vezes entreguei o jornal “Tribuna de Povo”, de minha propriedade em sua casa, na “Chácara Juca Tigre”. E seguidamente era convidado para um delicioso café da manhã, acompanhado de deliciosas cucas e pastéis apetitosos.

Lembro bem dela. Era uma senhora idosa, simpática e cheia de vitalidade. E sempre estava por dentro de tudo o que se passava na cidade e no país.

Ela era filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, com uma nobre portuguesa. Quando Lina casou e foi viver em São Gabriel, não precisou mudar o sobrenome: o marido era Dácio Assis Brasil, seu primo em segundo grau.

Dácio e Lina, além de Carlos Dácio, tiveram ainda os filhos Ana Maria, casada com Sinval Teixeira da Silveira, Maria Inês, casada com Niwton Valentini, Vera, que foi casada com Marco Aurélio Souto e Jaime Dácio, casado com Clarice Bento Pereira.

Tentativa de homicidio

Em junho de 2010, Carlos Dácio sofreu uma tentativa de homicídio, enquanto dormia em sua residência, na propriedade situada na área verde localizada próximo ao Centro da cidade.

Segundo informações, assaltantes entraram na casa dele para roubar carnes de ovelhas, que tinham sido trazidas no dia, da “Estância Tejupá”, de propriedade do pecuarista. E também estavam em busca de dinheiro, indo até o quarto em que ele dormia.

Carlos Dácio acordou já com um dos assaltantes tentando cortar o seu pescoço com uma faca. Sem conseguir matar a vítima, os assaltantes fugiram, e o pecuarista foi socorrido por familiares e levado até a Santa Casa de Caridade, onde se recuperou.

A notícia causou surpresa e choque, em face de Dácio ser de uma família tradicional na comunidade gabrielense.

Amigo de longos anos

Eu tive a honra de ser seu amigo e admirador por cerca de 30 anos. Muitas foram as jornadas notívagas que empreendemos juntos. Lembro de uma vez em que visitamos vários bares da cidade, num velho carro Ford Corcel que eu tinha.

Na hora de ir para casa, depois de sair do Restaurante Glória, ao dobrar para a rua Celestino Cavalheiro, já sentindo os efeitos etílicos da noitada, acabei subindo a calçada e derrubando parte do muro da residência do doutor Nero Meneghello.

Na manhã seguinte fui falar com o conceituado médico, que era também meu amigo e providenciei a reconstrução da parte atingida. Coisas que acontecem.

Faço essa introdução para dizer que senti muito a morte do grande amigo, ocorrida no dia 23 de setembro de 2013, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

O “Tio Caio”, como era carinhosamente chamado pelos amigos mais íntimos, chegou a ser atendido pelo conceituado e competente médico, doutor Luis Carlos Nunes, mas não resistiu e morreu ao dar entrada no hospital da Santa Casa de São Gabriel.

Eu devo a vida ao doutor Luis Carlos Nunes, que é filho do saudoso amigo e ex-jogador de futebol, campeão da Zona Centro pelo antigo G.E. Gabrielense, João Nunes, “Muquica”. Certa feita eu me encontrava no “Bar Pilequinho”, do amigo Amarílio Flávio Socca, quando tive um mal súbito e fui levado às pressas até o hospital.

Lá chegando, minha pressão estava 26 por 20. Um milagre estar vivo. E fui atendido pelo doutor Luis Carlos, que conseguiu reverter a situação. E graças a ele estou aqui hoje, escrevendo histórias no jornal “O Fato”.

Voltando ao “Tio Caio”, ele já vinha tendo outros problemas de saúde, tendo inclusive sido internado na Santa Casa. Mas como não era homem de ficar preso a uma cama de hospital, insistiu para voltar para casa, ficando aos cuidados de familiares.

Lançamento do livro

A última vez que vi o amigo foi quando do lançamento de meu livro “100 anos de futebol em São Gabriel”, no Museu Nossa Senhora do Rosário, instalado no prédio restaurado da antiga “Igreja do Galo”.

Ele adquiriu dois livros, um para enviar ao seu grande amigo Cláudio Duarte, ex-lateral do S.C. Internacional, de Porto Alegre e depois treinador dos mais competentes.

Antes, nos encontramos num jantar especial realizado na “Chácara Juca Tigre”, na residência do também amigo Luiz Eduardo Assis Brasil, o popular “Seco”.  O Carlos Dácio, com a atenção que sempre lhe foi pródiga, providenciou para mim um delicioso preparado de cachaça com butiá, que estava virado num verdadeiro “néctar dos deuses”.

Me esbaldei bebendo aquela delícia, para depois forrar o estômago com uma carne de ovelha com mandioca, arroz branco e um feijão maravilhoso, enriquecido com um valioso charque ovino.

E para completar o cardápio um maravilhoso assado, digno de reis e príncipes, uma carne tipo exportação trazida pelo amigo João Alfredo Reverbel Bento Pereira. Eu disse na ocasião que foi um jantar digno de recepcionar o presidente Obama.

A cerveja, uísque e cachaça com butiá rolou solta. Meu estomago matou a saudade dessas delícias e agradeceu.

Estavam presentes, além do anfitrião “Seco” Assis Brasil, o seu tio e amigo Carlos Dácio Assis Brasil, que eu não via há muito tempo. Também os amigos João Manoel Macedo, Caio Rangel, Atamarílio Socca, o “Flavinho”, Luiz Marengo, o inigualável “Mudo”, sempre alegre e bem disposto e o saudoso Luiz Porciúncula, o “Popó”, que foi o dono da noite, nos contando alegres histórias. E sem esquecer o amigo Celci, responsável pela excelência dos pratos servidos.

João Alfredo Reverbel BentoPereira

O João Alfredo é visitante ativo da “Chácara Juca Tigre”, não perdendo nenhuma das recepções feitas pelo amigo comum Luiz Eduardo, o “Seco”. E me aproveitei disso para pedir-lhe que contasse alguma história, um fato, enfim qualquer coisa envolvendo o nosso saudoso “Tio Caio”.

E como não poderia deixar de ser, a resposta veio pronta:

“No velório do Carlos Dácio, fiquei ao lado do Tiago Nobre. Perguntou-me por sua idade e confirmei: 72 anos (era de novembro de 1940). Disse-lhe que a nossa diferença de idade era de quatro anos, o que, agora, parece pouco, mas, quando jovens, pesava bastante.

Sua turma era outra que não a minha e sempre convivemos pouco. Isso, porém, não me impede de reconhecer que se tratava de uma pessoa singular, com suas idiossincrasias, mas quem não as têm? Mas sempre foi íntegro, correto e justo.

Aliás, isso não surpreende, pois tinha um pai e uma mãe admiráveis. Foi das poucas e raras pessoas que incursionaram pela política, saindo ileso, intacto e inteiro. Era e sempre foi um homem com agá maiúsculo. Até um dia, meu amigo”.

Abaixo, duas historinhas verídicas dele e que me foram repassadas pelo “Seco”, o seu sobrinho.

“Tio Caio” era muito amigo de um antigo taxista, o Neri. Um certo dia, fez diversas encomendas e lhe emprestou o seu melhor carro para que fosse até Rivera, buscar alguns produtos alimentícios e etílicos. O taxista deixou o seu carro com ele, com a devida identificação. E o Carlos Dácio saiu a passear pela cidade.

Nisso, começou uma garoa miúda e cáustica. No centro, um casal da campanha, devidamente paramentado, fez sinal para o taxi. O motorista estacionou e o gauchinho perguntou se podia levá-los até o Engenho Gabrielense.

Com sua pronta concordância, deixou-lhes no destino certo. O gauchinho perguntou-lhe quanto devia pela corrida e o Carlos Dácio: "nada, pois eu não cobro em dias de chuva". E seguiu o seu caminho, ante o olhar pasmo do passageiro.

O mesmo Carlos Dácio sempre gostou de carros velhos. Entre esses, tinha uma Brasília esmerilhada. Na época, morava na Baltar, próximo ao Parque de Exposições que leva o nome do seu avô materno. E era dia de exposição. Saiu na Brasília e logo foi parado por uma barreira da Brigada Militar, pouco antes da ponte do rio Vacacaí.

Os brigadianos, educadamente, pediram que estacionasse, desligasse o motor e apresentasse os documentos do veículo, bem como sua habilitação. Constrangido, o motorista explicou que havia saído de casa, assim como estava e esquecera os papéis do carro e seus documentos.

Disseram-lhe que, sendo assim, teriam que apreender a Brasília e, após, a levariam para o depósito (naquele tempo, não havia guincho). O Carlos Dácio fez o que lhe fora mandado fazer, desceu do carro e entregou as chaves do veículo.

Os brigadianos devem ter pensado na amolação de tudo aquilo, ainda mais que teriam de levar o veículo até o depósito. Convencidos da boa-fé do condutor e que já ia se afastando, devolveram as chaves do carro, dizendo-lhe que, da próxima vez, tivesse mais cuidado.

Aí, ainda mais constrangido, pediu que empurrassem o carro, pois estava sem bateria. Os brigadianos não tiveram outra alternativa, até a Brasília pegar no tranco.

O João Alfredo é uma pessoa especial. Embora sendo um homem de posses, membro de família respeitável, a exemplo do saudoso “Tio Caio”, sempre preferiu a companhia daqueles que ele mesmo chama de “amigos de verdade”.

Sei que são muitos, por isso não me atrevo a citá-los, pois com certeza correria o risco de esquecer de algum. E sei que o João Alfredo não iria me perdoar.

Tenho a coleção completa de seu livro “Amenidades”, que anualmente é atração na Feira do Livro de São Gabriel. São historinhas reais, gostosas de ler. Sou seu fã de carteirinha.

Ninguém conhece o butiá

Mas voltando a falar no butiá, aqui por Brasília ninguém conhece. Uma vez eu consegui alguns bons frutos em São Gabriel. Preparei a bebida, que ficou três meses em infusão, e depois levei dois litros para que os amigos do bar que frequento, provassem.  Os caras se esbaldaram e beberam tudo em pouco tempo.

Lembro que o meu saudoso sogro, Gelcy Motta, que tinha um armazém frente a antiga Ponte Seca, todos os anos preparava vários garrafões da bebida, que depois vendia no decorrer do ano. Importante, ele não “requentava” o butiá, colocando mais cachaça depois que os garrafões secassem, como fazem alguns comerciantes.

Eu até me arriscaria em sugerir que algum vereador, também consumidor da gostosa bebida, entrasse na Câmara Municipal com um projeto aclamando essa como a bebida oficial da cidade. E quem sabe, até merecesse uma festa anual.

Da próxima vez que for a São Gabriel, vou procurar alguma muda de butiazeiro. Quero plantar aqui em casa. Tinha receio que não pegasse, mas li em uma publicação na Internet que a planta se dá bem em qualquer lugar.

Se não conseguir a muda, vou experimentar plantando o caroço. Dizem que também pega, mas leva mais tempo. Desde já conto com a colaboração de algum amigo, que possa me arranjar uma muda. Vou buscar quando for aí.

Estância Tejupá

“Tio Caio” nunca negou que se pescasse na sua propriedade rural, a Estância Tejupá. O nome é indígena e significa “casa modesta”. No passado foi posto da “Estância Tiaraju”, pertencente ao general Ptolomeu Assis Brasil.

O general nasceu em São Gabriel no dia 26 de março de 1876. Era filho do estancieiro Francisco de Assis Brasil e de Josefina de Assis Brasil.

Combateu na Revolução de 1893/95, sendo um dos chefes da Revolução de 1930. Governador do Estado de Santa Catarina (1930/32), engenheiro, geógrafo, localizou as posições dos exércitos que combateram nas batalhas de Cayboaté (1756) e de Ituizaingo (1827).

Casou-se em primeiras núpcias com Arlinda Porto de Castilhos, filha do coronel José Seraphim de Castilhos, conhecido como “Juca Tigre”.

Seu irmão, Joaquim Francisco de Assis Brasil foi várias vezes embaixador na Argentina, constituinte de 1891, embaixador nos EUA de 1898 a 1903, revolucionário de 1923 e 1924, deputado federal de 1927 a 1928, revolucionário de 1930, ministro da Agricultura de 1930 a 1932 e constituinte de 1934, tendo-se destacado como chefe do Partido Libertador e um dos mais importantes líderes políticos gaúchos.

O general Ptolomeu foi o autor do livro “A Batalha de Caiboaté”, onde fez a descrição dos antecedentes jurídicos e históricos do conflito. Retrata a vida cotidiana nas Missões e aponta o grau de sociedade comunitária e o progresso alcançados.

Expõe também os números da chacina: morreram, do lado dos ibéricos, apenas três homens – de um contingente de 3.700 soldados –, ao passo que foram massacrados 1.300 índios em uma hora e 10 minutos.

O autor estudou o caso como historiador e militar. Muniu-se de trena, mediu trechos a pé, confrontou informações obtidas no diário do comandante luso, tudo para ser o mais fidedigno possível na realização da obra e mostrar a grandeza do índio Sepé. Descrição física: 134 páginas

Eu estive na “Estância Tejupá” em três ou quatro oportunidades, sempre acompanhado do tenente Alci Dutra e do Flávio Lucca, meus inseparáveis companheiros de linha e anzol.

Lembro bem da estância. Era um lugar muito bem cuidado. Já na entrada se podia observar o capricho do proprietário. Grama bem aparada e flores coloridas nos jardins.

Matéria interessante

O jornal “Diário de Santa Maria” publicou interessante matéria sobre Carlos Dácio, com o título “O herdeiro intelectual de Assis Brasil”.

A publicação salientou que Carlos Dácio, intrigado com as histórias que cercavam o seu lendário avô, passou a buscar mais subsídios sobre tantos feitos contados por sua mãe.

Tendo a origem Assis Brasil nos dois lados, Carlos Dácio assumiu a responsabilidade de perpetuar a história da família. Seu avô paterno, Ptolomeu de Assis Brasil, filho de Antônio e sobrinho de Joaquim Francisco, era general do Exército e combateu na Revolução Federalista, de 1893-1895. Também foi um dos chefes da Revolução de 1930, o que o levou a ser interventor de Santa Catarina, no período de 1930-1932.

Já o avô materno de Carlos Dácio, Joaquim Francisco de Assis Brasil, foi um revolucionário das ideias, longe de ser um homem de combate. Foi um pioneiro, um inovador, um homem do mundo.

Carlos Dácio leu e releu todos os livros escritos por Joaquim Francisco. Sabia cada detalhe da vida do avô, do contexto político e histórico do momento e teve um entendimento muito articulado sobre o andar dos tempos.

Carlos Dácio dizia que sempre admirou o avô, que foi um homem de muitas ideias políticas e rurais sempre à frente de tudo. Seu avô era a favor da universalidade de escolha – dizia, na casa que era de sua propriedade em São Gabriel, onde fica um marco na “Sanga da Bica” que sinaliza o provável lugar da morte de Sepé Tiaraju, o índio guarani que virou herói ao lutar contra o domínio luso-espanhol no século 18.

Na biblioteca da antiga casa dos pais, onde vivia em São Gabriel, Carlos Dácio guardava algumas bandeiras, como as do Rio Grande do Sul e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Era dono de terras e, assim como seu avô, acreditava na reforma agrária. E, por isso, causava o mesmo tipo de estranheza de Joaquim Francisco, perpetuando um tipo de pensamento argumentado e racional que marcou a trajetória do avô.

Segundo Dácio, os primeiros a receber terra no Brasil foram os que ajudaram a guardar as fronteiras. Ganhavam-se títulos de terra e o direito de formar pequenos exércitos.

E o que foram a capitanias hereditárias? Isso que, naquele tempo, ganhava-se terra sem o compromisso de produzir. Depois, houve reforma agrária com os imigrantes italianos e alemães. Pregava a busca da igualdade social. A agropecuária não adianta nada se as pessoas passam fome, dizia.

Acho que vale a pena relembrar aqui, um artigo escrito pelo amigo Bereci da Rocha Macedo, em seu blog, quando do falecimento de Carlos Dácio:

Fraterno amigo

Registro, com acentuada tristeza, o passamento do fraterno amigo, Carlos Dácio Assis Brasil. Sou avesso a homenagens póstumas, portanto não encarem estas palavras como uma.

Acontece que muitas vezes somos atropelados pela morte. Um dever moral, porém me obriga a escrever algo sobre esse cidadão culto, inteligente, solidário, pacífico e humano que ora nos deixa.

Tivemos um excelente e prolongado convívio político/social e durante esse período avaliei sua lealdade para com sua gente e seu extremado amor pela sua cidade.

Nossa convivência foi pautada pelo respeito mútuo e pelas regras da civilidade. Atrevo-me a dizer que Carlos Dácio Assis Brasil mais não fez pela sua terra porque ela mesma lhe negou mandatos para tanto.

Posso afirmar, sem medo de errar, que o Carlos Dácio pelas suas qualidades e seu indiscutível preparo intelectual poderia muito ter contribuído com o engrandecimento de São Gabriel.

Lamentavelmente isso nunca dependeu somente da sua vontade, mas da vontade da maioria da coletividade, o que lhe faltou. Foi um bom vereador, mas poderia ter sido muito mais se não lhe tivessem negado o passaporte.

Posso ainda afirmar que em determinados momentos o dileto amigo Carlos Dácio foi usado por muitos e prestigiado por poucos. Quem conviveu com ele pode atestar quanta razão me assiste.

Tanto a Prefeitura Municipal, como a Câmara Municipal, decretaram Luto Oficial por três dias em decorrência da morte do ex-vereador Carlos Dácio de Assis Brasil, ocorrida em 23 de setembro de 2013.


O corpo foi velado na Chácara Juca Tigre, e sepultado no cemitério local com grande acompanhamento. Sandra Xarão, que presidia o Legislativo Municipal, disse na ocasião que “São Gabriel não perdeu apenas um empresário e um político, mas um grande homem que passa a integrar a história de nossa cidade”. (Pesquisa: Nilo Dias - Matéria publicada no jornal "O Fato", de São Gabriel-RS))

Carlos Dácio e Nilo Dias, quando do lançamento do livro "100 anos de futebol em São Gabriel".